sábado, 30 de julho de 2011

Deu no New York Times: morre o pai da criônica

"Criônica" é o termo usado para fazer referência à técnica de congelar um cadáver para tentar ressuscitá-lo no futuro. O principal divulgador da ideia, Robert Ettinger, morreu nesta semana e foi congelado. Há um belo obituário no New York Times.

Um dado interessante é o de que Ettinger era escritor e fã de ficção científica. A obra de sua vida, a "evangelização" em nome da criônica, veio da leitura da revista de ficção científica Amazing Stories. Some-se isso ao fato de que pelo menos dois ou três dos ganhadores recentes do Nobel de Economia declararam-se inspirados a ingressar nas ciências sociais pela leitura de Fundação, de Asimov, e teremos uma pequena ideia do impacto da ficção científica no mundo real.

Ao longo de minha carreira, escrevi vários artigos sobre criônica. A maioria deles apontava para o dilema envolvido na preservação de um corpo congelado -- por um lado, a solidificação da água nos tecidos causa danos às células; esse dano pode ser evitado por anticongelantes, mas essas substâncias são tóxicas. O congelamento, portanto, destrói o corpo de uma de duas maneiras: pelo processo em si ou por envenenamento.

A ideia, é claro, é a de que a ciência do futuro será capaz de reverter todos esses efeitos deletérios. Lembro-me de que, enquanto pesquisava um de meus primeiros artigos sobre o tema, cheguei à referência de que um cientista japonês teria conseguido ressuscitar a cabeça congelada de um gato em 1966.

A ideia da cabeça amputada miando, ligada a eletrodos, enquanto um Dr. Frankenstein de olhos puxados gargalhava loucamente, me assombrou por algum tempo, mas finalmente consegui pôr as mãos no artigo completo, aqui. A verdade, enfim, é bem menos aterrorizante: o que a equipe japonesa fez foi detectar atividade elétrica num cérebro felino, pós-congelamento -- ainda que a descrição do experimento, incluindo a imersão do cérebro numa solução de sangue, lembre muito o romance de terror Donovan's Brain.

Eu imagino se os cadáveres congelados sob os auspícios de Ettinger -- mais de 100 -- não serão úteis para os cientistas do futuro, da mesma forma que os mamutes congelados de hoje são úteis para os nossos cientistas. Talvez nenhum deles venha a ser ressuscitado, mas não é de todo improvável que alguns acabem clonados.

A questão mais profunda, se o esforço todo vale a pena, dados os riscos e as enormes incertezas, possivelmente só tem resposta na consciência de cada um.

Pessoalmente, não sou um dos que acham que a é a morte que "dá sentido" à vida -- a morte é apenas algo com que temos de lidar por força das circunstâncias, como a imortalidade, talvez, venha a ser um dia -- então não faço restrições filosóficas ao processo. Mas, se eu tiver de voltar à vida por meio de alguma tecnologia arbitrariamente avançada do futuro, prefiro ser reconstruído a partir de meus escritos. Que são o que tenho de mais interessante a oferecer, afinal.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sorte, riqueza e a ilusão do controle

Sorte e acaso são termos que andam meio fora de moda. O ser humano sempre gostou de ter algum senso de controle sobre seu destino, e as atuais teologias da prosperidade, somadas à enxurrada de literatura de autoajuda, só fizeram agravar o processo, vendendo uma supersticiosa ilusão de controle às massas afoitas.

Claro, não se trata de dizer que a sorte é tudo -- preparação, empenho, senso de oportunidade, clareza de visão... tudo isso tem um papel, e um papel importante.

Mas é preciso reconhecer como é forte a tentação de se cair no extremo oposto: achar que todas as coisas que ocorrem, acontecem por algum motivo. Que as pessoas sempre e inevitavelmente merecem o que acontece a elas, seja fortuna ou desgraça.

Em termos teológicos, substitui-se a doutrina paulina da graça -- segundo a qual Deus distribui dores e recompensas de modo inescrutável -- por uma visão supersticiosa, quase mecanicista, do funcionamento dos céus: feitos tais e tais sacrifícios (seja um holocausto de touros ou do cartão de débito), decorrem daí os favores da eternidade. E se não decorrerem, é porque você não sacrificou o suficiente.

Em termos culturais, cria-se um clima propício para a indústria do pensamento positivo, com suas leis da atração e quejandos. E, em termos sociais e econômicos, dissemina-se uma atmosfera de desprezo pelos menos favorecidos -- vagabundos, todos -- e uma frenética idolatria por quem está no topo.

