quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A lição de Henfil para os rebeldes da USP

É provável que a sociedade em geral jamais venha a saber o que realmente aconteceu na desocupação da reitoria da Universidade de São Paulo, por exemplo, se as depredações foram feitas pelos estudantes ou pela PM, ou se coquetéis molotov já estavam lá ou foram plantados.

Pessoalmente, acho plausível que a quebradeira tenha sido causada pelos policiais, já que barulho e destruição são táticas psicológicas clássicas  para produzir pânico e submissão (e de um ponto de vista puramente objetivo, é melhor paralisar as pessoas de medo, quebrando cadeiras, do que paralisá-las fisicamente, quebrando ossos), mas sou mais cético em relação aos coquetéis. De qualquer modo, o verossímil e o verdadeiro não necessariamente coincidem, e salvo aparecer um vídeo por aí mostrando quem quebrou o quê, o assunto passa a ser menos uma questão de fato e mais de paixão.

E foi em meio à confusão retórico-passional que me lembrei de uma crônica escrita pelo grande cartunista Henfil, nos capítulos finais da ditadura 1964-1985, quando das grandes greves do ABC Paulista, lá na fase heroica da vida do Lula. A crônica era meio um poema, onde entre os parágrafos aparecia o refrão: Os metalúrgicos estão lutando no meu lugar. Cito de cabeça, mas era mais ou menos desse jeito:

Hoje fui fazer compras, buscar as crianças na escola, comi uma pizza... ops, não deu tempo de lutar pela democracia, contra o alto custo de vida, por eleições livres e diretas, pelos direitos humanos.


Tudo bem , os metalúrgicos estão lutando no meu lugar.


O que o Henfil captou aí foi a intuição de que, para além das reivindicações trabalhistas imediatas, havia algo em jogo no ABC que dizia respeito a todos os brasileiros. E foi esse "algo" o que faltou miseravelmente na manifestação realizada na USP: os estudantes que ocuparam a reitoria sequer foram capazes de convencer os próprios colegas da relevância do que estavam fazendo, que se dirá a sociedade em geral.

Manifestação envolvendo ocupação de espaço público e deslocamento de força policial que não angaria simpatia passa a ser vista como irrelevante, na melhor das hipóteses, ou como um incômodo, na pior. "Pior" porque a maioria das pessoas está perfeitamente disposta a fazer vista grossa ao emprego de doses módicas de violência para se livrar de incômodos. Daí a carta branca tácita que a polícia tem para descer a borracha em quem fecha a Avenida Paulista no horário de pico, por exemplo.

Existe uma longa tradição frankfurtiano-gramsciana, na esquerda, de culpar a "mídia hegemônica" e os "aparelhos ideológicos do Estado" sempre que alguma revolta/manifestação/revolução fracassa em mobilizar apoio ou atrai repúdio.

Isso deixa de explicar, claro, como algumas manifestações de fato conseguem apoio na sociedade (como os atos do MST chegaram a ter, nos anos 90, ou o movimento dos caras-pintadas contra o Collor, ou as Diretas Já), e subestima a grande plasticidade da mídia, aham, capitalista.

Se a narrativa dos herois rebeldes versus polícia fascista prometesse mais audiência que a dos maconheiros filhinhos de papai versus forças da ordem, ela teria sido adotada, sem pestanejar, pelos telejornais e pelas rádios. A grande mídia eletrônica é essencialmente reiterativa: ela repete o que a audiência quer ouvir. E a audiência, ao ouvir o que quer, baixa o senso crítico. O fenômeno tem até nome, raciocínio motivado.

E por que a audiência estava predisposta a perder a paciência com os manifestantes da USP? Pelo que vi nas redes sociais, os fatores principais parecem ser:

Impressão de que reclamam de barriga cheia: esses caras estão estudando de graça, com comida subsidiada e tudo, na melhor universidade da América do Sul. Querem mais o quê? Essa sensação se reforça com o caráter desproporcional da manifestação: um comício na Praça do Relógio contra a brutalidade policial provavelmente não teria atraído tanto repúdio quanto a ocupação da reitoria.

Percepção de desperdício de vantagens: o povo do Estado de São Paulo paga caro para que os estudantes da USP, ora bolas, estudem. Matar aula sob falso pretexto é uma ingratidão.

Sensação de "poser": parte do arquétipo do rebelde é o de alguém que tem algo a perder -- alguém que se dispõe a correr riscos em nome de um bem maior: Francisco de Assis abandonou a fortuna do pai; Fidel Castro se lançou ao mar no Gramna; estudantes durante a ditadura corriam um risco muito concreto de desaparecer para sempre; grevistas da iniciativa privada põem os empregos e o sustento de suas famílias na reta.

A percepção geral, no entanto, era a de que os invasores da reitoria não estavam arriscando nada. Que a coisa toda não passava de um teatro ruim, uma peça que terminaria com os atores comendo churrasco, tomando cerveja e impressionando as meninas, enquanto o contribuinte pagaria a conta.

(É essa sensação de "almoço grátis" que, perversamente, justifica, aos olhos de muitos, uma eventual reação violenta da polícia. Como se a sociedade dissesse: "Quer botar banca de vítima da repressão? Óquei, permita-me reprimi-lo, então".)

Fadiga de material: a ocupação da reitoria da USP, motivada por questões que, para o público em geral, vão do bizantino ao esotérico, já virou um rito quase anual. São como as tais "greves gerais" que a CUT insistia em convocar nos anos 80 e 90: depois de uma ou duas, ninguém nem mais levava a coisa a sério.

Esses são alguns dos problemas de imagem com que o movimento estudantil da USP terá de lidar, se quiser voltar a ser levado a sério pela sociedade paulista (e brasileira), mais ou menos como a British Petroleum tem de lidar com o vazamento do Golfo do México para voltar a ser levada a sério como empresa "verde". Ele terá de convencer o público de que está lutando também por ele, como os metalúrgicos do Henfil, e não apenas pelo próprio umbigo. (Não que lutar pelo próprio umbigo seja errado, mas aí os meios e o discurso têm de ser outros.)

A questão de se será capaz de fazê-lo -- se de fato existe uma agenda que permita fazê-lo -- é algo que teremos de esperar para ver.