sexta-feira, 17 de junho de 2011

Tarados por um segredo

Pessoalmente acho que já há blogs demais tratando de política no Brasil, mas como a questão das liberdades de informação e expressão me interessa profundamente, decidi abrir uma exceção temática por aqui e fazer uma postagem a respeito da paixão, quase que soviética, pelo segredo de Estado que parece ter se apossado do governo brasileiro.

Primeiro, a questão do "sigilo eterno" dos documentos ultrassecretos. Se entendi direito, a preocupação seria com a reação de países vizinhos ao comportamento do Brasil em situações como a anexação do Acre e a Guerra do Paraguai.

Não sei exatamente o que dizer desse argumento -- se devo encará-lo como dissimulação canhestra (isto é, o que se pretende esconder é na verdade outra coisa) ou se como um indicador real do tipo de visão de mundo que nossos líderes têm. Difícil saber qual a situação mais assustadora.

Digo, quando eu estava no ensino médio a Dona Berenice, nossa professora de História do Brasil, já ensinava que a tomada do Acre da Bolívia tinha sido uma tremenda sacanagem, e que o Conde d'Eu, marido da Princesa Isabel, cometera atrocidades inomináveis no Paraguai. Dona Berenice estava revelando segredos de Estado para uma cambada de moleques pré-vestibulandos? Uau.

Para ver como países civilizados lidam com os esqueletos que mantêm no armário, em novembro do ano passado o presidente dos EUA, Barack Obama, desculpou-se publicamente por experimentos médicos antiéticos realizados com patrocínio americano na Guatemala, nos anos 40.

Aliás, a Lei de Liberdade da Informação dos EUA é algo que os congressistas brasileiros poderiam estudar. Qualquer cidadão americano pode requisitar documentos oficiais. Caso se recuse a liberá-los, o órgão responsável precisa apresentar uma justificativa, que pode ser contestada no Judiciário (aqui você encontra uma lista de contestações ao FOIA que chegaram à Suprema Corte, que lá lida com coisas mais importantes do que o tamanho da pena de um assassino confesso).

Para reduzir os custos com cópias e divulgações seguidas do mesmo material, vários órgãos, incluindo o FBI, criaram páginas na internet onde todo o material liberado via FOIA está disponível para quem quiser.

Imagino que a cúpula do governo Dilma deve recuar em horror diante da ideia, como um vampiro confrontado com a luz do Sol.

A questão do direito do contribuinte indefesso a acessar informação oficial me traz à segunda paixonite governamental pelo segredo: a tentativa de tornar secretas as estimativas de custo das obras da Copa.

Neste caso, a desculpa dada -- que tornar públicos os orçamentos facilita a formação de cartel por empreiteiras -- além de ser francamente estúpida (se as empresas realmente precisarem ter acesso ao orçamento para cartelizar o processo, o que as impede de, por exemplo, corromper um funcionário com acesso aos números?) reflete um comportamento típico do Estado brasileiro: sempre que confrontada com a própria incompetência, a primeira reação da autoridade é violar os direitos do cidadão.

Este é, diga-se, um cacoete multipartidário: que ninguém se esqueça de que a primeira reação do governo tucano de São Paulo, quando o alto grau de articulação do PCC explodiu na cara das autoridades desapercebidas, em 2002, foi tentar proibir os telefones celulares pré-pagos.

Agora, confessando-se incapaz de impor as leis de defesa da concorrência, o governo federal tenta suprimir o direito do cidadão à informação. A justificativa é de que a Constituição permite manter informações públicas em sigilo em determinados casos. A Constituição também permite a aplicação da pena de morte em certos casos, mas e daí?

No fim, o diagnóstico de Millôr Fernandes ainda me parece o mais preciso: o Brasil é uma tentativa de se construir uma democracia desprovida de democratas.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Utopia na porrada

Como você convence as pessoas a cooperar com estranhos?

