quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ciência, asteroide assassino e memória da internet

Como todo leitor deste blog sabe (ou deveria saber) a ciência é uma atividade sui-generis porque, entre outras coisas, avança e evolui em meio à crítica e à contestação. Cientistas detonam as ideias de outros cientistas. Cientistas buscam provas de que seus colegas estão errados. Cientistas duvidam de cientistas. E, eis aqui a maravilha da coisa, nada disso é considerado disruptivo, ou falta de educação, ou maus modos: é o processo normal da empreitada.

Como jornalista de ciência, eu me vi pego nesse turbilhão algumas vezes, mas nenhuma tão marcante quanto a que envolveu a questão da família de asteroides Baptistina e a extinção dos dinossauros. Você provavelmente encontrou pela internet a notícia de que a sonda Wise, da Nasa, eliminou a possibilidade de o asteroide que caiu no México no fim do período Cretáceo -- aniquilando os dinossauros -- ter sido um dos fragmentos da grande rocha que originou a família Baptistina.

Bom.

A ideia de que o asteroide que acabou com os dinos teria vindo dessa família foi levantada em 2007, em artigo publicado na revista Nature. Eu entrevistei algumas pessoas e fiz matéria a respeito.

 Lembro-me muito bem disso porque na época tínhamos, no estadao.com.br, um ilustrador "emprestado" do jornal impresso, que fez uma linda animação de como teria sido o processo, começando com uma colisão no cinturão de asteroides e terminando com a colisão na Terra. Acho que foi o projeto multimídia mais legal de que participei em meus 14 anos no grupo. Depois o ilustrador voltou pro jornal, o pessoal da multimídia se atolou em coisas como tabelas de votação para prefeito, linhas do tempo da corrupção  e rankings de faculdades, e bau-bau.

(Um aviso para quem quiser trabalhar com jornalismo online: os sites de notícia são meio que o equivalente do setor de motoboys de um grande restaurante. A cozinha -- a produção de conteúdo -- trabalha mesmo para o pessoal do salão, sejam eles os leitores, ouvintes, telespectadores. Os internautas são o equivalente do povo que liga pra pedir delivery.)

Enfim. Matéria dada, animação feita, um editor de ciência orgulhoso e satisfeito. Mas...

No início de 2010, uma equipe de brasileiros encontrou inconsistências entre observações feitas sobre os asteroides Baptistina e sedimentos deixados pela colisão que acabou com os dinossauros. Confesso que fiquei meio contrariado -- minha animação favorita era cascata? -- mas, enfim, é dessa forma que a ciência progride, o leitor tem o direito de saber, o assunto é legal pra caramba, então fui lé e fiz matéria.

Agora chegamos à questão da falta de memória: não só a animação superfodástica de 2007 não aparece mais no site do estadao.com.br  associada aos textos relevantes, como o texto a respeito do resultado do Wise não aproveita, em nada, os dois resultados anteriores.

Esse é um problema comum com sites em geral (estou usando o estadao.com.br como exemplo porque trabalhei lá, então o caso me ocorre com facilidade, mas não se trata de algo único): a informação está lá, latente nos servidores, mas não há ninguém que se lembre, ou tenha a ideia, de procurá-la.

Porque a rotatividade de pessoal é grande, a cada reforma gráfica apagam-se milhares de arquivos antigos, o pessoal da home tá gritando na orelha do editor de ciência pra ele parar com essa frescura de Science e Nature e subir logo a matéria do óvni que abduziu o burro de duas cabeças com uma imagem de Nossa Senhora no lombo, etc., etc.

O que é um problema, que pode acabar condenado a internet a viver como o protagonista do filme Amnésia.

Aliás, alguém se lembra desse filme?


