sábado, 1 de outubro de 2011

Em novembro, numa livraria perto de você...

Terminei neste sábado a revisão das provas, já diagramadas, da obra abaixo:


Que terá, aliás, as seguintes epígrafes:


A editora Vieira & Lent está agitando eventos de lançamento, que provavelmente acontecerão em São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas -- embora, por enquanto, a programação ainda esteja meio fluida. Assim que tiver dados mais concretos, aviso vocês aqui!

(E, sim, estou explodindo de, em partes iguais, entusiasmo, orgulho e apreensão.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Ateísmo, filosofia e a favelização do inefável

Depois de minha palestra/bate-papo no Paço da Liberdade em Curitiba, na terça-feira, algumas estudantes universitárias vieram falar comigo sobre as dificuldades que encontram ao debater a questão da existência de Deus com colegas teístas.

 O problema parece estar no fato de que, enquanto a literatura de defesa do teísmo -- de Aquino a Plantinga e Craig -- circula livremente entre os entusiastas, as referências mais facilmente disponíveis para o outro lado acabam sendo as obras de Dawkins ou Hitchens. Que, com toda a potência e utilidade que têm, não são (nem têm a pretensão de ser) celeiros de argumentos filosóficos rigorosos.

Isso não significa, porém, que argumentos rigorosos não existam, mas apenas que não contam com organizações internacionais (igrejas) dedicadas a distribuí-los e popularizá-los.

Eu pessoalmente não vejo necessidade de ir além de David Hume para pôr todo o castelo de cartas da pretensão teísta à racionalidade -- como articulada em torno das variações do argumento cosmológico -- abaixo. Antony Flew já se queixava, em seu clássico God and Philosophy, que os apologistas cristãos insistem em argumentar "como se Hume nunca tivesse escrito nada".

(Ah, sim: há quem goste de explorar a súbita e confusa conversão de Flew ao deísmo -- a crença numa inteligência criadora do universo -- no fim da vida. Dois pontos a respeito: o primeiro é que o "deus" de Flew não tem nada a ver com o das religiões em geral. O segundo, que deveria ser óbvio para todos os debatedores dotados de um mínimo de boa-fé, é o de que a força de uma série de argumentos, como a apresentada em God and Philosophy, independe das peculiaridades biográficas de seu autor.)

Mas Hume e Flew, embora (em minha opinião) suficientes para estabelecer o caso da racionalidade do ateísmo, não são o ponto final da história. Nas últimas duas décadas, o filósofo Michael Martin produziu uma copiosa literatura sobre o assunto.

Também busquei chamar a atenção das jovens (mulheres adultas em idade universitária hoje em dia são "jovens" para mim. O tempo não para mesmo...) para o cambalacho semântico, muito comum, de, por um lado, se redefinir Deus como algo incompreensível, misterioso, transcedental, idescritível, etc., ao mesmo tempo em que, por outro, se afirma que Ele tem um monte de propriedades objetivas: é  bom, amoroso, onipotente...

É preciso notar que descrever o indescritível é uma contradição em termos, e atribuir propriedades objetivas que implicam juízos de valor -- como dizer que algo é "bom" -- ao incompreensível é uma atitude peculiar, para dizer o mínimo. Se uma coisa é incognoscível (isto é, está além da nossa capacidade de conhecimento) então, por definição, não há nada que possamos afirmar, de forma honesta, sobre ela.

A possibilidade de existência de um Deus totalmente abstrato, misterioso e transcedental é tão irrefutável quanto a existência de sorveterias na galáxia de Andrômeda. Só que também é tão irrelevante para nós, pobres mortais terrestres, quanto.

Agora, se a mesma pessoa que lhe diz que o Deus dela é transcendente e abstrato ao ponto de todas as críticas do filósofos secularistas serem "grosseiras" e "ignorantes" em seguida começa a agir como se esse mesmo Deus fosse um fantasma superpoderoso que atende preces, realiza milagres e recolhe dízimos, calma lá. Ou uma coisa ou outra. Não dá pra favelizar o inefável.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O que eu disse em Curitiba... mais ou menos


O texto abaixo é a dissertação que usei como fonte de notas para minha fala no Paço da Liberdade, em Curitiba, na noite de terça-feira, 27. Temo que o que eu realmente disse para a audiência acabou saindo menos articulado do que a exposição abaixo, então eu a ofereço, também, para quem esteve lá e ficou achando que havia buracos demais na conversa...


