sábado, 24 de dezembro de 2011

E por falar em estrela de Natal...

A Nasa divulgou a imagem abaixo, feita no dia 22 a bordo da Estação Espacial Internacional, mostrando cometa Lovejoy (descoberto no início do mês por um astrônomo amador australiano, Tom Lovejoy) passando por trás do horizonte terrestre. Originalmente, supunha-se que o Lovejoy teria sido destruído durante sua passagem pelo Sol, em 16 de dezembro. No fim, ele não só sobreviveu como ainda ofereceu o espetáculo abaixo. Via o blog DotEarth, do New York Times:


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Planetas, planetas à mancheia...



Ontem me perguntaram no Twitter qual a principal descoberta científica de 2011 e eu, para fugir das biomédicas (que geralmente são as que chamam mais atenção) respondi: a enxurrada de novos planetas descobertos. E, como se para confirmar minha impressão, algumas horas mais tarde saiu a notícia de que cientistas haviam confirmado a existência de dois planetas do tamanho aproximado da Terra, os tórridos Kepler 20e e Kepler 20f.

Esta não é a primeira descoberta importante do Kepler anunciada neste mês: no início de dezembro, tinha sido apresentada a confirmação do primeiro planeta dentro da zona habitável de uma estrela semelhante ao Sol, o Kepler 22b, com quase 3 vezes o raio da Terra.

Esses anúncios esporádicos de certa forma mascaram a caudalosa produção científica que a sonda Kepler, um satélite capaz de medir a luz das estrelas com uma precisão tal que consegue notar quando um planeta passa diante de uma delas (imagine, em comparação, um fotômetro que avisa quando um grão de poeira flutua diante de uma lâmpada), viabilizou. A lista de artigos pode ser encontrada aqui. Apenas sobre o tema de planetas extrassolares, foram 84 artigos em 2011.

O mundo da caça a planetas extrassolares é extremamente competitivo, e por isso é importante destacar que o Kepler não é o único bambambã da cidade: em setembro, o ESO, observatório mantido por um consórcio de países europeus no Chile -- e ao qual o Brasil parece estar prestes a se associar -- havia anunciado a descoberta de uma batelada de 50 novos planetas, e a sonda francesa CoRoT (que conta com participação brasileira) também tem, a seu crédito, mais de 20 descobertas registradas na Enciclopédia de Planetas Extrassolares.

Com tudo isso, o total de mundos encontrados além do nosso minúsculo Sistema Solar chega a mais de 700. Sistemas com múltiplos planetas -- como o nosso, composto por oito ou nove, dependendo de como você se sente a respeito de Plutão -- são cerca de uma centena.

A grande maioria desses planetas ainda é mais parecida com Júpiter do que com a Terra -- dos cerca de 200 planetas cujo raio é conhecido, metade tem o tamanho aproximado do maior mundo do Sistema Solar -- mas isso parece ser mais um desvio causado pelas limitações da nossa tecnologia (planetas gigantes são mais fáceis de achar) do que um fato da natureza. Os dois novos planetas do Kepler são importantes também porque sugerem que mundinhos mixurucas como a Terra podem, sim, ser comuns.

Neste exato momento, sabemos que há planetas que, em tese, seriam capazes de manter água em estado líquido em suas superfícies; e sabemos que há planetas de tamanho semelhante ao da Terra. Resta encontrar  um planeta que reúna ambas as condições. E então ver se há vida por lá.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Estrela de Belém: da astronomia à literatura

Chegando o Natal, o tema da "identificação" da Estrela de Belém tende a ressurgir na mídia. Para os infiéis mais desligados: essa estrela teria sido um fenômeno astronômico, ainda hoje não adequadamente identificado, que mostrou aos Reis Magos o caminho de sua pátria oriental até a casa de José em Belém, onde se encontrava o Jesus recém-nascido.

(Um aparte: a ideia de que os visitantes eram "reis", cada um deles representando uma das raças não-semíticas predominantes do Velho Mundo -- um amarelo oriental, um branco europeu, um negro africano -- não tem apoio bíblico: o texto fala em magi, palavra usualmente traduzida como "magos", mas também usada em referência a sacerdotes do culto zoroastrista da Pérsia e, por extensão, a sábios e doutos em geral. Em inglês, eles são chamados apenas de wise men, "sábios". O texto do Evangelho de Mateus, único a mencionar esses magi, também não diz quantos eram eles. O número de três é deduzido a partir das três substâncias oferecidas em tributo ao messias: ouro, incenso e mirra.)

