sexta-feira, 15 de julho de 2011

HP Lovecraft e eu, uma longa história

Quem acompanha a minha soi-disant "carreira" há mais tempo sabe que meus primeiros trabalhos como ficcionista foram fortemente influenciados pela obra do americano Howard Philips (H.P.) Lovecraft. Um dos grandes nomes da era pulp, Lovcraft criou uma fusão de ficção científica, terror e fantasia que se encaixava muito bem no que eu queria fazer lá pelos idos de 1990, e portanto bebi a fundo em sua fonte.

A obra disponível no Brasil era pequena -- encontravam-se, com alguma facilidade, apenas quatro volumes: três, se não me engano, da Francisco Alves e um da L&PM. Meu primeiro livro de contos, Medo, Mistério e Morte, contém algumas tentativas incipientes de criar um "Arkham Country" (como é chamado o trecho fictício, e mal assombrado, da Nova Inglaterra onde se passam muitas das crônicas lovecraftianas) brasileiro.

Meus primeiros contatos literários com o exterior vêm dessa época, com as primeiras traduções de contos meus para o inglês (quem quiser se arriscar encontra exemplos aqui, aquiaqui).

Quando, num dos poucos atos memoráveis de seu governo, Fernando Collor autorizou o uso de cartões de crédito em despesas internacionais, comecei a importar livros da Chaosium via catálogo e, na era do populismo cambial do governo FHC, consegui trazer a obra completa nos cinco épicos volumes da Arkham House -- os três de ficção solo e os dois outros de "colaborações" (em sua maioria, contos escritos por HPL mas assinados por terceiros, como Harry Houdini).

Com o passar do tempo, meus interesses diversificaram-se e acabei me afastando do velho mestre, mas nos últimos dois anos dois fatos acabaram me levando a uma reaproximação com, e reavaliação de, HPL.

O primeiro foi a, digamos, nova exegese da obra de Lovecraft feita pelo crítico S.T. Joshi. Ele argumenta que os Mitos de Cthulhu são melhor interpretados na chave da paródia, e que o parodiado neles é o sobrenaturalismo -- a religião, as superstições, a metafísica em geral. Escrevi um artigo sobre isso.

(Joshi, biógrafo de Lovecraft, chegou a incluir o autor em seu livro sobre grandes ateus da história, The Unbelievers: The Evolution of Modern Atheism e a organizar uma coletânea dos escritos ateístas do autor, Against Religion: The Atheist Writings of H.P. Lovecraft.)

O segundo foi o convite para participar da preparação de um livro de luxo com algumas obras selecionadas do autor, incluindo as primeiras versões, no Brasil, de seus poemas. A iniciativa, de Denilson Ricci, que mantém o impávido Site Lovecraft, pretende publicar o volume em breve, que será uma edição especial só para assinantes.

As traduções e ilustrações foram feitas por voluntários, e meu principal trabalho foi verter para o português os 36 sonetos reunidos no ciclo Os Fungos de Yuggoth. Isso ocupou boa parte de meu tempo livre no segundo semestre do ano passado (quando eu ainda trabalhava no Estadão), e causou um certo espanto em minha mulher ("Como assim, 36 poesias sobre um fungo?").

Na verdade, os poemas do ciclo são, cada um deles, pequenas peças narrativas em verso -- que às vezes parecem encadear-se, com um soneto dando continuidade ao anterior, e às vezes são autocontidas. O ciclo como um todo pode ser visto como a sequência de experiências que um narrador comum vive depois dos eventos do soneto número I, mas essa é apenas uma interpretação possível.

Um dos meus favoritos é este aqui (já em minha versão de pé quebrado):


XXI. Nyarlathotep

E finalmente da terra do Egito veio o Obscuro
Forasteiro diante de quem se curvam as gentes;
Silente e delgado e cheio de críptico orgulho,
Envolto em tecido rubro com o fogo de inúmeros poentes.
Multidões aguardam fanaticamente pelo sermão,
Mas ao partir não sabem dizer o que tinham escutado;
Enquanto pelas nações espalha-se, e com espanto é narrado,
Que feras selvagens o acompanham e lambem suas mãos.

Logo, no mar tem início um tóxico renascer;
Terras esquecidas com torres douradas, de algas cobertas;
O chão se parte, e loucas auroras se veem libertas
Sobre as humanas cidades, que não param de tremer.
Então, esmigalhando o que havia moldado ao brincar,
Com um sopro o Caos idiota fez o que restava da Terra voar.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Que tal trocar o véu por um escorredor de macarrão?

