sábado, 6 de agosto de 2011

Man at Work

Não sei se alguém notou, mas este blog não foi atualizado nem quinta, nem sexta-feira. O motivo é que voltei a trabalhar fora de casa -- isto é, com carteira assinada, salário, essas coisas. Passei a fazer parte da equipe (de três) que edita a revista Ensino Superior Unicamp e o website Inovação Unicamp.

O lado positivo disso é que minha vida financeira volta a ter alguma previsibilidade; e que, por não ser a Unicamp um gigante da mídia desesperado para atrair audiência a qualquer custo, serei poupado de roubadas como ter de correr atrás da última declaração de Geisy Arruda ou outras besteiras. O negativo é que o tempo e a energia disponíveis para este blog serão diluídos entre outras tarefas.

(Supondo, claro, que alguém realmente ache que ter menos de minhas opiniões não-solicitadas flutuando por aí seja mesmo algo "negativo".)

O blog continua vivo, mas de uma forma mais errática. O que é uma pena, porque havia rompido a "barreira" dos 10.000 acessos pela segunda vez consecutiva no mês passado, e eu estava mesmo curioso para ver até onde dava para chegar. Mas agora, sem atualizações diárias, a audiência há de cair... Paciência.

De qualquer forma, a ideia de voltar a ser pago para escrever -- e em circunstâncias assim, dentro de um campus universitário, sem as pressões neuróticas da grande mídia -- é extremamente bem-vinda. Espero que alguns dos leitores desta postagem tenham a curiosidade de conferir os links acima. Minhas primeiras colaborações ainda devem demorar um pouco para aparecer, mas o material que já está lá é bem legal e se relaciona muito bem com vários temas que já tratei aqui e no Twitter.

Até breve!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Laputa fica em lua de Marte

Leitores das Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, provavelmente se lembram de Laputa, uma ilha que flutuava na atmosfera da Terra, movida a energia magnética, e cujos habitantes haviam descoberto duas luas em Marte -- sendo que o livro foi escrito 150 anos da descoberta real das luas, Fobos e Deimos.

Bem, finalmente os "descobridores" originais das luas ganharam uma homenagem: uma área da superfícia de Fobos foi batizada de Laputa Regio (Região Laputa). Um novo mapa de Fobos aparece na imagem abaixo (clique nela para ampliar!).


Compare com o mapa da Laputa ficcional:



Fobos é o alvo da missão Phobos-Grunt, um ambicioso projeto russo -- que prevê, entre outras coisas, o recolhimento de amostras da lua para serem analisadas aqui na Terra -- cujo lançamento já foi adiado algumas vezes, mas que agora deve sair entre o fim deste ano e o início do próximo.

De "carona" da Phobos-Grunt vão a primeira sonda marciana chinesa, e um experimento biológico da Planetary Society. Como hoje o Inpe faz 50 anos, vou poupar os leitores deste blog de minha usual choradeira a respeito da mediocridade do programa espacial brasileiro em relação a outros países com que gostamos de nos comparar, como Rússia, China e Índia.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Veja Vesta girando!

Vídeo da rotação do asteroide Vesta, feito com base em imagens de alta resolução produzidas pela sonda Dawn, da Nasa:



Uma análise detalhada das imagens você pode ler aqui. Mas, por favor, só depois de se maravilhar com o espetáculo: esta bola cinzenta aí em cima é uma rocha de 500 km de diâmetro, localizada no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter.

Ciência e religião: acertando o Ramadã

O mundo muçulmano entrou no mês sagrado de Ramadã nesta segunda-feira, dia 1° de agosto. A fixação do momento exato do início do Ramadã é, se não exatamente complexa, certamente aberta a alguma controvérsia -- pelo tradicional calendário lunar islâmico, os meses começam com a primeira observação da lua crescente.

O instante, portanto, pode variar tanto com a posição geográfica do observador, como com o tipo de equipamento usado para resolver a primeira réstia de luz no canto do disco lunar -- o olho nu sendo, compreensivelmente, capaz de uma resolução menos precisa que um binóculo ou telescópio.

(Há um bom artigo sobre o calendário muçulmano, aqui.)