Daí que uma pequena simulação publicada no periódico PLoS ONE pode servir como um leve beliscão nas consciências. Economistas da Universidade de Minnesota, nos EUA, criaram um modelo de computador para estudar as condições em que, a partir de uma origem teórica perfeitamente igualitária, surge o fenômeno da concentração de renda. O que descobriram: basta sorte.

Em outras palavras: para explicar como nasceram a riqueza e a pobreza, não é preciso invocar fatores como talento, disposição para o trabalho, ética, etc. O acaso trata de garantir que a renda acabe distribuída de forma desigual, mesmo num modelo onde todos começam com exatamente o mesmo capital e exatamente as mesmas qualidades pessoais.

O mundo real é obviamente mais complexo que isso, e nele diferenças de disposição e preparo existem e fazem diferença. No modelo, diferenças entre os indivíduos aceleram a concentração; não são, como talvez se pudesse imaginar, uma força redistributiva.

No fim, os autores propõem um imposto sobre grandes fortunas com a finalidade de barrar a marcha da concentração -- que, segundo eles, tende a reduzir a diversidade e o crescimento da economia, porque os ricos tendem a reinvestir apenas, ou principalmente, em seus próprios negócios.

Sejam quais forem as receitas econômicas tiradas daí, porém, o resultado bruto -- de que eventos fortuitos conspiram, de modo virtualmente inevitável, para que, mesmo entre iguais, uns acabem com muito mais do que os outros -- deveria inspirar, se não outra coisa, um certo senso de humildade. Talvez, até, um pouco de compaixão.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Einstein e Deus: entre cegos e aleijados

“A ciência sem religião é aleijada, a religião, sem ciência, é cega”. Outra: "não pode, verdadeiramente, haver conflito legítimo entre ciência e religião". As duas são máximas de Albert Einstein, retiradas de um artigo que escreveu em 1941, e recolhido no volume Escritos da Maturidade. Não raro aparecem -- principalmente a primeira -- em discussões sobre, exatamente, os conflitos entre ciência e religião.


Geralmente, são invocadas em um tom de finalidade, para definir a conversa, o subtexto sendo: "Einstein, que era um cientista fodão, dizia isso; e você, palhaço, quem pensa que é?"


Não nego, claro, que o argumento tem algum poder heurístico -- a opinião de grandes cientistas sobre o que entra (ou não) em conflito com a ciência tem lá seu valor. Mas mesmo grandes cientistas podem errar, nesse aspecto: Newton e astrologia logo vêm à lembrança.

No entanto, citações são de muito pouca valia quando retiradas do contexto adequado. A frase de Einstein sobre não haver conflito vem logo seguida de uma qualificação:

"...devo fazer uma ressalva a esta afirmação (...) essa ressalva tem a ver com o conceito de Deus". E, mais adiante, ele prossegue: “a principal fonte dos conflitos atuais entre as esferas da religião e da ciência reside no conceito de um Deus pessoal". E continua:


"Os professores da religião precisam ter a envergadura para abrir mão da doutrina de um Deus pessoal, isto é, renunciar à fonte de medo e esperança que, no passado, concentrou um poder tão amplo nas mãos dos sacerdotes". 


Isto é: para Eisntein, ciência e religião não entram em conflito se a religião abrir mão da divindade que ouve preces, que castiga os pecadores e recompensa os obedientes.


Claro, ele pode estar errado. Há amplo escopo para discussão. Mas, da próxima vez que alguém invocar a autoridade do grande professor para sentenciar que "a ciência sem religião é aleijada, a religião, sem ciência, é cega", lembre-se de que, se formos manter alguma fidelidade ao sentido original de Einstein, no mundo de hoje o número de cegos supera, em muito, o de aleijados.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Cantor e o problema da onisciência

Semana passada, eu mencionei aqui a análise feita pelo filósofo Patrick Grim sobre o "Paradoxo da Pedra", um raciocínio que indica que a onipotência, como normalmente entendida, é uma noção contraditória e incoerente. Grim, no entanto, é mais famoso -- na medida em que um filósofo contemporâneo pode ser "famoso", claro -- por ter descoberto o que ele acredita ser uma prova de que outra propriedade normalmente associada à figura de Deus, a onisciência, é impossível.