Muita gente torce o nariz, mas eu realmente acho que as religiões de paródia, como a Igreja do Monstro de Espaguete Voador e o Discordianismo dizem algo de muito importante sobre a natureza do conhecimento humano.

Digo, qual a diferença epistemológica entre se afirmar que o Universo foi criado por uma voz desencarnada que, 14 bilhões de anos depois, resolveu engravidar uma virgem, ou por uma bola gigante de espaguete à bolonhesa?

O fato de que a segunda versão parece intrinsecamente ridícula não conta: o que deveríamos nos perguntar é por que a primeira não parece, também.

(Pode-se argumentar que espaguete à bolonhesa é algo que surgiu dentro do Universo, e portanto não poderia pré-existir a ele, mas até aí vozes, vontades, personalidades, etc., também estão sujeitas à mesmíssima restrição. E quem garante que os nossos espaguetes à bolonhesa não são apenas imitações baratas do verdadeiro ideal platônico que transcende o devir?)

Ambas, afinal, são alegações impossíveis de confirmação ou refutação cabal por qualquer meio concebível (o que não significa que não possam ser analisadas em termos de razoabilidade e probabilidade, mas esse é um dado que deixarei para outro dia).

O problema epistemológico me ocorreu pela primeira vez há mais de uma década, quando li algo sobre o Filho de Sam, o assassino psicopata americano que recebia ordens telepáticas do cachorro do vizinho. Aí eu me lembrei de Abraão, ouvindo vozes que mandavam-no matar o filho, e de Moisés, que recebia ordens de um arbusto em chamas.

Objetivamente: por que um é um doente mental perigoso e os outros dois, patriarcas bíblicos? A diferença parece estar no número de pessoas que você consegue convencer e na qualidade dos relatos que o seu serviço de relações públicas deixa para a posteridade.

Ao menos de acordo com Oliver Sacks, a distinção entre um êxtase místico legítimo e um grande ataque de enxaqueca é, bem, nenhuma.

No fim, tamanho da clientela e qualidade do marketing acabam sendo os mesmíssimos fatores que distinguem uma religião "séria" de uma "seita"... ou de uma paródia. Com o detalhe extra de que as paródias têm o marketing mais divertido.

Essa impossibilidade objetiva de separar a <<religião>> da "religião" aparece na concessão de isenções fiscais a cultos de pura picaretagem, e na aura de respeitabilidade (que traz consigo votos e verbas) que figuras que deveriam estar na cadeia ou nos shows de calouros recebem assim que se declaram apóstolos, bispos ou pastores. Mas a situação também permite atos saborosos de reductio ad absurdum, como este, na Áustria: depois de anos, Niko Alm obteve permissão para posar na foto da carteira de motorista usando um escorredor de macarrão na cabeça.

A lei austríaca, ao que parece, proíbe o uso de adereços na cabeça em fotos oficiais -- para não prejudicar a identificação do cidadão. Existe uma exceção à regra: adereços de natureza religiosa podem ser usados. Alm, declarando-se um fiel da Igreja do Monstro de Espaguete Voador, exigiu, portanto, usar um escorredor de macarrão na cabeça para a foto, a fim de honrar sua divindade.

Autoridades austríacas disseram, depois, que a liberação da foto de Alm não havia ocorrido sob a rubrica de liberdade religiosa, mas sim porque o rosto dele aparecia por completo, o que satisfaz aexigência da lei. Alm respondeu questionando por que, se a questão era tão simples, o documento levou quase um ano para ficar pronto...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Zona habitável... da galáxia?

Acho que todo mundo já está meio careca de ouvir falar no conceito de "zona habitável" de um sistema solar: a região, em torno da estrela central, onde a temperatura na superfície de um planeta permite a existência de água (ou algum outro solvente viável) em estado líquido.

Menos conhecidas, porém, são as críticas à ideia de zona habitável, que chamam a atenção para a estreiteza do conceito baseado exclusivamente na distância estrela-planeta, já que uma série de outros fatores (densidade atmosférica, por exemplo) podem afetar a capacidade de um planeta conter líquidos viáveis para a vida.

Outra tipo de crítica, de caráter mais filosófico, lembra que "vida" pode ser um fenômeno muito mais sutil e/ou complexo do que imaginamos, existindo em formas e condições que, hoje, nos parecem impossíveis.

(Para ser justo, é preciso dizer que a maioria dos cientistas que trabalham buscando vida extraterrestre está perfeitamente consciente das limitações do conceito: o que dizem é que a busca tem de começar em algum lugar, e o melhor lugar para começar é onde as as coisas são parecidas com o que já conhecemos.)