O assunto do início do Ramadã, um mês de jejum e orações, é levado muito a sério nos países islâmicos. Os sauditas, por exemplo, foram autorizados a usar telescópios para fazer a determinação apenas em 2009. Há alguns dias, a suprema corte do país emitiu ordem para que todos os que observassem a lua crescente registrassem o avistamento com as autoridades.

Em artigo publicado semana passada na revista Science, um astrônomo saudita defende uma abordagem científica para a questão do mês sagrado (o texto está aqui, mas tem paywall).

Esta, aliás, é mais uma daquelas "oportunidades perdidas" que encontramos nas revelações divinas: da mesma forma que Deus poderia ter explicado a Moisés que doenças de pele são causadas por germes, e não por maldições; que Jesus poderia ter ensinado que epiléticos são doentes que precisam de cuidados, e não gente endemoinhada; o Arcanjo Gabriel poderia ter  ensinado Maomé a construir um telescópio.

A questão do Ramadã, me parece, é mais um exemplo de como a tentativa de isolar fé e ciência em "ministérios não-sobrepostos" está fadada ao fracasso. Claro, é possível reduzir a sobreposição a um mínimo,  mas um mínimo, irredutível, dado pelo simples fato de que todos temos de viver e funcionar no mesmo Universo físico.

Questões como qual o momento da morte, quando começa a vida e (possivelmente, menos polêmica e mais fácil de resolver) como determinar o início da lua crescente, sem falar em alegações de milagres -- históricos ou atuais -- continuarão a provocar atrito entre os campos.

A única forma de evitar isso seria esvaziar as religiões de toda a pretensão de conteúdo empírico, reduzindo-as de vez a mitos e metáforas -- mas duvido que haja muitos religiosos dispostos a fazê-lo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O preço do laicismo é a eterna vigilância

Em termos ideais, um Estado laico é um Estado onde considerações de natureza religiosa são, essencialmente, irrelevantes para a administração do governo e a definição de políticas públicas. Ou, nas palavras imortais de John F. Kennedy (que, espero, um dia algum político brasileiro terá cojones -- ou ovários -- para reafirmar):

 Eu acredito em um país onde a separação entre Igreja e Estado é absoluta, onde nenhum prelado católico dirá ao presidente (se este for católico) como agir, e nenhum ministro protestante dirá a seus fiéis como votar; onde nenhuma igreja ou escola religiosa receberá verbas públicas ou favores políticos; e onde nenhum homem será rejeitado para um cargo público apenas porque sua religião difere da do presidente que poderia nomeá-lo, ou da do povo que poderia elegê-lo.
Eu acredito em um país que não é, oficialmente, nem católico, nem protestante, nem judeu; onde nenhuma autoridade pública pede ou acata instruções sobre políticas públicas do papa, do Conselho Nacional de Igrejas ou de qualquer outra fonte eclesiástica; onde nenhum corpo religioso busca impor sua vontade, direta ou indiretamente, à população ou aos atos das autoridades públicas; e onde a liberdade religiosa é tão indivisível que um ato contra uma igreja será tratado como um ato contra todas.

O anseio por uma separação assim, tão radical, não reflete, como se ouve cada vez mais na mídia eletrônica e se lê nas páginas de opinião dos jornais, uma linha de "hostilidade à religião" ou uma tentativa de impor um "ateísmo oficial" à nação.

Curiosamente, aliás, quando essa questão entra em jogo, sutilíssimos arcebispos e competentíssimos jurisconsultos não raro começam a babar de raiva e se esquecem do princípio lógico fundamental de que "a ausência de A" e "a negação de A" são categorias distintas. Assim como nem todo não-amigo é inimigo -- o fato de a maior parte da população da China não lhe mandar cartões no seu aniversário não significa que os chineses odeiam você --, um Estado não-religioso não é, necessariamente, antirreligioso.

De fato, o caráter não-religioso do Estado é, tão-somente, uma consequência necessária do princípio da liberdade religiosa: se o cidadão tem autonomia para escolher qual religião (ou filosofia) seguir, não cabe ao governo privilegiar, em suas ações, as preferências de um determinado credo em detrimento das dos demais.