A prova de Grim é chamada de "argumento cantoriano", porque deriva de resultados obtidos originalmente pelo matemático Georg Cantor. Simplificando bastante a coisa, e evitando uma linguagem excessivamente enrolada (com coisas do tipo, "o conjunto de subconjuntos de um conjunto é um conjunto..."), poderíamos dizer que Cantor demonstrou, muito tempo atrás, que todo conjunto pode ser usado para criar outro conjunto com mais elementos do que si mesmo. Por exemplo, a partir de {1,2,3} é possível fazer {1, {1,2}, 2, {1,3}, 3, {2,3}, {}}, onde os colchetes internos definem subconjuntos da coleção original, e onde o "{}" representa o conjunto vazio.

A onisciência sempre foi uma propriedade bastante aberta a críticas. Clifford Pickover, por exemplo, escreveu um livro inteiro sobre o assunto, The Paradox of God and the Science of Omniscience. Entre os problemas da noção "ingênua" de onisciência, está o fato de que é fácil encontrar coisas que um ser onisciente jamais saberá -- por exemplo, qual a sensação de aprender uma coisa nova.

Para escapar desse tipo de problema, alguns filósofos redefinem onisciência não como a propriedade de saber tudo -- em sentido amplo -- mas, sim, como a de conhecer e acreditar em todas as afirmações verdadeiras. Assim, a onisciência seria como ter acesso a uma super-hiper enciclopédia, que conteria todas as verdades do Universo.

O que Grim demonstra, a partir da lei de Cantor, é que é impossível existir um conjunto de todas as verdades. Por quê? Bem, imagine esse conjunto, V. Ele seria algo assim:  V = {v1, v2, v3, v4, v5...}, talvez  expandindo-se até o infinito. Mas, por Cantor, sabemos que é possível usar esse conjunto para construir um maior ainda, V+, que conteria, por  exemplo, {v1, {v1,v2}, {v4,v3}, v3, {v1,v2,v5}...}.

Agora, alguns elementos de V+, como {v1, v2}, implicam verdades -- uma delas sendo "v1 pertence ao subconjunto de V formado por {v1, v2} e que é um elemento de V+" -- que não faziam, originalmente, parte de V. Logo, há verdades que não estão contidas no conjunto de todas as verdades. Mas isso é uma contradição. Portanto, não existe um conjunto de todas as verdades. Se o conjunto não existe, não há como um ser (ou Ser) conhecer todos os seus elementos. E aí...

O que dizer disso? Não dá para argumentar que as verdades derivadas de V+ já estão contidas em V porque V+ contém mais elementos que V por definição, a partir da lei de Cantor. Mas há críticos que duvidam que a abordagem a partir da teoria dos conjuntos seja válida, nesse caso. A discussão prossegue.

Para quem quiser mergulhar nos detalhes, o  artigo original de Grim está aqui, um debate dele com um filósofo teísta aparece aqui e uma resposta a algumas críticas mais recentes está aqui.

terça-feira, 26 de julho de 2011

E Copérnico ganha mais uma

Se você já leu tanta divulgação científica quanto eu, provavelmente está meio acostumado à ideia de que a vaidade humana recebeu diversos golpes nos últimos 600 anos, primeiro com Copérnico e Galileu, que nos tiraram do centro do Universo; depois com Darwin, que pôs o homem como mais um animal entre outros; com Freud, que mostrou que o ser humano não é senhor, sequer, dos próprios pensamentos; e, por fim, com Hubble, que descobriu que a Via-Láctea é apenas mais uma galáxia entre uma infinidade de outras, num Universo em expansão.

O quadro acima é razoavelmente correto, mas requer alguns ajustes.

Primeiro, a posição de centro do Universo que a Terra tinha no pensamento medieval não era exatamente coisa de causar vaidade -- muito pelo contrário: na cosmovisão da época, o centro era também a parte mais baixa, para onde escorre tudo que é grosseiro, impuro, sujo -- a Terra, no centro do Universo, cumpria uma função análoga à do ralo no centro da pia.

Segundo, a colaboração de Freud é largamente superestimada: a ideia de que o ser humano age movido por motivações inconscientes é muito anterior a ele. Os filósofos estoicos, na Antiguidade, já sentenciavam que o homem que busca erguer monumentos em seu nome age, na verdade, por medo da morte. Que tal isso, como insight psicológico?

