sábado, 25 de junho de 2011

Adeus, tenente Columbo

Eu não ia postar nada neste feriado, mas a morte do ator Peter Falk, que durante décadas interpretou o tenente Columbo da polícia de Los Angeles na televisão -- primeiro no seriado dos anos 70, e depois uma longa série de especiais -- não podia passar em branco aqui no blog.

Sei que o chique é idolatrar seriados como Sienfeld ou Lost ou, entre os nacionalistas, a obra de Janete Clair ou Dias Gomes, mas para mim o ápice da arte de escrever para televisão foi atingido em Columbo. Existem três  temporadas do seriado disponíveis em DVD no Brasil, e esses são, provavelmente, os discos mais repassados no meu fiel aparelho.

(Quando eu estava na faculdade, irritava minha mãe ao insistir em voltar para São Paulo na tarde de domingo -- cedo demais, ela dizia, por que você não passa mais tempo com a família? A resposta era que o sinal da Record era muito ruim em Jundiaí, e eu não queria perder o episódio de Columbo.)

Mas, enfim, de que se trata? Columbo era um seriado policial inovador na medida em que adotava não o formato "whodunit" (quem cometeu o crime), mas sim "howcatchtem" (sabendo quem é o culpado, como pegá-lo?).

Um episódio-padrão de Columbo tinha cerca de 90 minutos: na primeira meia-hora, o telespectador assistia enquanto o crime era cometido: víamos o motivo, a arma, a oportunidade, as providências do criminoso para esconder seu feito. Nos 60 minutos seguintes, víamos o tenente Columbo descobrir, um a um, todos os erros cometidos pelo assassino -- erros que nós mesmos, os Watsons da poltrona, não tínhamos percebido --  e lançar uma série de armadilhas psicológicas que acabavam levando o assassino a confessar ou a produzir a evidência necessária para condená-lo.

Columbo, diga-se de passagem, não andava armado.

O seriado teve vilões clássicos, como o enólogo interpretado por Donald Pleasance, que mata o irmão que decidira vender os vinhedos da família; o cantor gospel assassino interpretado por ninguém menos que Johnny Cash, o maestro frio e calculista vivido por John Cassavetes; e vítimas memoráveis, como o escritor de best-sellers interpretado por Mickey Spillane.

O seriado nasceu de uma peça de teatro escrita pela dupla Richard Levinson e William Link, na qual um psiquiatra cria um plot perfeito para matar a esposa rica -- ou um plot que parece perfeito, até que Columbo entra em cena. A peça foi filmada, já com Peter Falk no papel, anos antes do detetive ganhar seu seriado. O primeiro episódio da série foi dirigido por um jovem de 25 anos, Steven Spielberg.

Após a morte de Levinson, nos anos 80, Link escreveu um livro, The Columbo Collection, com aventuras do detetive.

As contribuições de Peter Falk à construção do personagem também são famosas: o ator, que tinha um olho de vidro, usava o olho ligeriramente fora de centro para fazer o personagem, dando ao detetive um ar apalermado (a estratégia básica de Columbo era fazer-se subestimar pelos suspeitos); além disso, o sobretudo amarrotado, marca registrada de Columbo, foi outra ideia do ator.

Se bem me recordo, Paulo Francis certa vez escreveu que Columbo era um torturador, pior que os assassinos que prendia -- já que a técnica psicológica do personagem, de induzir o culpado a confessar, muitas vezes envolvia boas doses de crueldade mental: Columbo ou dava a entender ao culpado, por meio de elipses e circunlóquios, que sabia quem ele era e o que tinha feito, causando não pouca angústia, ou se fazia de tolo, gerando um falso senso de segurança que precedia a queda.

E agora, Peter Falk se foi. Ele interpretara Columbo pela última vez em 2003 -- tinha vestido a pele do tenente pela primeira vez em 1968. Por pouco não completou 40 anos como o mais sagaz dos detetives da televisão.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

WTF é Corpus Christi?



Esta quinta-feira é feriado de Corpus Christi (ou "Porcos Tristes", para quem acompanha o futebol paulista), mas aposto que poucas pessoas sabem exatamente do que esse negócio se trata. Não é preciso ser um gênio para sacar que o nome em latim, Corpus Christi, significa "corpo de Cristo", mas e daí?