Nesse aspecto, a questão dos direitos dos ateus, dos sem-religião e de comunidades religiosas francamente minoritárias é especialmente espinhosa. Leis contra a blasfêmia (como as que ainda vigoram em alguns países) ou a tipificação de "crimes contra o sentimento religioso" (que existe no Brasil) restringem a liberdade de expressão desses grupos. Nas palavras do jurista americano Steven G. Gey, "o debate público de ideias religiosas é sutilmente enviesado a favor da religião, por meio da deferência obrigatória imposta, pela lei, ao descrente".

Além disso, a presença de símbolos religiosos em repartições públicas, representando um endosso tácito de crenças religiosas pelo Estado, "envia aos não aderentes a mensagem de que são forasteiros, não são membros plenos da comunidade". (Quem diz isso não sou eu, mas a Suprema Corte dos EUA.)

No Brasil, a indefensável permanência de crucifixos em, por exemplo, tribunais e casas legislativas é sustentada de uma forma altamente esquizofrênica -- primeiro, diz-se que a questão é irrelevante, e não precisa ser tratada de imediato; quando se aumenta a pressão e se exige uma resolução, os mesmos religiosos (ou seus prepostos) que antes diziam que a coisa era irrelevante passam a rasgar as vestes e a se declarar ofendidos de morte.

Geralmente, é neste ponto da conversa que alguém, mal informado ou por pura má-fé, saca da falácia democrática: se o país é uma democracia e a maioria da população segue a religião X, não seria democrático o governo reverenciar/promover/apoiar/defender/impor X?

Não, não seria democrático. Seria demagógico, o que é uma animal totalmente diferente. O acolhimento, tácito ou explícito, pelo Estado, da religião da maioria é tão democrático quanto um juiz sancionar um linchamento, só porque sangue nas ruas é o que a maioria -- a turba -- quer.

O fundamento da democracia moderna não está na ditadura da maioria -- isso, crianças, chama-se fascismo -- e, sim, no respeito aos direitos do indivíduo. A maioria é convocada a resolver disputas eleitorais não por ser maioria, e sim porque todo membro adulto da comunidade tem, individualmente, o mesmo direito e a mesma voz que cada um dos demais, na hora de decidir quem irá governar a coletividade. E isso porque as decisões do governo, ao contrário dos preceitos religiosos, são compulsórias para todos, o que torna necessário que o governo democrático seja exercido em nome de todos.

Esse em nome de todos é importante. Um Estado democrático (ou um indivíduo investido de autoridade estatal, no exercício de suas funções) que mostre deferência especial aos ícones ou rituais de uma religião está, simbolicamente, dobrando os joelhos de todos os cidadãos diante daquele objeto de culto específico. Se existe pluralismo na sociedade e há liberdade religiosa consagrada em lei, esse ato configura, no mínimo, um abuso da autoridade e uma grave violação da confiança pública.

Na relação entre o Estado e as religiões, o laicismo cria uma via de mão dupla: por um lado, o governo se abstém de interferir na religião (o que poderia fazer, por exemplo, atuando na nomeação de bispos e ministros, censurando o conteúdo de sermões, perseguindo hereges, promovendo um culto e suprimindo outros, etc.) e, em contrapartida, as religiões perdem o acesso ao poder, aos recursos e aos meios do Estado.

Quando você ouve um líder religioso elogiando o "Estado laico", pode ter certeza de que ele está pensando na primeira parte desse compromisso, enquanto que, no fundo de seu devoto coração, busca freneticamente formas de burlar a segunda. Essa é uma hipocrisia fundamental, presente em todas as instituições religiosas, do Vaticano ao Templo de Mitra Redivivo de Pindamonhangaba.

E é uma hipocrisia fundamental porque ela está inscrita no DNA das religiões organizadas, que sobrevivem conquistando fiéis para amealhar recursos, e amealhando recursos para angariar fiéis. O Estado, devidamente manipulado, é uma ferramenta boa demais para ser deixada de lado: em termos darwinianos, uma religião que, escrupulosamente, evite trocar favores com políticos a fim de se servir do Estado sofre clara desvantagem.

