Tarzan do Macacos, um livro de 100 anos


Entre as várias efemérides literárias -- centenário de Jorge Amado, 25 anos sem Drummond -- de 2012, uma anda passando meio despercebida: os 100 anos da publicação do que Ray Bradbury considerava o "mais influente romance do século 20", Tarzan dos Macacos, de Edgar Rice Burroughs.

Claro, aqui e ali as pessoas começam a falar no "centenário de Tarzan" mas, na maioria dos casos, as manifestações de apreço pelo personagem logo enveredam por sua longa carreira cinematográfica, ou nos quadrinhos; pouca gente faz referência aos livros, dos quais Burroughs produziu mais de 20, e que depois contaram com autores do calibre de Philip José Framer e Joe R. Lansdale.

O que é uma pena, e uma injustiça. Afinal, foi a publicação de Tarzan dos Macacos, em 1912, que que lançou o mito -- e Tarzan, o homem-macaco, é o mito por excelência. Mais até do que outros candidatos, como Sherlock Holmes ou o Superman, Tarzan é um caso especial de construção de mitologia, de um nome, uma imagem, um conjunto de atributos que colam na cultura e entranham-se nela, a ponto de as pessoas se esquecerem da origem humana e artificial daquilo tudo. Falar que Tarzan teve um criador -- para além de Kala, a macaca que o amamentou na selva africana -- soa quase tão estranho quanto imaginar que Hércules teve um pai além de Zeus.

Alguém poderia suspeitar de que esse caráter mítico deriva tanto da força do personagem quanto da fraqueza do autor: se nos lembramos de Conan Doyle como criador de Sherlock Holmes mais facilmente do que nos lembramos de Burroughs como criador de Tarzan, é porque o texto de Conan Doyle tem um valor e uma força que ombreiam o valor e a força do grande detetive. Burroughs, um escritor mais limitado, não teve e mesma sorte.

Mas "limitado" em que sentido? O Burroughs das aventuras de Tarzan certamente não tem nenhuma sofisticação de estilo. Seu talento está na criação de cenário, personagem e situação. O melhor que se pode dizer de seu uso da linguagem é que ele não a deixa ficar no caminho: o texto é claro, conciso, quase transparente. E, se não ajuda, também certamente não atrapalha o desenvolvimento da trama. (Quem já teve a experiência de tropeçar numa frase ruim ou numa metáfora estúpida sabe certamente reconhecer o valor de um texto que não machuca o ouvido ou a sensibilidade do leitor, expulsando-o do livro).

Ele era um mestre do suspense, da coincidência e do mal-entendido, desenvolvendo situações em paralelo -- aqui vemos o que está acontecendo com Jane; no próximo capítulo, o que Tarzan faz, sem saber o que se passa com sua amada; no seguinte, como Jane reage ao que imagina que Tarzan deve estar fazendo -- que põem o leitor na agonizante posição de saber mais do que os protagonistas e ser incapaz de avisá-los do que os espera.

Burroughs também era um autor econômico, algo impensável nesta era de best-sellers de milhares de páginas, espalhadas em incontáveis volumes. Hoje em da, os eventos narrados nas pouco mais de 200 páginas de Tarzan dos Macacos -- o motim de piratas que deixa os pais de Tarzan naufragados na costa africana; o nascimento do menino; a morte dos pais; a adoção pelos macacos; a infância e a juventude na selva; o primeiro contato com seres humanos; o apaixonar-se por Jane; a partida para os Estados Unidos -- seriam facilmente distribuídos por duas ou três trilogias, com volumes de 500 páginas cada.

Tarzan dos Macacos também tem dois aspectos que são pura ficção científica: o primeiro é a identidade dos primatas que adotam o jovem lorde inglês. Muitas vezes tratados por "gorilas", os Grandes Macacos (como são chamados no livro) na verdade não correspondem a nenhuma espécie conhecida de símio, tendo uma linguagem e uma cultura muito mais sofisticadas do que as dos animais do mundo real.