Bom, se você teve sua infância marcada pela experiência -- provavelmente não traumática, mas certamente tediosa -- de passar pela suíte católica catecismo-primeira comunhão, há-de lembrar-se de que "corpo de Cristo" é o que o padre (ou diácono, ou ministro) diz antes de oferecer a hóstia.

Então: "Corpus Christi" é uma festa católica criada para celebrar a instituição do sacramento da eucaristia -- o consumo do corpo e do sangue de Cristo sob a forma de pão e vinho -- . pelo próprio Jesus, durante a Última Ceia.

(A historicidade dos eventos relativos à Última Ceia é questionável, para dizer o mínimo. A primeira menção à instituição da eucaristia aparece numa carta de Paulo, escrita de 20 a 30 anos após a morte de Jesus; e a formulação usada por Paulo, que termina com o famoso "fazei isto em memória de mim", só reaparece uma vez nos evangelhos, em Lucas.)

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Segundo a Catholic Encyclopedia, devemos a existência de uma festa do "corpo de Cristo" separada da Semana Santa (que, afinal, inclui o período da Última Ceia) a uma freira belga do período medieval, Juliana de Liège, que depois de uma série de sonhos e visões dedicou-se a importunar diversas figuras importantes da Igreja a que tinha acesso, incluindo, por fim, um tal de Jacques Pantaléon, que vira a ser o papa Urbano IV. Pantaléon acabou instituindo a festa em 1264.

O papa Urbano IV também tentou lançar uma cruzada para restaurar o poder de Roma em Constantinopla, em 1261, mas não conseguiu.

A ligação de Corpus Christi com a Semana Santa não se perdeu de vez, no entanto: a festa do "corpo de Cristo" é móvel, e depende crucialmente da data do domingo de Páscoa. Corpus Christi cai na quinta-feira seguinte ao domingo da Trindade, que por sua vez é o domingo seguinte ao Pentecostes, que por sua vez é o décimo domingo depois da Páscoa. Entendeu?

Ah, sim: falando em eucaristia, eu não poderia deixar de mencionar o dogma católico da transubstanciação, segundo o qual a hóstia é o corpo de Cristo -- não um símbolo, um substituto, uma representação, mas um fragmento real da carne de um homem morto há 2.000 anos. Isso, claro, a despeito do fato de que não existe nenhum teste no Universo capaz de distinguir uma hóstia de um biscoito.

A explicação apologética é de que, embora a hóstia preserve a aparência de um biscoito, ela se transforma, em essência, em carne humana. Isso é mais ou menos como dizer que esta postagem parece tratar do feriado de Corpus Christi e estar escrita em português, mas que, na verdade, você está lendo um texto sobre mecânica quântica redigido em sânscrito. Ou que uma bicicleta velha é, no fundo, um BMW novo com ar-condicionado.

O que me traz à questão: teólogos compram carros usados?

terça-feira, 21 de junho de 2011

Pareto, Sturgeon, Campbell e a produção acadêmica

A ideia de que "metade da produção científica nacional é lixo", articulada por um pesquisador entrevistado em reportagem do Estadão que constata que o crescimento da academia brasileira em indicadores quantitativos -- número de mestres, de doutores, publicações -- não representou ganho comensurável de qualidade me trouxe à mente três "leis" mais ou menos empíricas: A Revelação de Sturgeon, o Princípio de Pareto e a Lei de Campbell.

(Confesso que tenho uma queda para máximas com nomes. É um vício principalmente estético-literário, suponho.)

Começando pela Revelação (às vezes chamada "Lei") de Sturgeon: a máxima, segundo diz a lenda, foi elaborada na década de 50 pelo escritor de ficção científica Theodore Sturgeon, cansado de ter de defender o gênero em que escrevia das acusações de ser um campo da literatura dominado por textos fracos, irrelevantes, cheios de clichês. Diz a Revelação: "90% de qualquer coisa é merda".

"Qualquer coisa", no caso, é "qualquer coisa" mesmo: sim, 90% de toda a ficção científica é merda, mas até aí, 90% dos livros com pretensões literárias, 90% da poesia, 90% dos seriados de TV, 90% dos blogs, 90% das reportagens, 90% dos namorados...

 Enfim, dada uma categoria à qual algum tipo de classificação por qualidade seja aplicável, 90% dela será, por definição, inferior aos melhores 10%; logo, será composta de algo que um crítico exigente não hesitará em chamar de "merda".