Boa noite, obrigado a todos por estarem aqui, e obrigado ao SESC pelo convite, que me deu a oportunidade de retornar a esta bela cidade de Curitiba depois de mais ou menos 20 anos – a última vez que estive na cidade foi em 1990 ou 1991, para um Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação – fiz faculdade de jornalismo. Foi em julho, eu vim de ônibus e dormi no chão de um ginásio de esportes. Desta vez é primavera, vim de avião e estou dormindo num quarto de hotel. Algumas coisas melhoram com a idade...

Ciência e fé.  O que essas duas palavras denotam são coisas que circunscrevem nossas vidas, quer gostemos disso ou não. Em linhas gerais, a ciência, por meio da tecnologia, define o ambiente material em que vivemos – foi graças à ciência que voei até aqui, é graças à ciência que minha voz vai até vocês, e se não fosse pela ciência por trás dos meus óculos eu não estaria lendo isto aqui para vocês.

Já a fé, para muitos de nós, circunscreve o ambiente social e psicológico: o que achamos certo ou errado, a linguagem que usamos para dar forma a nossos sonhos e esperanças, medos e temores, motivações e sentimentos, nossa própria visão de mundo.

Aqui, no entanto, já surge uma assimetria notável: a fé é opcional, de uma maneira que a ciência não é. Eu posso me recusar a ir à igreja, por exemplo, e ser bem-sucedido nisso, mas teria muito menos sucesso se resolvesse me recusar, digamos, a obedecer à lei da gravidade.

Mas alguém poderia levantar uma objeção a isso: dizer que, da mesma forma que ponho minha vida em risco ao desrespeitar a gravidade, ponho meu bem-estar presente, ou mesmo minha alma imortal em risco, ao desrespeitar a fé. Que o objeto da fé é tão real quanto a atração gravitacional da Terra.

Mas será mesmo? Parece haver, ao menos intuitivamente, um sentido em que “matéria atrai matéria” expressa uma verdade, digamos, mais verdadeira – ou talvez eu devesse dizer, menos controversa – do que “ninguém vai ao Pai senão por mim”. 

E aqui chegamos ao ponto fundamental da questão: como fazemos para saber o que é, com o perdão do pleonasmo, realmente real

Esse é o tipo de questão que pode parecer meramente acadêmico – alguém poderia responder, eu sei que a gaveta é real quando ela cai no meu pé – mas, de fato, trata-se de algo fundamental. E é fundamental porque o ser humano, além de ser o animal racional, o animal que ri e o único bípede sem penas, é também o animal que crê.

Porque, para a vida humana ser possível, acreditar é necessário. Agora, por favor, não me confundam com um guru de autoajuda: não estou usando verbo “acreditar” no mesmo sentido em que ele costuma ser usado por jogadores de futebol que “acreditam na vitória”, ou por palestrantes motivacionais que “acreditam no seu potencial”. 

Quando digo que acreditar é necessário para a vida humana, o que quero dizer é algo bem mais comezinho.  Quero dizer que é necessário acreditar que comida mata a fome, para não morrer de inanição; é preciso acreditar que, se não bebermos água, morreremos de sede; é preciso acreditar que o carro vindo em alta velocidade pela rua representa um perigo real e imediato, se quisermos um motivo para sair de seu caminho.

Enfim: sem crenças, não agimos. E se quisermos que nossas ações sejam realmente úteis e eficazes, faz sentido tentarmos, na medida do possível, baseá-las em crenças verdadeiras. Em fatos realmente reais.
Mas eis que surge um problema. Existe uma longa tradição filosófica, que vem pelo menos desde a Grécia antiga, que diz que, ora bolas, não sabemos quais fatos são esses. Que o melhor que podemos fazer é obter vagas impressões da realidade, tal como geradas por nossos sentidos, interpretadas por nossas mentes e articuladas dentro dos limites de nossa linguagem.  