Críticas à parte, no entanto, a ideia de uma "zona habitável" delimitada não se aplica apenas a sistema solares, mas também a galáxias.

A noção é a de que, no interior de uma galáxia, deve existir uma faixa -- normalmente imaginada como um anel cilíndrico, ou toroide -- onde o ambiente espacial é rico o suficiente em materiais "pesados" necessários para  a vida como a conhecemos (ferro, carbono, oxigênio, etc.) e, ao mesmo tempo, distante o suficiente do núcleo galáctico para evitar incômodos como supernovas e a radiação do buraco negro central.

Supernovas são o fator-chave: sem elas, o ambiente espacial não é enriquecido o suficiente com o equivalente cósmico de vitaminas e sais minerais para que planetas capazes de gerar vida venham a se formar; mas um excesso delas gera energia suficiente para esterilizar mundos inteiros. A ignição de uma supernova na nossa vizinhança poderia destruir a camada de ozônio da Terra, desencadeando uma reação que acabaria tornando o planeta inabitável.

(Caso você esteja se perguntando, um artigo científico publicado em 2003 indica que o risco de um evento do tipo é de aproximadamente 1 a cada bilhão de anos.)

Trabalho recente sobre o conceito de zona habitável galáctica, aceito para publicação no periódico Astrobiology,  conclui que o efeito fertilizante das supernovas supera, em muito, seu potencial destruidor, e argumenta que cerca de 1,2% de todas as estrelas da Via-Láctea, incluindo algumas relativamente próximas do núcleo, são ou foram capazes de suportar vida em seus sistemas. Isso dá algo como 2,5 bilhões de astros, se estimarmos a população da galáxia em 200 bilhões de estrelas (algumas estimativas chegam a 400 bilhões).

A conclusão de que é plausível que a galáxia comporte bilhões de planetas habitáveis já havia sido enunciada por um grupo de pesquisadores especializados em planetas extrassolares, ainda que a descoberta que levou a essa alegação específica tenha sido questionada depois.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Netuno, 1 ano

Faz um ano que o planeta Netuno foi descoberto. Ou, ao menos, um ano netuniano: é apenas hoje -- 60.150 dias, ou 164 anos e nove meses depois -- que o oitavo planeta do Sistema Solar retorna à mesma posição de sua órbita em que se encontrava em 24 de setembro de 1846, quando foi oficialmente descoberto.

"Oficialmente" porque a existência do planeta já havia sido prevista matematicamente por Urban de Verrier e John Couch Adams, em cálculos realizados em 1845. Houve uma certa disputa entre De Verrier e Adams quanto à autoria orginal dos cálculos, mas a observação que detectou o planeta foi feita com base nas contas do francês.

Netuno foi o primeiro astro descoberto não por meio de observação direta, mas por cálculos feitos com base em seu efeito gravitacional sobre um outro corpo celeste -- no caso, o planeta Urano. Nesse aspecto, De Verrier e Adams são os "cientistas patronos" dos descobridores de planetas extrassolares.

Sendo a natureza humana o que é, depois da descoberta de Netuno a ideia de "influência gravitacional de planetas misteriosos" virou uma espécie explicação genérica para qualquer tipo de fenômeno mal compreendido.

No mesmo ano de 1846, um astrônomo francês anunciara ter descoberto Lilith, "a segunda lua da Terra" (que faz uma aparição rápida no romance Da Terra à Lua, de Jules Verne). Além disso, algumas divergências entre a órbita real do planeta Mercúrio e a trajetória prevista pelas leis de Newton chegaram a ser atribuídas à presença de um planeta ainda mais próximo do Sol, Vulcano. A existência de Vulcano viu-se descartada, por meio de observações astronômicas, por volta de 1880 e as discrepâncias envolvendo Mercúrio acabaram sendo satisfatoriamente explicadas pela Relatividade Geral.

Mas, se a ciência não é imune a ondas e modismos, ela pelo menos tem mecanismos de correção de rumo que, ao longo do tempo, acabam eliminando as propostas espúrias. Pseudociências como a astrologia, no entanto, não têm a mesma sorte. Em plena segunda metade do século XX, quase um século depois de os astrônomos terem desistido da hipótese Vulcano e várias décadas anos após a confirmação da Relatividade Geral, a astróloga best-seller Linda Goodman proclamava com absoluta certeza que "o planeta Vulcano, ainda inobservado, é o verdadeiro regente de Virgem".

 E quanto a Netuno? O planeta é, ao lado de Urano, um dos chamados gigantes gelados, feito basicamente de hidrogênio, hélio e metano, com as camadas mais profundas da atmosfera consistindo de gás congelado. A cor azul do planeta geralmente é atribuída ao metano em sua atmosfera, que absorve a parte vermelha da radiação que incide no planeta.