Esta é uma pergunta fácil de formular, mas bem difícil de responder. O sucesso da espécie humana é resultado direto da capacidade do Homo sapiens de confiar em, fazer sacrifícios por e cooperar com pessoas que não fazem parte de sua família. 

Não se trata, é claro, de uma capacidade ampla e ilimitada -- como a epidemia de nepotismo e patrimonialismo que assola o Brasil, desde sempre, mostra -- mas o fato é que ela existe. E é, no fim, o que nos distingue das formigas.

Uma explicação comum para o que permite a extensão da solidariedade humana para além dos indivíduos geneticamente ligados a cada um de nós apela para dois fatores: a evolução do cérebro e a centralização do poder.

A parte sobre evolução do cérebro propõe que, quando a evolução desenvolveu, em nossa espécie, a capacidade de simpatizar com nossos pais, filhos e irmãos, ela não fez um trabalho muito bom na hora de definir limites estritos para essa simpatia.

Assim, da mesma forma que a capacidade de raciocinar com lógica pode ter evoluído em resposta aos desafios do ambiente -- o poder de postular números complexos sendo uma espécie de bônus inesperado -- o potencial para solidariedade seria um "transbordamento" do sentimento surgido na família.

Já a centralização do poder teria sido um passo necessário para impor laços comunitários onde a simples solidariedade não seria forte o suficiente, onde era preciso exigir do indivíduo sacrifícios que ele não faria sem coerção: na hora de construir muralhas e pirâmides, pagar impostos e ir à guerra, por exemplo. 

Essa ideia de que não existe cooperação em larga escala sem coerção é um tanto quanto incômoda, tanto do ponto de vista psicológico quanto político. 

Ela parece implicar algo de desagradável a respeito da natureza humana -- que só somos capazes de grandes empreendimentos quando ameaçados -- e sobre nossas aspirações à autonomia e à liberdade individuais, já que pressupõe que a existência de um Estado com poder de coagir e punir é e sempre será necessária, caso queiramos continuar fora das cavernas.

Foi com grande surpresa, portanto, que vi o resumo de um artigo publicado recentemente na PNAS, dando conta do estudo antropológico de uma comunidade asiática sem Estado e sem centralização de autoridade, mas onde as pessoas são capazes de feitos de cooperação em larga escala, envolvendo centenas de indivíduos, muitos dos quais não se conhecem.

Seria a utopia anarquista na Terra?

Comecei a -- na frase de Cândido de Carvalho-- pôr um fecho éclair nas minhas esperanças logo que vi o título do "paper": Punishment sustains large-scale cooperation in prestate warfare.

Os "feitos de cooperação em larga escala" são saques e invasões: o povo estudado, os turkana, são um grupo nômade pastoril, que de tempos em tempos promove ataques a comunidades vizinhas, de identidade étnica diversa, para roubar gado.
O fato, antrropologicamente interessante, é que os turkana montam seus batalhões de saqueadores sem que seja preciso que um conde, duque, rei, cacique ou xamã emita uma ordem, sem serviço militar obrigatório e sem contratar mercenários.

 As tropas surgem quando um turkana vê uma oportunidade e avisa os vizinhos, que avisam outros vizinhos, e assim por diante. Se surge um consenso de que a ideia é boa, lá vão eles.

Os autores do "paper" chamam atenção para um dado especial: atos de covardia e deserção são punidos. Como? Fofoca e linchamento. 

Se um homem comprometido com a batalha se comporta de forma desonrosa, os guerreiros que testemunham o ato o denunciam e, se ele não conseguir achar uma boa desculpa e um consenso social se formar contra ele, o sujeito pode acabar amarrado a um tronco e se ver impiedosamente espancado. Não até a morte, mas mesmo assim...

