quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tá, mas para quê serve esse tal de Higgs?

Imagino que todo jornalista de ciência que está -- ou que já esteve -- ligado à grande mídia conhece a sensação: você começa a explicar ao editor por que é importante publicar algo sobre a descoberta X ou o experimento Y e, de repente, os olhos dele ficam vidrados, o cara abre a boca uma, duas vezes e, por fim, balbucia: "Tá, mas o que isso tem a ver com o mundo real?"

Essa parte sobre "mundo real" é complicada, principalmente para quem trabalha com jornal ou TV, onde os recursos são altamente limitados (papel e tempo, respectivamente), mas também, cada vez mais, com produtos online -- já que a exposição na home-page (finita) do portal influencia a audiência de modo dramático, e a contagem de cliques é a medida suprema de relevância. 

Dadas essas limitações, veículos de interesse geral -- grandes jornais, revistas, sites noticiosos -- tendem a, compreensivelmente, priorizar o chamado "hard news" (escândalos políticos, índices de inflação, estupradores à solta) e o serviço (datas de vestibular, informações de trânsito, defesa do consumidor). O que obriga a ciência a competir por espaço com o chamado "infotainment", ou "entretenimento informativo" -- fofocas de celebridades, galinhas de duas cabeças, Pés-Grandes, etc. 

(O jornalismo cultural enfrenta um problema parecido, mas os jornais impressos, principalmente, ainda veem os cadernos culturais  mais "densos", publicados no fim de semana, como fonte de prestígio, mesmo que muito pouca gente os leia; já cadernos de ciência...)


Há uma estratégia, da qual eu mesmo fui adepto durante muito tempo, de tentar conquistar espaço disfarçando a ciência como "infotainment", de certa forma contrabandeando-a em meio à bizarrice geral: usar a galinha de duas cabeças para discutir seleção natural, ou avistamentos de óvni para tratar de vieses cognitivos, por exemplo. 

O problema dessa manobra é que ela tende a escapar do controle -- usar a ciência para pôr rédeas no infotainment é como uma pulga tentar pilotar um elefante. Ou, como costuma acontecer com os policiais infiltrados na Máfia nos filmes de Hollywood, uma hora já não se sabe mais o que é do disfarce e o que é da essência. Aí o disfarce engole a essência e viramos o Discovery Channel.

A tediosa digressão acima me ocorreu enquanto eu refletia sobre a forma como o anúncio dos mais recentes resultados sobre a busca pelo bóson de Higgs no LHC foi tratado na Globo News e, depois, no Jornal Nacional. Na GNews, houve uma tentativa desesperada de se buscar uma conexão com o "mundo real" -- qual a relevância mediata, queria saber a apresentadora, dos resultados? Um físico presente ao estúdio tentava contextualizar a pesquisa, dar uma ideia do que é o Modelo Padrão de partículas... Mas a impaciência, a cara de e daí? da jornalista era inconfundível.

Já no JN, William Bonner anunciou que os cientistas tinham visto sinais de -- cito de cabeça -- "uma das primeiras partículas a surgir logo após a origem do Universo", frase acompanhada de umas imagens coloridas, e pronto. Uma tentativa, meio morna, de gerar "infotainment".

Esses dois polos -- o de forçar a barra em busca de relevância imediata e o de forçar a barra em busca de um efeito de "infotainment" hiperbólico -- são exemplares de como temas científicos acabam sendo tratados, nesse contexto midiático de pouco tempo, pouco espaço, pouca atenção.

Mas, enfim, para que serve o bóson de Higgs? Se a questão se refere ao que a partícula supostamente "faz" no mundo físico, tem uma boa explicação aqui, neste texto do Guardian. Se a questão tem um espírito mais filosófico, a descoberta do Higgs dará consistência à teoria predominante sobre as partículas que compõem o Universo, o Modelo Padrão, e as características específicas do bóson apontarão caminhos pelos quais essa teoria pode ser aperfeiçoada.

E por que nós, que pagamos impostos e ficamos presos no trânsito, deveríamos nos preocupar com isso? 

Supondo que nossos hipotéticos contribuintes/motoristas tenham corações duros demais para não se entusiasmar com a mera possibilidade de aprendermos mais a respeito do funcionamento do Universo, sempre poderemos lembrá-los de que os estudos e pesquisas que permitiram a construção do atual Modelo Padrão produziram, entre outros subprodutos, a bomba atômica e o chip de computador. Não faria muito sentido, portanto, parar agora.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Quem legislou as leis da Natureza?