Igreja Universal Mundial de Willy E. Coyote

Sei que muitas pessoas já passaram por experiências de conversão mística ao encontrar imagens de Jesus ou Maria criadas miraculosamente em paredes, janelas, pisos, etc. Em alguns casos, essas imagens até se tornam focos de peregrinação

Pois bem, nesta semana eu passei por algo semelhante. Estava caminhando na rua quando me deparei com a imagem abaixo, fixada na calçada:


Óquei. Se esta não é uma representação fiel da figura de Willy E. Coyote prestes a abrir uma nova caixa de produtos Acme, eu não sei o que é. Trata-se, evidentemente, de um sinal. É difícil deduzir o que Willy deseja de nós apenas com esse ícone, criado não por mãos humanas; talvez seja apenas mais uma instância de uma revelação incremental, iniciada com o Evangelho do Coiote de Grant Morrison:


O que significa que teremos de nos manter atentos, à espera de novos sinais. Aguardemos.

(Óquei: a postagem toda é uma ironia. A foto do "coiote" é real, mas se trata apenas de uma mancha de água formada ao acaso e que a mente humana -- a minha, ao menos -- interpreta como tendo a forma de um personagem de cartum. O fenômeno se chama pareidolia, é perfeitamente natural e, somado a outros bugs do sistema cognitivo humano, está por trás de muito sofrimento e de muita bobagem, mas também de muita arte e humor. That's it.)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Medicina no mundo das fadas

Finalmente li a matéria da Veja sobre o "tratamento espiritual" do ator Reynaldo Gianecchini. O texto tem o mérito de ser um pouco menos sensacionalista que as usuais incursões da concorrente IstoÉ no mundo das fadas (o que, de certa forma, frustra as expectativas geradas pela capa).

Mas, ainda assim, não deixa de misturar alhos com bugalhos, pondo no mesmo saco, por exemplo, as recomendações estritamente pragmáticas da chamada "medicina integrativa" e um estudo sobre o poder da imposição das mãos sobre a saúde dos camundongos.

Indo por partes: "medicina integrativa", como fica bem claro na entrevista que a revista faz com um especialista americano, é a ideia de que, se o paciente tem uma superstição que pode ajudá-lo a se sentir mais feliz e tranquilo, o melhor é deixar que ele a pratique de forma controlada, sob supervisão médica e sem atrapalhar o tratamento de verdade. (Esta não é a definição oficial da prática, claro; mas, por baixo de toda a tergiversação condescendente, é a isso que se reduz).

Olhando dessa forma, parece ser uma mera questão de compaixão e bom-senso: ninguém ganha se o paciente decidir fugir da radioterapia para tomar uma garrafada de babosa com mel no meio de uma criação de galinhas do Mato Grosso. Se ele realmente insiste na garrafada, melhor que ela seja levada ao hospital e servida num copo esterilizado. Reduz o estresse e não atrapalha o esforço verdadeiro em busca da cura.

Esse simples pragmatismo psicológico tem, no entanto, dois problemas. O primeiro é o que eu já escrevi lá em cima, a tergiversação condescendente em torno de placebos e conversa fiada.

O segundo é o efeito Cavalo de Troia, pelo qual todo tipo de besteira e charlatanismo acaba ganhando a chancela de "aceito pelos médicos", e o que no fundo não passava de uma estratégia de controle de danos -- como o velho clichê dos pais liberais, "se quer experimentar maconha, faça em casa" -- vira uma espécie de endosso implícito.

A própria matéria da Veja cai nessa armadilha, por exemplo, ao descrever, em tom reverente, o "tratamento espiritual" do ator, que no fim não passa de uma pantomima de tratamento médico, com imposição das mãos fazendo as vezes de "cirurgia" e água benta bebida três vezes ao dia, antes das refeições, como se fosse um anti-inflamatório.

O paralelo com os cargo cults da Polinésia, em que os nativos das ilhas, ignorantes do funcionamento real de rádios e aviões, construíam torres e aeroplanos de bambu, esperando atrair a preciosa "carga" -- as tão admiradas bugigangas trazidas pelos militares americanos -- é quase doloroso de ver.