Útil como é para pôr as coisas em perspectiva, a Revelação embute o problema de como comparar as diferentes "merdas". Por exemplo, 90% da produção científica da USP é merda, assim como 90% da produção de Stanford; mas, como diz a mesma reportagem do Estadão que motivou esta postagem, os artigos originados de Stanford são muito mais citados que os originados na USP. Isso quer dizer que a merda de lá é menos pior que a daqui?

A segunda lei que mencionei é o Princípio de Pareto. Segundo a Wikipedia, ele foi generalizado a partir de uma observação feita pelo economista italiano Vilfredo Pareto em 1906, de que 80% das terras da Itália pertenciam a 20% da população. O princípio afirma que, em geral "80% das consequências vêm de 20% das causas". Assim: 80% das vendas seriam feitas por 20% dos vendedores, ou 80% da renda seria gerada por 20% dos consumidores, ou 80% do feijão viria de 20% das plantações, etc, etc.

O Princípio de Pareto é muitas vezes disputado por razões políticas -- críticos dizem que ele é invocado para justificar injustiças na concentração de renda. Mantendo essa crítica em mente, mas levando a ideia para o reino da ciência, poderíamos dizer que, se o princípio for real e não apenas um construto ideológico, é de se esperar que 80% dos trabalhos relevantes venham de apenas 20% dos pesquisadores.

Assim, o único meio de aumentar o número absoluto de trabalhos relevantes seria aumentar o número bruto de cientistas, mesmo sabendo que 80% deles só farão uma ou duas contribuições dignas de nota em suas carreiras.

Por fim, chegamos à Lei de Campbell. Proposta na década de 70, ela tem uma formulação mais complexa que os ditos anteriores: "quanto mais um indicador social for usado na tomada de decisões sociais, mais ele se verá sujeito a corrupção, e mais será capaz de distorcer e corromper os processos que deveria monitorar".

A sentença é longa, mas um exemplo pode bastar: os concursos vestibulares. Criados para monitorar o nível de preparação dos estudantes que desejam ingressar no ensino superior, eles acabaram distorcendo e corrompendo o próprio processo preparatório, transformando o ensino médio numa central paranoica de adestramento e gerando toda a indústria de técnicas mnemônicas que faz a fama dos cursinhos.

Essa lei constata, enfim, que sempre que um índice é canonizado como fonte de informação sobre a realidade social, os responsáveis por essa realidade se veem tentados a adotar políticas casuísticas que afetam o índice, e não a realidade em si. As políticas recentes de "universalização" do ensino superior e de estímulo à pós-graduação são, a meu ver, exemplos claros do efeito.

Mergulhando de vez na subjetividade, eu especularia que a cultura brasileira -- com seu ranço burocrático-bacharelesco, de ênfase excessiva no ritual e na forma em detrimento da substância -- é um campo fertilíssimo para a prática da Lei de Campbell. E que, se as três "leis" citadas aqui têm algum poder explicativo para dar conta da baixa qualidade da produção científica nacional, esse poder reside, principalmente, nesta última.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Pornografia gay excita homens homófobos

Tremo em imaginar o que as palavras-chave no título desta postagem farão com a audiência deste blog, mas não dava para deixar de mencionar: um estudo publicado em 1996 pelo Journal of Abnormal Pyschology mostrou que homens homófobos sentem excitação sexual ao assistir a vídeos de pornografia gay.

Abaixo, traduzo o trecho principal do "abstract" (negrito por minha conta):

Os autores investigaram o papel da excitação homossexual em homens exclusivamente heterossexuais que admitiram sentimentos negativos em relação a indivíduos homossexuais. Participantes consistiram em um grupo de homens homófobos (n=35) e homens não-homófobos (n=29).
(...)
Os homens foram expostos a estímulos eróticos explícitos consistindo de vídeos heterossexuais, homossexuais femininos e homossexuais masculinos, e mudanças na circunferência do pênis foram monitoradas.
(...) 
Ambos os grupos exibiram aumento na circunferência peniana durante os vídeos heterossexuais e homossexuais femininos. Apenas os homens homofóbicos mostraram um aumento na ereção peniana em resposta ao estímulo homossexual masculino

A conclusão dos autores, previsivelmente, é de que "a homofobia está aparentemente associada a uma excitação homossexual que o indivíduo nega ou desconhece".