Como nem os sentidos e nem as mentes são perfeitos, e a linguagem é essa confusão de mal-entendidos que temos de navegar no dia-a-dia, como podemos realmente saber o que corresponde aos fatos? Temos a tendência de achar que ilusões e alucinações são coisas que só acontecem com doentes mentais ou mocinhas de filmes de terror, mas não é verdade: somos iludidos, por exemplo, toda vez que vamos ao cinema, assistimos a um show de mágica, confundimos um poste, visto ao longe, com uma pessoa parada na calçada.

O reconhecimento de que nossos sentidos e pensamentos podem nos enganar traz embutido, no entanto, uma semente de otimismo: o fato de que somos capazes de distinguir realidade de ilusão. Porque, se somos capazes de saber que ilusões existem, é porque há de haver algum mecanismo que nos permite separá-las do que é real. 

Se o vulto ao longe parece um homem parado, podemos nos aproximar dele e, chegando mais perto, ver que, na verdade, é um poste. Se uma mulher que mora sozinha e que não tem filhos ouve uma criança chorar no quarto de seu apartamento, ela pode se convencer de que mora num lugar mal-assombrado ou ir ao quarto e ver que esqueceu o rádio ligado num programa sobre pediatria. 

E assim por diante. Esse processo – de chegar mais perto, de ir até lá e conferir, checar e  medir, vem sendo refinado há milhares de anos. Seu estágio mais desenvolvido e avançado é o que chamamos de método científico. É ele que produz as verdades da ciência.

Um problema desse processo, no entanto, é que ele é lento, trabalhoso e artificial. Você não vai fazer uma análise clínica da comida do restaurante para ter certeza de que ela não está envenenada; você não vai calcular os vetores de velocidade e aceleração do carro antes de decidir em quantos graus girar a direção para fazer a curva com segurança.

Outro problema é que ele é, ao menos idealmente, neutro e aberto: quando a pesquisa científica começa, não existe uma resposta predeterminada. A necessidade humana de acreditar é suplementada por um desejo humano de que as crenças formadas sejam agradáveis – ninguém, afinal, gosta de receber más notícias. Mas esse é um desejo que a ciência não tem compromisso algum em satisfazer.

No entanto, muito antes da ciência dar seus primeiros passos, nossa espécie havia evoluído atalhos intuitivos que todos usamos quando precisamos formar crenças e não temos o tempo, a disposição, os meios ou a energia de realizar uma investigação adequada.  

Um desses atalhos é a confiança na autoridade: nós acreditamos quando o médico nos receita um remédio, como também acreditamos quando o policial nos diz que a rua que estamos procurando é a segunda à direita. 

E esse é talvez o primeiro atalho que descobrimos. A criança, afinal, aprende rapidamente a confiar na autoridade dos pais. Rebeldias da adolescência à parte, o bebê nasce, de certa forma, programado para confiar nas pessoas que irão vesti-lo e alimentá-lo. E a programação torna-se hábito, e o hábito traz segurança. Nada é mais confortável do que saber que podemos acreditar em quem nos ama e cuida de nós.

É dessa confluência – do desejo visceral de que a verdade seja boa;  do instinto que leva a confiar na autoridade que ama e alimenta; da busca por segurança – que nasce a fé.

O filósofo Friedreich Nietsche tem um ótimo aforismo a respeito: a verdade e a fé de que alguma coisa é verdade são dois reinos completamente separados. A fé sustenta uma concepção do que a verdade deveria ser. A ciência busca o que a verdade é. Nietsche completa o raciocínio dizendo que ter fé significa não querer saber a verdade.

Eu, pessoalmente, não iria tão longe. É preciso notar que, embora fé e ciência tenham métodos diferentes, não há nenhuma razão fundamental para que suas conclusões não convirjam. A ciência poderia ter revelado uma verdade compatível com as expectativas da fé.   

 O fato de isso não ter acontecido – o fato de a Terra não ser o centro do Universo, por exemplo – serviu de estímulo para uma transformação na fé: ela passou a proclamar expectativas de verdade cada vez mais remotas em relação à esfera da investigação científica. 

Ao mesmo tempo, muitas pessoas optaram por esvaziar suas crenças baseadas na fé de qualquer conteúdo empírico, prático: essas crenças passaram a ter impacto apenas residual em seus comportamentos, mas preservaram seu poder emocional de trazer conforto, consolo e segurança.

Essa estratégia de acomodação já foi definida, pelo paleontólogo Stephen Jay Gould, como a tese dos “ministérios são sobrepostos”, segundo a qual fé e ciência teriam esferas de influência independentes.
Trata-se de um plano que funciona, mas apenas até certo ponto. Do ponto de vista prático, ele permite que cientistas como Francis Collins, um dos líderes do projeto genoma humano, também encarem a si mesmos como cristãos, por exemplo.

Mas também é um plano fundamentalmente limitado: porque não é possível manter uma crença que não afete absolutamente nenhum comportamento. Afinal, se ela não se manifesta em comportamentos, como saber se realmente existe? Nesse aspecto, os religiosos mais conservadores têm razão em criticar seus colegas “não praticantes”.

Além disso, muitos dos comportamentos influenciados pela fé têm impacto social: eles geralmente dizem respeito à esfera da ética, que afeta a política, por exemplo, em questões como a do aborto e a da união homossexual.  E em várias dessas questões, a sobreposição entre os domínios da fé e da ciência torna-se inevitável.

Quando isso acontece, é importante lembrar que a ciência, falível e complexa como é, ao menos se baseia num desejo sincero de conhecer os fatos. Já a fé vem de uma mistura do desejo de que os fatos sejam como gostaríamos que fossem e do apelo, às vezes reconfortante, às vezes cheio de medo e horror, à palavra da tradição e da autoridade. 

A escolha, portanto, não se torna menos certa, apenas porque pode ser dolorosa.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Fé e ciência em Curitiba: terça, 20 horas

Olá, pessoal, esta é uma poetagem rápida só pra lembrar que nesta terça-feira, dia 27, estarei no SESC Paço da Liberdade, em Curitiba, para apresentar a uma palestra sobre fé e ciência. O evento será às 20 horas, e me disseram que haverá tempo para perguntas e respostas depois que eu terminar de deslumbrar a platéia com minha verve e sabedoria (ou entediá-la até as lágrimas, claro; o que realmente vai acontecer dependerá do colapso da função de onda, ou de em que ramificação do multiverso você está). Espero que os leitores paranaenses do blog apareçam, principalmente os que conhecerem boas cervejarias nas imediações do Paço. Ainda não decidi o que farei com as anotações que preparei para a conferência -- se publico aqui no blog, carrego como PDF em algum lugar ou simplesmente as destruo -- mas assim que tiver resolvido, aviso!

Cadê os homens de preto?

Semana passada, um grupo de cientistas baseado na Itália anunciou ter encontrado indício de que neutrinos -- partículas virtualmente sem massa e que praticamente não interagem com a matéria comum -- viajam mais rápido que a luz.

Não muito mais rápido, é verdade (uma diferença de 60 nanossegundos num trajeto de 730 km), mas, ei, é da velocidade da luz no vácuo que estamos falando aqui. O limite máximo do Universo. O parafuso que mantém nossa noção de realidade firme no lugar.

Suponho que praticamente todo mundo que já assistiu a um filme de Guerra nas Estrelas sabe que é impossível, em condições normais, viajar mais depressa que a luz.

Há razões práticas para isso -- é um fato comprovado que ao acelerar um corpo, aumentamos sua massa inercial, isto é, sua resistência à aceleração; e há motivos para acreditar que, à medida que a a velocidade do corpo se aproxima da velocidade da luz, essa resistência se aproxima de um valor infinito. Assim, o último passo da aceleração, digamos, o 0,00000000000000000000000001% que falta para alcançar a velocidade da luz, iria requerer  um esforço infinito para se concretizar. Como não é possível realizar esforços infinitos, não é possível atingir (que se dirá superar) a velocidade da luz.

Essa razão prática, no entanto, não explica a bomba filosófica que uma violação do limite da velocidade da luz traz: essa violação tem o potencial de destruir de vez o significado de conceitos como "antes" e "depois", "causa" e "efeito".

Imagine, por exemplo, que uma pessoa do outro lado da sala jogue para você uma bola, e que a bola viaje mais depressa do que a luz. Isso quer dizer que a bola chegará às suas mãos antes que você a veja ser lançada: do seu ponto de vista, o efeito (a bola chegar) antecede a causa (o arremesso).

Você pode argumentar que se trata apenas de uma questão de ponto de vista. Que, na verdade, a bola foi arremessada antes de chegar. Certo, essa é a situação do ponto de vista do arremessador, mas por que o ponto de vista dele valeria mais que o seu?

 Antes de Einstein aparecer com a teoria da relatividade restrita, em 1905, supunha-se que todos os eventos do Universo poderiam ser localizados, no tempo, de acordo com um padrão fixo e imutável. Uma espécie de relógio universal perfeito. Nesse caso, o problema filosófico do arremesso desaparece: vamos a um relógio sincronizado com o Tempo Universal Absoluto e determinamos que, de acordo com ele, o arremesso de fato antecedeu a chegada. O arremessador está certo e você foi iludido. Fim de caso.

Mas o que a relatividade fez foi, exatamente, abolir a ideia de que existe um Tempo Universal Absoluto. Um relógio na superfície da Terra mede o tempo diferente de um relógio em órbita e de um relógio na superfície do Sol, e todas as medidas são igualmente válidas. Mas o fato de a velocidade da luz ser um limite absoluto garante que, não importa em qual sistema de referência nos encontremos, as causas sempre antecedem os efeitos.

Um observador na superfície da Terra pode ver um míssil ser disparado às 13h e a nave Klingon que ameaça nosso planeta explodir às 13h15; um observador em órbita talvez veja o disparo às 12h45 e a explosão às 13h30; um observador no Sol pode ver o disparo às 11h e a explosão às 13h. Mas nenhum observador jamais verá a nave explodir antes do míssil ser lançado. O tempo não é absoluto, mas as relações de causa e efeito se preservam sob todos os pontos de vista.

A menos, claro, que a velocidade da luz não seja um limite definitivo. Aí...

(Assovio da abertura de Arquivo X, por favor, maestro.)

Imagino que todos concordariam que a destruição do significado físico das noções de "causa" e "efeito" seria uma revolução conceitual sem precedentes, um golpe na visão humana do Universo, uma quebra de (desculpe) paradigma, blá, blá, blá.

Então, poxa, onde estão os Men in Black? Cadê a reação violenta e furiosa da ortodoxia? Ninguém acendeu as fogueiras da inquisição, ainda? Como é o paper dos italianos está livre para todo mundo ler no Arxiv? Cadê os Arcontes, o Complexo Industrial-Militar e o Priorado de Sião, pelamorededeus?

Um mito muito propagado a respeito da ciência é que ela seria um "culto da ortodoxia", onde uma "casta sacerdotal" (os cientistas) trabalharia incansavelmente para garantir que verdades libertadoras, chocantes ameaçadoras ficassem, para sempre, fora do alcance das massas. Uma versão mais sutil do mesmo mito -- muitas vezes esgrimida por ufólogos e místicos em geral -- propõe que a ciência é incapaz de descobrir coisas que estão "fora de seu paradigma". Tipo, violações da relatividade restrita.

Ops!

Como bem notou o autor Benjamin Radford, cientistas tratam alegações extraordinárias com ceticismo simplesmente porque o que as torna extraordinárias é o fato de elas contradizerem a experiência anterior: se para aceitar o extraordinário X é preciso descartar os bem-estabelecidos A, B, C, D, E..., então é melhor que X nos ofereça muito boas razões para tanto.  E, claro, "tratar com ceticismo" não é igual a "suprimir".

O experimento italiano ainda será analisado e criticado por outros cientistas. É bem provável que algum erro tenha ocorrido nas medições; mas se nenhum  erro for descoberto, a ciência vai se ajustar aos novos fatos. Talvez a nova velocidade máxima do Universo, contra a qual as relações de causa e efeito devem ser medidas, seja a dos neutrinos, não a da luz; talvez exista, afinal, um Tempo Universal Absoluto. Ou talvez passado e presente sejam categorias paroquiais. Ou talvez a explicação seja ainda mais estranha.

Mas seja qual for a resposta, cientistas não são sacerdotes que rasgam as vestes e cobrem a cabeça de cinzas diante de blasfêmias. A cortina do templo não vai se rasgar ao meio, simplesmente porque não há cortina. Ou templo.