Muita coisa seria bem mais simples neste mundo se um número maior de pessoas tivesse uma noção mais firme dos limites da analogia e da metáfora. Imagino, por exemplo, que todo mundo entende que o fato de o amor ser como uma roseira, pois é belo mas tem espinhos, não significa que ele também precise de esterco curtido e torta de mamona para prosperar.

Às vezes, no entanto, esse tipo de limite é difícil de achar. O caso da expressão lei da natureza é um clássico do tipo de confusão que surge nessas circunstâncias. Resumindo a postagem toda numa só frase, as "leis" naturais são descritivas, enquanto que as leis propriamente ditas, as leis das sociedades humanas, são prescritivas. A diferença entre os adjetivos é de apenas uma sílaba, mas compreende todo um universo de maus-entendidos, quando não de pura malícia.

Expandindo: quando um órgão político produz uma lei, o que ele está fazendo, falando de modo bem generalizado, é restringindo comportamentos: dada a possibilidade real de as pessoas adotarem as condutas A, B, C, D... , a lei determina que parte dessas condutas é inaceitável, outra parte é obrigatória.

Como, no entanto, nenhuma conduta deixa, de fato, de ser uma possibilidade real, é preciso um exercício de poder -- em parte pela cultura mas, em última instância, pela polícia -- para que a lei seja obedecida.

Como isso se compara ao que ocorre quando um cientista propõe uma lei da Natureza? Nesse caso, o que o cientista está dizendo é que, após longas e exaustivas observações, foi possível determinar, com uma dose razoável de certeza, que dadas as condições X, o ente natural Y sempre reage da maneira Z.

Em outras palavras, dizer que a lei da gravidade "faz com que" maçãs maduras a caiam de seus galhos, da mesma forma que a lei do IRPF me compele a preencher uma declaração anual de renda, é uma falsa analogia -- na verdade, uma das analogias mais falsas que se poderia imaginar. A locução "lei da gravidade" representa não um ordenamento, mas uma uma síntese. É o nome dado às generalizações tiradas de um extenso conjunto de observações que inclui, entre inúmeras outras, a de maçãs maduras caindo de seus galhos.

Dizer que a maçã cai "por causa" da lei da gravidade equivale a dizer que a maçã cai porque as maçãs caem.

Nesse sentido, a velha questão teológica de quem é o legislador por trás das leis da natureza se revela tão sem significado quanto perguntar de que vaca veio o leite usado para fabricar o queijo de que é feita a  Lua.

Claro que é possível evitar a confusão semântica trocando a pergunta ingênua por outra: por que há regularidades na natureza? Ou, de modo diferente: por que nossas observações da natureza revelam resultados tão consistentes a ponto de nos permitir deduzir "leis"?

A mim me parece que mesmo essa versão reformulada trai um antropocentrismo injustificado: como, nas relações sociais e humanas, estamos acostumados a esperar o caos, a menos que haja regras externas aos agentes, inadvertidamente supomos que a Natureza também deveria, na ausência de regras externas, ser caótica, e nos surpreendemos quando isso não ocorre. Mas é bem provável que essa surpresa diga mais a respeito de nossos preconceitos como animais políticos e sociais do que qualquer outra coisa.

Indo um pouco mais fundo na questão, pode-se dizer que as regularidades da Natureza existem porque o mundo físico -- ou, ao menos, a parte do mundo físico a que temos acesso -- é composto por um número finito de tipos de entidades: as leis da eletricidade surgem do fato de que as partículas que reagem à força elétrica cabem em tipos bem definidos; e de que os indivíduos dentro de cada tipo são idênticos entre si. Um elétron se comporta de seu modo peculiar simplesmente porque é um elétron, e as "regularidades" da eletricidade surgem do fato de que todos os elétrons são iguais.

Seria possível pressionar ainda um pouco mais e cobrar uma explicação para esse fato: por que, então, o "zoológico de partículas" é finito em sua diversidade? Por que o universo subatômico não é rico a ponto de gerar entidades perfeitamente individualizadas, dotadas de uma espécie de "vontade própria"?

De novo, a questão trai um viés antropocêntrico, mas talvez seja legítima; todavia, mesmo se for, representa um problema de física (ou de matemática) e não de filosofia ou teologia, como esperariam os postuladores do "legislador universal". A natureza, enfim, basta-se a si mesma: suas leis não são impostas por uma polícia cósmica, mas apenas refletem os limites da criatividade do possível.


domingo, 11 de dezembro de 2011

Física e jazz

O que você acha que acontece quando a baqueta do baterista acerta o prato? O metal é mesmo sólido? Confira neste vídeo, que registra o impacto a 1.000 quadros por segundo: