quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A 'dívida' do Ocidente para com o cristianismo

Volta e meia esbarro por aí com alguém soltando a velha conversa fiada de que as grandes conquistas da Civilização Ocidental são uma dádiva do cristianismo para o mundo. Ela ressurge, de modo nada surpreendente, neste artigo de Ives Gandra, publicado na Folha de S. Paulo.

Como eu pessoalmente partilho da opinião de Bertrand Russell -- para quem a única contribuição positiva do cristianismo foi o calendário, com seu sistema até que relativamente estável e racional de anos bissextos -- resolvi fazer aqui um rápido catálogo de desmentidos para, talvez, orientar os mais desavisados. Vamos lá:

Sem o conceito de um deus único, responsável pela ordem natural, a ciência, como busca de regularidades e leis na natureza, teria sido filosoficamente impossível, e estaríamos até hoje imersos em superstições.


Papo furado. A ideia de que eventos naturais são explicáveis por meio de causas naturais regulares remonta (pelo menos) a Tales de Mileto, uns 500 anos AEC.

Foi o cristianismo que nos deu o conceito de "humanidade", de que todos os seres humanos são iguais em direitos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade...


Mais papo furado. Não só a "irmandade universal dos homens" já era pregada pelos filósofos estoicos, de novo, em tempos seguramente pré-cristãos. Além disso, mencionar cristianismo e "igualdade de sexo" na mesma frase é, com o perdão da palavra, blasfêmia.

Se não fossem os monges copistas cristãos, muito do conhecimento e da literatura da Antiguidade teria se perdido durante a Idade Média.

Isso é até verdade, mas é uma verdade que precisa ser cuidadosamente qualificada. É engraçado como, quando essa joia particular de informação é passada aos estudantes nas aulas de História do ensino médio, ninguém (que eu saiba) se pergunta de onde veio o monopólio que os monastérios e igrejas tinham sobre os textos. E os templos pagãos do Mediterrâneo, as escolas de filosofia de Atenas, as grandes bibliotecas? Cadê? A resposta é que os outros lugares onde livros poderiam ter sido preservados já tinham sido destruídos, esmagados e engolidos pelo cristianismo.

A maioria dos críticos do cristianismo gosta de chamar atenção para momentos dramáticos como a morte de Hipácia de Alexandria, o fechamento da Academia de Platão por Justiniano, ou mesmo a queima de parte da Biblioteca de Alexandria; apologistas cristãos, por sua vez, destacam o que há de exagero dramático, duvidoso e relativo na significância desses episódios (usando critérios historiográficos que, se aplicados aos evangelhos... bom, deixa pra lá).

O fato é que, exagerados ou não, esses episódios particulares se inserem num grande padrão de perseguição de pagãos e hereges, e de conversões forçadas, bem exemplificado pela campanha do imperador Teodósio. Pode-se discutir, por exemplo, se a academia de Atenas foi realmente "fechada" por ordem de Justiniano, ou apenas estrangulada financeiramente por uma nova política imperial, mas nada disso muda o fato de que a cristianização do império levou a uma monopolização da cultura pela igreja -- um monopólio construído com o uso da força, sob a forma de perseguição e repressão.

Em resumo, restou ao cristianismo a tarefa de preservar a cultura da Antiguidade simplesmente porque o próprio cristianismo já havia se encarregado de eliminar todos os outros grupos que poderiam ter feito o mesmo. Olhando desse jeito, não me parece algo tão elogiável assim, mas vai ver é porque eu sou um ateu fundamentalista ranheta.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quem tem medo do materialismo?

Uma nota recente sobre a busca de uma espiritualidade laica pelo Partido Verde, somada a um artigo publicado no meio do ano na revista Free Inquiry, intitulado Repackaging Humanism as 'Spirituality' ("Reembalando o Humanismo como 'Espiritualidade' ") acabou chamando minha atenção para (mais uma) das armadilhas semânticas armadas pelo condicionamento cultural religioso: o tabu em torno da palavra "materialismo", e o senso de superioridade moral e estética umibilicalmente ligado a qualquer coisa "espiritual".

A coisa é quase pavloviana: "espiritual" é bom, generoso, elevado, faz sorrir; "materialismo" é feio, grosseiro, superficial, traiçoeiro; dá um nó nas entranhas. Mas, como já dizia Carl Sagan, não deveríamos pensar com as entranhas. Daí: qual, exatamente,  o problema com o materialismo?

Antes de mais nada, vamos limpar um pouco a atmosfera e distinguir entre o que poeríamos chamar de "materialismo moral" -- a ideia de que a meta suprema da vida humana é juntar joias, terras, dinheiro -- e o que chamarei de "materialismo ontológico", a ideia de que matéria e energia (no sentido técnico usado pelos físicos, não no vago sentido místico) são a base fundamental de tudo o que existe.

Que o materialismo moral é uma aberração já se sabe desde, pelo menos, que Aristóteles definiu a distinção entre meios e fins: riqueza é um meio. Que muitas pessoas façam de sua acumulação um fim em si mesmo é uma distorção grave, mas que de modo algum afeta exclusivamente os materialistas ontológicos, muito pelo contrário -- veja-se, por exemplo, o sucesso dos cultos da prosperidade que, bem, prosperam por aí.