O fato de a "estrela" ser um fenômeno não-identificado até hoje faz com que encontrar especulações sobre sua natureza, nesta época do ano, seja algo tão previsível, no jornalismo de divulgação científica, quanto receitas de peru e dicas sobre frutas secas, nos cadernos de gastronomia. Em seu livro The Nativity, o historiador Geza Vermes menciona três candidatos mais frequentes: uma supernova (hipótese explorada magistralmente por Arthur C. Clarke em um de seus mais potentes contos), o cometa de Halley ou uma conjunção planetária especial.

Vermes, no entanto, despacha rapidamente esses contendores, pois da supernova não há confirmação, e tanto o cometa quanto a conjunção vieram no tempo errado, cedo demais -- em 12 e 7 AEC -- para bater com a timeline do nascimento de Jesus, que de acordo com o que se depreende dos Evangelhos teria de ter ocorrido em 5 AEC.

Além disso, o historiador diz que a busca astronômica pela estrela não faz sentido, já que sua presença no texto é muito provavelmente simbólica. "Toda a evidência disponível mostra que o miraculoso corpo celeste (...) pode ser melhor explicado por meio de considerações literárias, e não astronômicas", escreve o estudioso.

A primeira pista levantada por Vermes é uma profecia atribuída a Balaão, o do famoso asno: "Uma estrela virá de Jacó e um cetro se erguerá de Israel". Segundo o pesquisador, muito da literatura judaica corrente nos séculos que compreendem a composição do texto de Mateus interpretava essa referência a "estrela" e "cetro" como metáfora para um rei messiânico.

Além disso, outras tradições associavam luzes brilhantes ao nascimento de importantes figuras da mitologia judaica: Vermes fala de relatos que davam conta de que Noé e Moisés, por exemplo, teriam nascido em meio a uma grande radiância. Um texto medieval associa ao nascimento de Abraão o surgimento de uma nova estrela no céu. Os romanos também tinham uma crença semelhante: que o nascimento de grandes homens era marcado pelo aparecimento de estrelas nunca antes vistas.

Aliás, não só o advento de Otaviano -- o futuro César Augusto -- teria sido marcado pelo surgimento de uma estrela, como o Senado romano, assustado com o oráculo de que um rei havia nascido na cidade ferozmente republicana, teria proibido que fossem criados meninos por um prazo de 12 meses, num curioso paralelo com o mito do massacre dos inocentes por Herodes. Numa nota oposta, bem mais tarde um cometa foi interpretado como sinal de que o reino de Nero estava chegando ao fim.

Vermes também nota que, por volta de 69 EC, alguns anos antes do período em que o texto de Mateus provavelmente foi escrito, surgiram boatos de que um "rei do mundo" surgiria da Judeia. Os romanos viram a profecia realizada quando Vespasiano -- comandante das forças que combatiam o levante dos judeus -- tornou-se imperador. Já os judeus rebeldes provavelmente encararam o boato como um portento messiânico. E quebraram a cara. Mas a associação entre estrelas, nascimentos de reis e a profecia do "rei do mundo" pode ter ficado -- provavelmente ficou -- fulutando na cultura.

"Nesse contexto", escreve Vermes, "não é irracional supor que a ideia da estrela e a narrativa dos magos" tenham surgido do clima cultural do "período de gestação" dos Evangelhos. Ele conclui seu comentário lembrando que uma estrela-guia desempenha um papel importante na Eneida, composta mais ou menos na mesma época.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Os legados de Christopher Hitchens

One of the joys of living in a world filled with stupidity and hypocrisy was to see Hitch respond. That pleasure is now denied us
(Sam Harris)

Eu devia ter escrito algo sobre a morte de Hitchens já há alguns dias, mas passei o fim de semana no Rio de Janeiro sem acesso decente à internet, então não deu para lançar nada no blog. Daí é que, com atraso, sai esta postagem.

O principal legado de Christopher Hitchens é, obviamente, sua obra. Mal recebi a notícia de que ele havia morrido, baixei no kindle seu mais recente livro de ensaios, o Arguably. Lá estão a prosa ao mesmo tempo elegante e contundente, a descocertante combinação do eufemismo irônico com a honestidade bruta, um equilíbrio que Hitchens sabia manter como ninguém, manobrando com eficiência entre os abismos da afetação irritante, de um lado, e o da mera grosseria, do outro.

Mas esta postagem será sobre outro tipo de legado deixado por Hitchens, o legado oferecido por sua ruptura com o que ele mesmo chamava de "esquerda antiimperialista" e por sua campanha sem tréguas contra aquilo que "envenena tudo", a religião.