No gráfico abaixo, as linhas limpas representam a excitação dos homens homofóbicos; as linhas com quadrados, a dos homens não-homofóbicos.

Os quadros são, de cima para baixo, a reação ao vídeo heterossexual; ao vídeo lésbico; ao vídeo gay masculino:



Agora, se este fosse um blog menos elegante, eu faria algumas insinuações cruéis envolvendo o nível de estridência de setores do clero, mas não sendo este o caso, chamo atenção para, primeiro, o fato de que o número de pessoas envolvidas no estudo ser pequeno; seria interessante saber se houve replicação do resultado por outros grupos.

Segundo, para o fato de que esse resultado revela uma possível instância em que Freud estava certo, por incrível que pareça (bem, imagino que ninguém que tenha falado e escrito tanto quanto ele pudesse estar errado o tempo todo).

E, terceiro, para a poderosa interação entre cultura e psicologia sugerida no estudo, que dá margem a verdadeiro enigma de Tostines: os homófobos se sentem atraídos pelo que consideram errado, ou consideram errado aquilo pelo que se sentem atraídos?

domingo, 19 de junho de 2011

A falácia do ajuste fino

Finalmente dei conta de terminar The Fallacy of Fine Tuning, do físico Victor Stenger, livro que, com o perdão do pleonasmo, "encara de frente" os argumentos de que as constantes e leis da Física parecem ter sido "escolhidas a dedo" para permitir a existência de vida inteligente baseada em carbono -- ou seja, nós.

Stenger é o representante das ciências exatas no time dos "novos ateus", o grupo de personalidades públicas do mundo de língua inglesa que resolveu deixar a clássica timidez do ateísmo filosófico de lado e partir para o ataque contra as religiões. Seu livro God: The Failed Hypothesis, que trata a questão da existência do tradicional Deus judaico-cristão-islâmico como uma hipótese científica (e termina por rejeitá-la) chegou à lista de best-sellers do New York Times.

Curiosamente, do grupo dos "novos ateus"  -- Dawkins, Hitchens, Dennett, Harris --, Stenger é o único que continua inédito no Brasil (ao menos, uma busca por seu nome na Livraria Cultura só traz títulos importados). Isso é, até certo ponto, fácil de entender: ele muitas vezes ilustra seus argumentos com equações que podem assustar quem não tem um bacharelado em física ou engenharia.

Mesmo assim, sua linguagem é clara e direta, e ele é capaz de articular ideias com grande precisão (como pode ser visto neste artigo).

Em The Fallacy of Fine Tunning, Stenger faz -- para minha surpresa, confesso -- picadinho da chamada "ressonância de Hoyle", a noção de que o a´tomo de carbono precisa ter um nível de energia extremamente preciso para que o elemento, do qual os seres vivos da Terra são feitos, exista na abundância necessária para sustentar vida.

De fato, diz ele, o nível de energia do núcleo do átomo de carbono descoberto por Fred Hoyle poderia variar em até 15% e, ainda assim, produzir carbono suficiente para permitir que você exista e leia esta postagem.

Em linhas gerais, o livro de Stenger elabora dois argumentos que eu já havia encontrado na obra do matemático Ian Stweart e do biólogo Jack Cohen. O primeiro é o de que as características do Universo só aparentam "ajuste fino" quando analisadas uma de cada vez. Por exemplo, se a intensidade da atração gravitacional entre próton e elétron fosse muito maior, átomos seriam inviáveis. Certo, mas e se essa atração fosse maior e a massa do próton, menor?

Desse modo, nosso Universo capaz de gerar seres humanos não representa um ponto infinitesimal no espaço de todos os Universos concebíveis, mas sim é apenas um ponto dentro de um grande volume de Universos amigáveis à vida como a conhecemos. Para gerar esse volume, basta permitir que diversas constantes físicas variem juntas, em vez de cravar todas e fazer com que apenas uma mude.

O segundo argumento é o de que nós sabemos muito pouco sobre quais as condições necessárias para a vida em geral. Mesmo um Universo onde vida humana seja impossível não é, necessariamente, um Universo sem vida. A afirmação de que vida só é concebível dentro do volume do espaço de todos os Universos possíveis onde as condições são adequadas para que exista química orgânica como a entendemos é arrogante.