O que acontece é que muita gente vê o materialismo moral como uma espécie de consequência lógica do materialismo ontológico: se Fulano não vê nada no Universo além de matéria, vai o raciocínio, então fulano obviamente só dará valor a coisas materiais.

Sim. Claro. Óbvio. O que essa linha de pensamento deixa de lado, no entanto, é que ao destruir a distinção entre espiritual e material, o materialismo ontológico passa a incluir, entre as "coisas materiais", itens como amor, amizade, prazer estético, cultura... Tudo isso passa a ser formas de manifestação da matéria. Amor provocado pela atividade de glândulas e neurônios não é menos amor do que o provocado pela comunhão de almas (de fato, "comunhão de almas" não passa de uma metáfora para "glândulas e neurônios").

Restam as objeções de que a matéria é "bruta", "grosseira", e de que ver o próximo como um saco de moléculas ambulante é muito menos digno do que vê-lo como um espírito criado à imagem e semelhança de Deus.

Quanto à primeira objeção, ela é fruto de puro preconceito. Vem de se imaginar, quando se evoca a palavra "matéria", uma pedra, um cocô, ou um tijolo. Mas rosas e beija-flores são matéria, também, assim como as delicadas nuvens de luz e gás fotografadas pelo Hubble no espaço entre as estrelas.

Quanto à segunda objeção (e pondo de lado a questão de qual descrição tem maior conteúdo de verdade objetiva), ela ignora o fato de que na visão materialista todos somos sacos de moléculas ambulantes, e de que só temos, para consolar nossas aflições, uns aos outros -- e nada mais. Essa constatação, se feita de modo sincero, me parece mais capaz de conduzir a um estado genuíno de humildade e irmandade universal do que o mito de que somos todos "filhos do dono", e me respeite senão papai te enche de porrada.

Enfim, não me parece que precisemos de uma "espiritualidade laica", e sim de mais materialismo laico. Mas essa é só a minha opinião.

(Ah: tem lançamento hoje à noite. Espero vocês lá!)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Semana cheia: utopia e lançamento!

Esta semana transcorrerá, como costumavam dizer antigamente, em ritmo febril. Na terça-feira, tem a Jornada de Estudos sobre Utopia e Ficção Científica, na Unicamp, que vai tratar de temas que vão da obra de Octavia E. Butler a Berilo Neves, e na qual terei uma modestíssima participação, num diálogo com o pesquisador Alfredo Suppia sobre como é fazer ficção científica no Brasil.

Imediatamente depois, na quarta-feira, acontece o esperadíssimo (ao menos, para mim) lançamento de O Livro dos Milagres, obra que escrevi em ritmo frenético no início deste ano e que a Vieira & Lent, num esforço heroico, conseguiu pôr no mercado em menos de nove meses.

 Já escrevi sobre o livro neste blog anteriormente, mas talvez alguns dos meus leitores não saibam que uma espécie de "capítulo-trailer" está disponível no Amálgama.

Blogagem autobiográfico/confessional sempre me pareceu uma coisa meio babaca -- uma das minhas implicâncias com a literatura contemporânea é a de que, se eu quiser saber das angústias e agruras de um brasileiro de classe média, desajeitado, meio tímido e com pretensões intelectuais, não preciso ler 300 páginas de prosa pretensiosa, é só prestar atenção na minha própria vida -- mas, enfim, o fato é que Milagres tem um significado especial para mim.

Claro, todo livro tem um significado especial para o próprio autor, mas este é realmente mais especial que os demais. Não só porque é minha primeira obra de não ficção, mas também porque marca o fim de um ciclo na vida e, espero, o início de outro.

Concebi o livro numa noite de insônia, mais ou menos uma semana depois de perder o emprego. O clichê de estar subitamente desempregado na virada dos 39 para os 40 anos deu uma certa gravidade ao momento, mas não só: já fazia algum tempo que eu vinha reclamando (comigo mesmo e, crucialmente, com minha infinitamente paciente esposa) que eu me sentia velho (ou sábio, ou rabugento) demais para continuar a escrever sobre os outros achavam importante -- que é, basicamente, o que o jornalista assalariado faz: alguém, o pauteiro, o editor, o dono, decide que "X" é relevante, interessante, vai vender jornal, etc., e o jornalista se desincumbe da tarefa de produzir conteúdo sobre "X".

Para ser perfeitamente justo, em geral há um amplo espaço para negociação aí, e as sugestões do jornalista quase sempre são levadas em consideração. Mas, ainda assim: o repórter nunca tem a prerrogativa da última palavra. A liberdade de perseguir os próprios interesses é sempre condicional. Resumindo: depois de 20 anos de carreira, e mesmo gozando de ampla liberdade, essa, digamos, letra miúda do contrato me incomodava, e cada vez mais.

Nesse aspecto, a noite que, desempregado, passei em claro concebendo O Livro dos Milagres foi meu momento de, como dizem os americanos, "put my money where my mouth is", ou, bancar minhas pretensões: eu não iria procurar outro emprego. Eu iria usar o tempo que tinha para escrever o que queria, do jeito que queria, e pronto. Iria apostar meus recursos numa tentativa de comprar o direito pleno de ser um quarentão rabugento.

O resultado desta aposta começa a sair agora, nesta quarta-feira. Vamos ver no que dá.