Nesse tipo de ambiente, onde quem tem escrúpulos acaba esmagado, só o que impede um vale-tudo generalizado é o medo da destruição mutuamente assegurada: em linhas gerais, o incentivo que as organizações religiosas têm para manter algum respeito, ainda que de fachada, ao laicismo é mais ou menos o mesmo que os partidos políticos brasileiros têm para preservar a democracia: uma ditadura dos outros é uma má ideia porque aí alguém (que não eu) monopolizará o erário.

A consciência desse fato cria uma complexa rede de rasteiras, chicanas e sabotagens que, se não deixa ninguém avançar muito mais que os outros, também não impede conquistas pontuais de nichos, favores, deferências, sinais de prestígio e boquinhas em geral.



No entanto, essa autorregulamentação informal certamente não basta: na cidade onde vivo, por exemplo, há um prêmio anual -- concedido pela Câmara Municipal, às custas do dinheiro público -- para pessoas que se destacam na "disseminação da fé cristã". Um ano ganha um padre, no outro, um pastor, e assim a paz dos púlpitos é mantida. Daí o título da postagem: avançar do laicismo de conveniência para um laicismo genuíno será um trabalho duro, que vai requerer a atenção contínua e concentrada de todos os que encaram a democracia e a liberdade como valores em si, e não como meros expedientes de conveniência.

Alguém poderia perguntar: e daí? princípios são muito bonitos em teoria, mas na prática as coisas são assim mesmo, safado tem em todo lugar e, se todo mundo fatura o seu e ninguém é arrastado à força para a igreja, então para quê fazer marola?

A resposta a isso tem duas partes. A primeira é que o respeito prático aos princípios é fundamental para definir o ambiente ético em que vivemos -- a atmosfera, o que a sociedade encara como aceitável, tolerável ou condenável. Esse ambiente é cambiante, e um valor não muito levado a sério, hoje, pode simplesmente desaparecer, amanhã.

A segunda consiste em notar que os chamados Grandes Monoteísmos sentem, desde que os sacerdotes de YHWH decidiram que era hora de regular a forma do pênis, a dieta, o comprimento dos cabelos e os hábitos sexuais dos cidadãos do Reino de Judá, uma forte comichão que os impele a invadir a vida privada dos indivíduos.

A interferência dessas religiões no processo legislativo tende, quase sempre, a sufocar o florescimento de liberdades: hoje, a principal questão é a do reconhecimento jurídico das uniões homoafetivas, seguida pela liberdade de investigação científica e pelos direitos reprodutivos da mulher; décadas atrás, era o divórcio.

A retórica, nesses casos, oscila entre a da vítima -- "estamos sendo atacados em nossos valores" -- e a da chantagem -- "não votem em quem é a favor do aborto, da união gay".

A linguagem da chantagem merece todo o desprezo que usualmente recebe das pessoas mais esclarecidas -- e, até mesmo, de alguns religiosos envergonhados -- embora seja eficaz quando usada para pressionar políticos com mais ambição do que, propriamente, princípios ou caráter.

Mas é preciso também não se deixar impressionar pela fantasia de vítima.

Nos casos, por exemplo, do divórcio ou da união gay, ninguém está impondo nada que prejudique os religiosos -- fechando templos, censurando livros sagrados ou, vade retro, Satanas!, cobrando impostos sobre os suados frutos da santa coleta -- mas, apenas, garantindo a cidadãos maiores de idade, constitucionalmente livres para adotar a metafísica que bem entenderem, o exercício de certas prerrogativas que, ora bolas, dizem respeito a problemas da esfera privada, pertinentes apenas aos indivíduos diretamente envolvidos.

De resto, é bom lembrar que bastou que o cristianismo se tornasse  a religião oficial do Império Romano para que os cristãos passassem, de comida de leões, a queimadores de livros, assassinos de pagãos, torturadores de hereges. Ou, nas palavras de James Madison, o autor da Carta de Direitos da Constituição dos EUA (que, entre outras coisas, proíbe o patrocínio estatal da religião):

Durante quase quinze séculos, o estabelecimento oficial do cristianismo tem estado em teste. Quais seus frutos? (...) Governantes que desejam subverter as liberdades públicas encontraram, no clero subvencionado, auxiliares convenientes. E, poderíamos acrescentar: vice-versa.


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