É claro que não se deve negar consolo e meios de reduzir o estresse a alguém que está enfrentando uma doença potencialmente letal. E se a alternativa a convidar o charlatão ao hospital é ter o paciente fugindo do hospital em busca do charlatão, e morrendo por causa disso, então não parece haver uma alternativa real. Mas também é preciso não fechar os olhos para o impacto mais amplo que essa "solução" tem. Como os troianos aprenderam do jeito mais difícil, é necessário sempre temer os gregos, principalmente quando trazem presentes.


domingo, 18 de setembro de 2011

Mágica!


Sábado passado, como parte da celebração do aniversário da Mais Bela e Paciente de Todas as Esposas, fui ao show do ilusionista Franklin Albuquerque, no Teatro Juca Chaves, em São Paulo.

Albuquerque constrói suas rotinas em torno do mentalismo -- truques em que o artista parece adivinhar ou antecipar pensamentos da plateia.

 Ele também faz objetos se moverem "com o poder da mente" e realiza truques de psicometria, quando o mágico finge captar "vibrações" de objetos para obter informações relevantes. O ponto alto do espetáculo, a meu ver, foi um desses números "psicométricos", uma variação dramática do velho "three card monte", em que é preciso adivinhar sob qual copo está uma ervilha.

Não se trata, no entanto, de um espetáculo de mentalismo puro. Não há nenhum número de leitura a frio, nem de leitura muscular: por exemplo, a rotina clássica em que o mágico sai do palco enquanto um comitê de membros da plateia esconde o dinheiro da bilheteria e, depois, encontra a renda do show apenas observando a linguagem corporal da audiência não está no repertório.

Confesso que sou um fã ávido de mágica. Como leitor assíduo dos livros de Jim Steinmeyer, consegui ter uma boa ideia de como parte razoável dos truques foi executada (um engano comum é imaginar que a cada efeito produzido pelo mágico no palco corresponde um, e somente um, truque: há várias rotas possíveis para produzir o mesmo efeito, e portanto toda "explicação" de uma mágica é sempre tentativa).

Mas isso não depõe, de modo algum, contra o espetáculo: Abuquerque é um artista talentoso e competente, e a hora e meia -- mais ou menos -- que passei em seu show foi extremamente agradável. Minha única crítica seria à linha de "patter" -- a "conversa fiada" que todo mágico usa para distrair a plateia e pôr a audiência no clima para os truques que virão -- adotada por ele: o mágico se apresenta como um misto de estudioso de parapsicologia e médium espírita.

Embora a persona de palco de Albuquerque misture doses suficientes de cinismo e pura canastrice para deixar bem claro que o espetáculo é uma obra de ficção que não deve ser levada lá muito a sério, imagino se um espírita sincero presente à plateia não poderia se ofender (ou, pior ainda, levar o show mais a sério do que o que seria saudável).

Ao final do show, tive a feliz surpresa de ser chamado ao palco para auxiliar o mágico em seu truque derradeiro, quando ele revela que uma série de informações que a plateia lhe havia dado ao longo da apresentação -- números, letras, formas geométricas -- havia, de fato, sido prevista por ele horas antes e anotada num rolo de papel, que estivera lacrado numa caixa à vista de todos, posicionada no palco antes do espetáculo começar. A foto acima sou eu segurando uma das pontas do rolo profético.

Trata-se de um truque clássico e extremamente eficaz: o grande mágico americano Milbourne Christopher certa vez fez algo parecido, prevendo o resultado da loteria nacional de Cuba, sendo que o papel com a previsão foi mantido sob guarda das tropas oficiais cubanas.

Há histórias de que o ditador Fulgêncio Batista ficou tão impressionado com o sucesso do truque, quando se revelou que o papel lacrado continha exatamente a sequência sorteada, que chegou a oferecer a Christopher uma vaga em seu gabinete. Que o mágico, mostrando mais uma vez seu poder de prever o futuro, recusou.

Eu acho que sei como Albuquerque fez aquilo. Se estou certo, tratou-se de um truque cuidadosamente construído ao longo de todo o espetáculo. Mas não vou partilhar minhas suspeitas com vocês.