De qualquer forma -- voltando à contribuição de Copérnico -- o ralo é um ponto especial da pia (ainda que sua "especialidade" tenha uma honra um tanto quanto duvidosa), e o fato de não estarmos nele realmente nos removeu de uma posição de destaque. Esse movimento, do especial para o comum, acabou sendo entronizado como o Princípio Copernicano: não devemos supor que o lugar onde estamos é especial.

Esse princípio é uma espécie de hipótese de trabalho da ciência: não seria possível deduzir leis universais da natureza se o pedaço da natureza a que temos acesso fosse especial, isto é, radicalmente diferente da situação típica do cosmo.

O que não significa que o princípio não seja desafiado, de tempos em tempos: afinal, é possível (ainda que altamente improvável) que, sim, estejamos num lugar especial. Teorias como a da "Terra rara" -- segundo a qual as condições para a existência de vida na Terra são virtualmente impossíveis de se repetir em outras partes do Universo -- se enquadram aí, por exemplo.

Mas o mais recente desafio ao Princípio Copernicano veio da cosmologia. Há pouco mais de dez anos, cientistas descobriram que o Universo está em expansão acelerada, um fenômeno que foi atribuído à presença de um tipo até então desconhecido de energia no próprio espaço, a chamada energia escura.

Cientistas, no entanto, tendem a cultivar uma saudável desconfiança em relação à tática de invocar entidades desconhecidas e misteriosas para explicar novos fenômenos -- dizer "foi o diabo que me fez fazer isso" não cola -- e, embora a energia escura esteja parecendo cada vez mais plausível, a busca por alternativas continua.

Uma dessas alternativas é a hipótese do Grande Vazio. Segundo ela, o Princípio Copernicano está errado e, sim, nós observamos o Universo de um mirante especial: um localizado no centro de uma grande bolha de espaço vazio (daí o nome). A impressão de que as demais galáxias estão fugindo de nós cada vez mais rápido seria uma ilusão de óptica causada pela presença do vazio entre nós e o resto do Universo.

Uma série de observações astronômicas, divulgada no periódico Physical Review Letters, no entanto, mostra que algumas consequências esperadas da presença do Vazio -- entre elas, uma variação no fundo cósmico de micro-ondas -- não se confirmam.

O Princípio Copernicano, portanto, continua firme e forte. Não somos mais o ralo do Universo, nem a coroa da criação (esses seriam os besouros, de acordo com JBS Haldane) e nem, ao que parece, o centro de uma bela bolha de nada. Mas fazemos perguntas e (às vezes) obtemos respostas -- o que há de servir para alguma coisa.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Se Deus existe, então tudo é permitido

A frase-título desta postagem é, se não me engano, um dos slogans da campanha da ATEA. Decidi usá-la para encabeçar minha postagem a respeito do atentado na Noruega porque a tragédia nórdica é uma ilustração bem clara do significado mais profundo do slogan.

(Aliás, alguém poderia em explicar por que os maníacos da Al-Qaeda sempre são chamados de "terroristas islâmicos", mas o cavaleiro templário de Oslo é um "extremista de direita" e não um "terrorista cristão"? Seria mais uma questão da multiplicidade dos pesos e medidas na mídia brasileira? Este editorial do Estadão chega ao cúmulo da delicadeza, calçando luvas de pelica para dizer apenas que o assassino "se definia como cristão conservador". Tá, mas por que, então, não calçar as mesmas luvas e afirmar, por exemplo, que Osama bin Laden "se definia como muçulmano"?)

A questão envolvendo Deus e o que é permitido ou proibido faz parte de um campo de estudos conhecido como o das fundações (ou fundamentos) da ética. Basicamente: qual a autoridade por trás das noções de certo e errado? Uma resposta clássica é a de que tudo vem do costume.

O historiador grego Heródoto parecia concordar com isso. Ele narra um episódio que teria ocorrido na corte real persa, no qual duas delegações estrangeiras ficam horrorizadas ao saber dos costumes funerários uma da outra: uma delas cremava os mortos, e achava bárbaro devorá-los; a outra os devorava, e achava uma falta de respeito reduzir a carne dos mortos a cinzas.

A ideia de que costume é tudo que há tem apelo para um certo tipo de sensibilidade, mas soa insustentável para muita gente (se não por outro motivo, ela permite justificar escravidão, mutilação genital, genocídio e outras atrocidades, bastando para isso invocar a explicação de que "é o costume deles"); a intuição de que deve haver algum padrão mínimo universal -- que talvez até comporte uma superestrutura baseada em cultura e costume -- é muito forte.