No primeiro caso, é notável que o jornalista, britânico de nascimento e naturalizado americano, tenha tido a estatura moral de sair do Fla-Flu ideológico a que o mundo parece, em vários níveis, reduzido. Como Richard Dawkins nota na entrevista que fez com Hitchens para a edição de Natal da revista New Statesman, quando se sabe a opinião de uma pessoa sobre um tema controverso -- pena de morte, por exemplo -- é possível prever, com alto grau de precisão, o que a mesma pessoa pensa sobre vários outros assuntos, da legalização do aborto à invasão do Iraque.

No caso de Hitchens, no entanto, esse tipo de "perfil ideológico" não funcionava. Obituaristas preguiçosos valeram-se do fato para afixar nele a pecha de "contraditório", mas o ponto não era esse: o ponto era que Christopher Hitchens formava suas opiniões de acordo com sua própria consciência, e não para agradar à manada.

A pressão de grupo, ou o "poder de manada" das ideologias (e das religiões, por falar nisso) é tão grande quanto pouco mencionado. Em seu romance O Homem Demolido, o escritor de ficção científica Alfred Bester imagina a existência de um grupo de pessoas capazes de se comunicar por meio da transmissão de pensamentos; esse grupo vive sob regras estritas, e a única pena para os violadores do código da guilda é a exclusão: todos os demais telepatas fecham suas mentes para o rebelde, que se vê condenado à terrível pena de só poder se comunicar com pessoas "inferiores", as que dependem do uso rude da palavra.

O homem de esquerda (ou de direita, ou o católico, luterano, judeu, muçulmano) que deixa de recitar a "linha do partido" sofre um tipo de exclusão semelhante no mundo polarizado atual. A tendência do militante que se vê excluído dessa forma é cair nos braços do polo oposto -- de fato, seus ex-colegas assumem que foi exatamente isso que aconteceu.

(Essa tendência de tratar o dissidente como vira-casaca é uma forma muito conveniente de defesa das próprias crenças: é fácil descontar as opiniões de uma pessoa que discorda de você em tudo -- basta presumir que ela está errada ou tem má-fé -- mas pessoas que discordam parcialmente são especialmente perturbadoras: é difícil descontar como canalha ou idiota alguém que, em alguns temas importantes, chegou às mesmas conclusões que você.)

Hitchens, no entanto, manteve-se suficientemente fiel à própria consciência para abandonar o "consensão" da esquerda sem, no entanto, aderir ao "consensão" da direita. Ao mesmo tempo em que era capaz de defender o uso do poderio militar americano para derrubar ditaduras e de dizer que a independência dos EUA tinha sido a única revolução legítima da modernidade, ele também condenava os "métodos avançados de interrogatório" da CIA como tortura, elogiava o romance socialista de Upton Sinclair, The Jungle, e, claro, condenava de modo veemente a interferência da religião na vida pública.

Isso faz dele um homem contraditório? Só se você assumir que os "consensões" a que ele se recusava a aderir são perfeitamente consistentes e mutuamente excludentes. Eu, cá comigo, já tenho minhas dúvidas.

A segunda lição de Hitchens que eu gostaria de destacar é forma virulenta, impiedosa, quase cruel, com que ele atacava as religiões em geral. Uma de suas últimas frases de efeito -- a de que, nos anos 30, em boa parte da Europa catolicismo conservador e fascismo eram virtualmente sinônimos -- é tão cortante quanto lúcida e verdadeira.

Entre os ateus anglo-saxões há uma expressão, "tone trolls", ou "trolls de tom", usada para se referir aos que não se cansam de pedir um tratamento respeitoso da religião, uma moderação nas críticas; enfim, pessoas que, embora não discordem da substância do que dizem os ateus mais loquazes, queixam-se do tom em que aquilo é dito.

Hitchens era um alvo fácil para os "tone trolls", mas em minha opinião sua virulência revelava um profundo respeito, não pelas ideias religiosas que ele tanto desprezava, mas pelas pessoas que mantinham (e mantêm) essas ideias. Ao atacá-las abertamente, ele se recusava a tratar os religiosos como crianças que precisam ser mimadas, ou como idiotas que requerem condescendência. Se existe uma arrogância dos ateus, é a de supor que os teístas são todos uns neurastênicos inflantiloides, incapazes de assimilar críticas explícitas com equanimidade.

Se Christopher Hitchens achasse que as ideias de alguém eram esúpidas, ele diria isso, e explicaria o porquê. Trata-se de uma combinação de coragem e honestidade muito rara neste nosso mundo tomado por patrulhas de "consensões" e de "tone trolls". Por isso, entre outros motivos, ele fará muita falta.