Tem 17 vezes a massa da Terra; é possível que tenha um núcleo rochoso mais ou menos do tamanho do nosso planeta.

A única sonda terrestre a visitar Netuno foi a Voyager 2, que em 1989 passou a 5.000 km do topo da atmosfera do planeta. A Voyager 2 descobriu cinco luas e quatro anéis.

Netuno tem, ao todo, 13 luas conhecidas: as três maiores são Tritão, Proteu e Nereida. Tritão foi descoberto pelo astrônomo (e fabricante de cerveja) William Lassell em 1846, apenas duas semanas após a descoberta do planeta em si. Nereida foi avistada pela primeira vez em 1949, por Gerard Kuiper. A imagem ao lado é um detalhe da superfície de Tritão, cortesia da Voyager 2.

Proteu, Náiade, Talassa, Despina, Galateia e Larissa tiveram de esperar a Voyager 2 para conseguir chamar a atenção dos astrônomos. Outras cinco luas foram encontradas já neste século.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Vampiros e lobisomens, de verdade

Mitologia é uma coisa engraçada. Mitologia acelerada pela indústria pop, então, nem se fala. O pensamento me ocorreu outro dia enquanto, zapeando a TV por assinatura, assisti aos primeiros minutos de Anjos da Noite, um filme sobre guerra entre vampiros e lobisomens. O que, se você é muito mais novo do que eu, provavelmente remete à saga Crepúsculo. Ou, se você é só um pouco mais novo que eu, remete ao World of Darkness do RPG Vampire e derivados.

(Aliás: meninos, eu vi. A primeira entrevista jornalística em inglês que fiz foi com Mark Hein-Hagen, o criador do Vampire, no Parque do Ibirapuera, imagino que lá se vão uns 20 anos. O texto existe em alguma edição histórica do fanzine Panacea: revire os sebos, se quiser -- não creio que esteja online).

Agora, se você tem a minha idade, vampiros versus lobisomens remete à capa do gibi que ilustra esta postagem; e se você é um maníaco comparável a mim, talvez se lembre dos estertores da saga de horror da Universal, nos anos 40, quando o estúdio começou a misturar todos os seus monstros, em filmes como House of Dracula (e, não, não vou mencionar Abbott e Costelo).

A velocidade com que o mito é reciclado é espantosa: enquanto a ficção científica pulp precisou esperar cerca de três décadas -- entre o fim dos seriados cinematográficos e a estreia de Guerra nas Estrelas -- vampiros e lobisomens são reembalados e regurgitados a cada biênio, mais ou menos.

É interessante, no entanto, investigar os supostos "fatos reais" por trás dos monstros que os adolescentes tanto adoram. E é isso que Joe Nickell faz em seu volume de ensaios Tracking the Man-beasts: Sasquatch, Vampires, Zombies, and More, lançado neste ano.

Nickell, autointitulado "o único investigador de mistérios sobrenaturais em tempo integral do mundo", tem uma longa carreira fazendo exatamente isso -- visitando locais de eventos misteriosos, entrevistando testemunhas, levantando documentos históricos para, depois, produzir ensaios e livros a respeito. Ex-detetive particular, ex-mágico de palco e perito em análise e autenticação de documentos, ele tem um currículo impressionante.

O livro sobre "man-beasts" tem uma ênfase -- negativa, para nós leitores do hemisfério sul -- na questão do Sasquatch, ou Pé-Grande, mas os capítulos sobre vampiros e lobisomens são bem interessantes. Os lobisomens, especialmente, aparecem associados à mania de perseguição a bruxas da Europa nos séculos XVI e XVII. Registros austríacos dão conta de pelo menos quatro "lobisomens" aprisionados em um castelo no século XVIII, todos mendigos que confessaram pactos com o diabo sob tortura.

No capítulo sobre vampiros, Nickell inclui uma curiosa seção sobre "kits de caça aos vampiros" -- valises contendo estacas, objetos de prata, etc. -- que seriam antiguidades legítimas do século XIX. Um deles chegou a ser leiloado pela Sotheby's em 2003.

No entanto, o investigador afirma ter encontrado provas de que o primeiro desses "kits vintage" foi produzido em 1972 por um antiquário que buscava um modo de desovar alguns itens que, embora genuinamente antigos, eram de baixa qualidade e de pequeno valor individual.

Como no caso dos filmes e livros de vampiros e lobisomens que (re)aparecem de tempos em tempos, nada como uma embalagem criativa para reacender o interesse na tralha antiga.