Mas, de onde viria esse padrão? "Deus" é uma resposta fácil -- e errada. Sabemos, de fato, que é errada há milênios, muito antes que a Al-Qaeda ou os Novos Templários aparecessem para oferecer prova concreta.

A demonstração aparece num diálogo de Platão, o Eutifro. Nele, Sócrates encontra um amigo que está prestes a denunciar o pai por assassinato, e se envolve num debate sobre a natureza da "piedade" -- mas podemos trocar a palavra por "bem", sem prejuízo para o valor do argumento.

Eutifro define que "piedade" é aquilo que os deuses amam, e impiedade é aquilo que os deuses odeiam -- paralelamente, poderíamos dizer que quem vê em Deus a fundação da ética afirma que certo é o que Deus ordena, e errado, o que Deus proíbe; ou, são boas as ações que Deus aprova e más, as que Ele reprova.

Sócrates, como sói acontecer nos diálogos platônicos, usa a definição dada pelo próprio Eutifro para aplicar-lhe um jiu-jitsu filosófico. O trecho crucial é este:

Sócrates: E o que dizes da piedade, Eutifro: a piedade não é, de acordo com a tua definição, amada por todos os deuses?


Eutifro: Sim.


Sócrates: Porque ela é piedosa e sagrada, ou por alguma outra razão?

Eutifro: Não, essa é a razão.

Sócrates: Então ela é amada porque é sagrada, e não sagrada porque é amada?

Eutifro: Sim.



Em linhas gerais: se o bem e o mal não são arbitrários, se são algo além de simples decretos de um tirano cósmico, então é preciso que haja um padrão de certo e errado que não depende da vontade divina. Porque se o padrão for, de fato, uma criação arbitrária da vontade divina, então matar, estuprar e explodir prédios podem ser atos morais -- bastando, para isso, que Deus queira.

Este é, claro, o raciocínio que, aos olhos de seus praticantes, sejam eles islâmicos ou cristãos, legitima terrorismo religioso;  e também o que motiva o slogan no título da postagem: se a vontade divina é a fonte suprema da ética, então a ética pode permitir (ou mesmo exigir) qualquer coisa que dê na veneta de YHWH -- e um leitor casual dos livros de Josué e Samuel, na Bíblia, sabe como é fértil a imaginação para atrocidades dessa augusta personagem.

Mas, então, o que nos resta? Se o costume é insuficiente e o apelo à divindade, arbitrário, como achar o padrão? Afinal, existe um padrão?

Eu acredito que ele pode ser construído, racionalmente, a partir do reconhecimento da nossa humanidade comum -- do fato de que todos sonhamos, desejamos, amamos e, quando atacados, sangramos e morremos do mesmo jeito.

Homeopatia, espiritismo e o poder de uma hipótese

Não sei como andam as coisas nas editorias de Ciência dos jornais hoje em dia, mas nos anos em que cuidei do assunto, no Estadão.com.br, era com uma certa frequência -- digamos, uma vez a cada trimestre -- que aparecia, na caixa de e-mail ou entre as sugestões trazidas por colegas de outras áreas, a notícia de um estudo "provando" a eficácia da homeopatia em animais (ou no combate de alguma aflição humana específica) ou de uma pesquisa a confirmando a existência de forças espirituais, e/ou a respeito do "poder de cura" de certas práticas mediúnicas.

Exatamente uma única vez, chamaram-me a atenção para um trabalho realizado na UnB que teria provado a validade da astrologia.

Estudos assim sempre me deixavam estupefato. Se tivessem sido realmente bem executados e suas conclusões fossem válidas, deveriam estar sendo publicados na Science ou na Nature -- sendo esta última, historicamente, uma publicação bastante aberta a conclusões polêmicas, tendo dado guarida, por exemplo, a trabalhos sobre Uri Geller e à famigerada tese da "memória da água".

Além disso, os autores de descobertas tão revolucionárias certamente apareceriam na linha de frente para um ou dois prêmios Nobel!

Curiosamente, no entanto, essas provas destruidoras de paradigmas geralmente eram fruto de dissertações de mestrado ou teses de doutorado -- passando, portanto, por fora do sistema de revisão pelos pares -- e, quando eram publicadas em periódicos especializados, acabavam aparecendo em revistas "de nicho", já ideologicamente predispostas a aceitar as conclusões oferecidas e a acatar metodologias pouco ortodoxas.