O segundo, e mais delicado, é o fato de Tarzan conseguir aprender a ler por conta própria, apenas folheando os livros que encontra na cabana construída por seu pai humano na mata.

Burroughs tenta suavizar a inverossimilhança mencionando o fato de que, entre os livros, havia cartilhas e obras infantis ilustradas, mas o efeito em si -- uma criança não só aprender a ler por conta própria, mas descobrir os conceitos de leitura e escrita sem jamais ter tido contato com a ideia, aprendendo até mesmo a usar corretamente conjunções, preposições e pronomes sem jamais ter ouvido uma voz humana atriculá-las -- é tão ultrajante quanto o Homem Invisível de HG Wells. E, assim como Wells, Burroughs sai-se muito bem, convencendo o leitor da (falsa) plausibilidade dos eventos, ao menos pela duração do livro.

Há, ainda, a velha acusação de que Tarzan, o personagem e o livro, é racista. E, de fato, há apenas dois tipos de personagens negros em Tarzan do Macacos:  selvagens canibais e uma empregada doméstica que está ali apenas para propiciar alívio cômico, desmaiando a torto e a direito e cometendo violências contra gramática piores que as de Tarzan. O que se pode dizer para equilibrar esse fato bruto é que os personagens brancos também não se saem muito melhor: são, no geral, piratas, vilões, assassinos, covardes pusilânimes e interesseiros.

Por exemplo, o professor Porter,  pai de Jane, é ora um idiota, o esterótipo do cientista  maluco, ora um velho insensível disposto a vender a filha em casamento para um milionário, a fim de financiar suas pesquisas. O único homem branco honrado do livro, além de Tarzan, é o marinheiro francês Phillippe D'Arnot, que se torna o primeiro (e único) amigo humano do rei da selva.

O Tarzan dos livros é não só um gigante físico, mas também cultural -- no segundo volume da saga, O Retorno de Tarzan, somos informados de que em Paris, a convite de D'Arnot, ele passa os dias nas bibliotecas e as noites, nos teatros e cabarés.

Tarzan dos Macacos foi mesmo o romance mais influente do século 20? Talvez. Ele, afinal, definiu o modelo de herói -- forte, inteligente, cortês, cavalheiresco, curioso, crítico da sociedade mas capaz de viver dentro dela, amante da natureza, leal para com os amigos e fiel para com a mulher amada, alguém que não busca a violência deliberadamente, mas que também não se esquiva dela quando a causa é boa -- que seria reproduzido, ad infinitum, em obras das mais diversas mídias, por todas as décadas seguintes.

A imagem de Tarzan é tão forte que muitas pessoas talvez ainda tenham nele seu ideal pessoal, o homem que gostariam de ser (ou que gostariam de ter) mesmo sem saber que esse ideal é, no fim, um homem-macaco literário criado por um autor iniciante em 1912.

Muitos dos livros originais de Burroughs estão já em domínio público, e usuários do Kindle podem baixar vários dos romances, gratuitamente, da Amazon.

Comentários

  1. Quando aprendi a ler, não conseguia atravessar um livro sem que houvesse muitas dificuldades. O primeiro livro que li "sem enroscar" foi "Tarzan, o Magnífico". Depois de adulto, não voltei a ler os livros do Edgar Rice Burroughs, mas provavelmente seu estilo direto e sem firulas foi o responsável pela minha atual compulsão de leituras.

    ResponderExcluir
  2. Tarzan também marcou minha infância e não só pelas infinitas reprises dos filmes no SBT. Nas férias de verão meu pai lia em voz alta para mim e meu irmão livros da coleção Terra,Mar e Ar da Companhia Editora Nacional, entre eles alguns do Tarzan. Mas vou confessar que meus favoritos mesmo eram os do Emilio Salgari..

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

O financiamento público da pseudociência

A maldição de Noé, a África e os negros