sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Meia tonelada caindo do céu

A Nasa anunciou no dia 7 de setembro que um satélite de pesquisa atmosférica, o UARS -- sigla em inglês para Satélite de Pesquisa da Alta Atmosfera -- está voltando para casa. Sem ter sido exatamente convidado.

Uma boa notícia é que, como o equipamento está desativado desde 2005, o fim do UARS não representa nenhum perigo para os programas científicos da agência espacial. A outra boa notícia é a de que cerca de 90% da massa total do satélite (de respeitáveis 5,6 toneladas) vai se desintegrar na reentrada.

A má notícia é que os outros 10%, ou 532 kg, sob a forma de 26 diferentes componentes, feitos de materiais como aço, berílio e titânio, vão chegar à superfície da Terra com velocidades variando entre 75 km/h e 385 km/h (este último bólido são na verdade quatro rodas de aço, pesando 2 kg cada). Esses destroços todos  devem cair ao longo de uma linha de 800 km de extensão.

A reentrada deve ocorrer ao longo dos próximos 30 dias, mais ou menos, com uma janela mais estreita entre "o fim de setembro e o início de outubro", de acordo com nota no site da agência. A área a ser atingida também é desconhecida, até o momento, mas a Nasa promete divulgar boletins periódicos, primeiro semanais e depois até duas horas antes do evento.

Claro, lixo espacial reentra na atmosfera o tempo todo e a maior parte dele cai no oceano -- a maior parte da superfície da Terra é coberta de água, afinal -- mas o UARS está sendo tratado como um caso especial porque normas atuais de segurança recomendam que, quando um objeto é lançado ao espaço, sua órbita seja calculada de modo que o risco de ferimentos a seres humanos em sua eventual reentrada não supere 1 em 10.000, ou 0,001%.

Mas essas normas não estavam em vigor quando o UARS foi lançado em 1991, e o risco estimado de alguém acabar levando um pedaço desse satélite na cabeça está estimado em a 1 em 3.200, ou 0,03%. É mais ou menos a mesma chance de alguém jogar doze moedas para o alto e todas caírem cara (ou coroa). Já deve ter acontecido alguma vez.

De qualquer forma, a Nasa recomenda que, caso algum pedaço do UARS caia perto de você, não se deve tentar tocá-lo, mas chamar imediatamente as autoridades (no caso do Brasil, tremo só de pensar no que a "autoridade" mais à mão acabará fazendo...). Um PDF explicativo sobre a situação pode ser encontrado aqui.








terça-feira, 6 de setembro de 2011

Ciência e fé

No fim do mês, estarei no SESC de Curitiba para dar uma palestra sobre Ciência e Fé -- mais precisamente, o tema oficial é "as diferenças entre fé e ciência como formas de produzir conhecimento e de justificar crenças".

O convite para falar na capital paranaense surgiu já há vários meses, e desde então ando relendo vários clássicos pertinentes ao tema, e baixado outros tantos, furiosamente, no meu Kindle.

Nesse meio tempo, no entanto, também acabei me envolvendo em outros projetos, como esta reportagem para a Galileu, a revisão e a preparação de notas para O Livro dos Milagres, a organização, ao lado de Marcelo Augusto Galvão, de uma antologia nacional de contos de Sherlock Holmes, a manutenção deste blog, a redação de uma novela de ficção científica e, desde o início de agosto, o emprego novo.

O resultado é que, embora eu já tenha todo o material para a palestra pronto e organizado, anda faltando tempo para sentar e pôr as ideias em ordem no papel.

Eu até que sou um razoável orador de improviso (o Lula fez o favor de baixar bem as expectativas quanto ao que conta como um bom improvisador), mas seria, no mínimo, descortês (para não dizer temerário) chegar lá sem pelo menos um roteiro bem amarrado.

Como o blog também anda meio de lado, resolvi unir o útil ao agradável (ou o agradável ao agradável) e usar este espaço para organizar algumas ideias. Não vou postar o texto da palestra aqui, mas esboçar alguns tópicos:

1. Definições

Afinal, do que estamos falando quando nos referimos a "ciência" e a "fé"? Só essa discussão já poderia levar o dia inteiro (ou mais), então é preciso achar uma versão resumida.

2. Compatibilismo

Fé e ciência são compatíveis? De um ponto de vista estritamente prático, é claro que são: há diversos exemplos de cientistas que também são pessoas de fé. Mas compatibilidade psicológica superficial é diferente de compatibilidade lógica, epistemológica e, até mesmo, de compatibilidade psicológica profunda. E aí?

3. Divergência

Tanto a fé quando a ciência se apresentam como fontes de informação sobre o mundo. Na Idade Média, acreditava-se que não poderia haver conflito entre ambas, porque as duas apontariam para uma mesma Verdade. Isso, no entanto, não parece ter dado certo. Não deu mesmo? Por quê?

4. Considerações éticas

Existe uma "ética da crença"? Na presença de caminhos diferentes para a formação de crenças e opiniões, há um "caminho moralmente certo" e um "caminho moralmente errado", ou a escolha entre os caminhos é moralmente neutra? Como a forma pela qual adotamos nossas crenças afeta o mundo ao nosso redor?

5. Considerações finais, conclusão, abertura para o debate.

Agora, imagino que vou passar o feriado pondo carne e tendões nesse esqueleto. Quem estiver na capital do Paraná no dia 27 e quiser ver como me saí, os detalhes de horário e local estão aqui.