(A tese do "boicote dos homens de preto" -- de que existe uma conspiração universal da indústria farmacêutica com o Vaticano e sabe-se quem mais para manter a humanidade ignorante das Grandes Verdades -- falha em explicar como os estudos sobre Geller e homeopatia foram parar na Nature em primeiro lugar, e também como toda a "sabedoria alternativa" rejeitada pela "ciência oficial" acaba chegando às listas de best-sellers, enquanto que artigos científicos sérios geralmente se veem restritos a um pequeno número de especialistas: se há uma conspiração, ela na verdade parece operar no sentido oposto.)

O mais recente caso de um estudo "alternativo" que chegou a uma publicação mainstream foi o trabalho de Daryl Bem, que já comentei aqui. Esse estudo provocou várias reações, entre elas uma resposta de pesquisadores da Universidade de Amsterdã que põe em relevo os principais problemas com estudos feitos na tentativa de provar a existência de algum fenômeno extraordinário.

A principal dificuldade, ao menos a meu ver, é a chamada "falácia da transposição da condicional".

Quando um cientista decide usar estatísticas para tentar provar alguma coisa, o esforço geralmente toma a seguinte forma: primeiro, o pesquisador imagina como será o mundo, se a coisa que ele está tentando provar for falsa.

Por exemplo, digamos que ele suspeita que assistir ao desenho do Pica-Pau deixa as crianças violentas; se essa ideia estiver errada, então fãs do Pica-Pau não serão mais violentos que as crianças em geral. Essa é chamada hipótese nula. E a inferência é a de que, se a hipótese nula estiver correta, então as estatísticas não devem mostrar um nível de violência significativamente elevado entre fãs do pássaro topetudo vermelho, na comparação com outros grupos infantis.

Presumamos que a amostra da pesquisa tenha sido montada com todo o cuidado, para neutralizar os efeitos de fatores que poderiam confundir o resultado -- como sexo, classe social, faixa etária, desempenho escolar, situação familiar, etc, etc. -- e que, ao fim e ao cabo, o estudo comprove que o comportamento violento e a afinidade pelo Pica-Pau estão correlacionados, com uma probabilidade de a correlação se dever ao acaso inferior a 5%.

Normalmente, então, diríamos que o resultado permite descartar a hipótese nula e afirmar que, sim, o Pica-Pau estimula a violência entre as crianças. Mas essa é, de fato, uma conclusão forte demais. O que deveríamos realmente dizer é que os dados são incompatíveis com a hipótese nula. Em princípio, nada impede que a hipótese esteja certa e os dados, errados. Esse é um dos fatores que torna a questão da reprodutibilidade tão fundamental na ciência.

Em termos de probabilidade condicional, o resultado apenas mostra que a chance de os dados refletirem a realidade, dada a hipótese nula, é menor que 5%. Isso é bem diferente de se afirmar que a chance de a hipótese nula estar certa, frente aos dados, é menor que 5%.

É possível ilustrar a diferença com um exemplo: qual a probabilidade de um homem estar morto, dado que foi devorado por piranhas mutantes voadoras? Bem, suponho que 100%! Mas, agora: qual a probabilidade de um homem ter sido devorado por piranhas mutantes voadoras, dado que está morto? Bem próxima de zero, já que esse tipo de animal não existe!

A suposição de que a probabilidade de A, dado B, deve ser sempre igual ou muito próxima à probabilidade de B, dado A, é a tal da  "falácia da transposição da condicional" que mencionei acima.

Crucialmente, estudos que buscam demonstrar efeitos como precognição, mediunidade e homeopatia erguem-se contra hipóteses nulas de altíssima probabilidade: a de que os efeitos sucedem as causas; a de que a personalidade se extingue, ou ao menos torna-se incomunicável, após a morte; e a de que uma substância química precisa estar presente, para ter efeito sobre o organismo.

A massa -- e qualidade -- da evidência que seria necessária para pôr em questão a razoabilidade de qualquer uma dessas hipóteses é de tirar o fôlego. O que não significa que a tarefa seja, por definição, impossível. Mas o tamanho do desafio é rotineiramente ignorado nas bancas de defesa de tese, nas revistas de nicho e nas distribuições de bolsas de pós-graduação.