A ideia de que um estilo de vida "utópico" -- rural, livre, sem governo -- se baseia em guerra, fofoca e tortura pode ser meio chocante para algumas pessoas, mas a mim me parece meramente irônica. O homem pode ser o mais solidário dos animais, mas o que existe além dos limites impostos pela natureza a essa solidariedade não é lá muito bonito -- seja o imposto de renda ou o tronco dos turkanas.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O eclipse e a forma da Terra

Hoje ao entardecer tem eclipse da Lua: a sombra da Terra vai passar pela face de nosso satélite natural, obscurecendo-a (mas não apagando-a de todo: um pouco de luz refratada pela atmosfera terrestre ainda vai chegar à Lua, que deve assumir uma coloração de tom vermelho-escuro).

Eclipses lunares são menos interessantes, do ponto de vista astronômico, que os solares, mas o eclipse da Lua tem um importante valor histórico: a forma arredondada da sombra da Terra, projetada sobre a Lua, era uma das provas de que o planeta devia ter formato esférico, citadas pelos antigos gregos.

Faz sentido: se a Terra  fosse chata, como um disco, a sombra só seria redonda em ocasiões especiais -- na maior parte das vezes, ela deveria aparecer meio alongada, como uma elipse.

Essa observação não só revela o prodigioso poder dos gregos para raciocínio dedutivo (determinar a forma da Terra a partir da sombra na Lua é um feito sherlockiano), como aparece numa frase geralmente atribuída ao navegador Fernão de Magalhães, "A Igreja diz que a Terra é chata, mas eu sei que ela é redonda. Pois vi a sombra da Terra na Lua, e tenho mais fé numa sombra do que na Igreja".


Agora, por mais que eu aprecie o sentimento -- de que evidência empírica e raciocínio claro devem sempre subjugar pronunciamentos de autoridade -- é preciso reconhecer que Magalhães provavelmente nunca disse nada do tipo. A frase aparentemente foi inventada pelo ateu americano Robert Ingersoll, um polemista e ensaísta que fazia meio que o papel de Richard Dawkins no século XIX.

A questão sobre qual era, afinal, a visão "oficial" da Igreja sobre a forma da Terra entre o fim da Idade Média e o início da Era das Navegações já rendeu um livrinho muito interessante, Céu e Terra na Idade Média, do medievalista alemão Rudolf Simek. Ele diz que a conclusão grega sobre a esfericidade do planeta provavelmente já era parte da educação do clero desde o século VIII, e que no século XIII a ideia já havia chegado a toda a população letrada (pequena como era).

Em seu livro Uma História da Guerra entre Ciência e Teologia na Cristandade, Andrew White -- ele também um proeminente crítico oitocentista da religião -- menciona pronunciamentos de teólogos do início do período medieval que se opunham à ideia de um planeta esférico. Esses defensores da Terra chata baseavam-se na descrição da criação no Gênese e na citação aos "cantos da Terra" que aparece nos Evangelhos de Marcos e Mateus.



Simek, no entanto, afirma que os autores mencionados por White eram largamente ignorados pelo mainstream do pensamento cristão europeu -- um deles, Cosmas de Alexandria, do século VI, só foi traduzido do grego para o latim no século XVII.

Então, de onde vem o mito de que os grandes navegadores -- Colombo, Magalhães -- sofreram oposição do establishment católico, que dizia que a Terra era chata, quando o establishment, embora famoso por dizer asneiras, nunca tenha dito exatamente essa? É que a questão da forma da Terra acabou confundida com a das Antípodas.

Antípoda, diz o dicionário, é um lugar diametralmente oposto a outro (sempre ouvi dizer que a antípoda do Brasil é  China, mas o fato é que um buraco cavado direto para baixo, a partir do Distrito Federal vai dar no mar das Filipinas; a antípoda de Pequim fica na Argentina, de acordo com este mapa). 

Em termos teológicos, a palavra se refere a uma candente questão medieval: a saber, se é possível haver seres humanos do outro lado do mundo, "onde o Sol nasce quando se põe para nós", nas palavras de Santo Agostinho. A opinião do Doutor da Igreja é: não.
Você pode acompanhar o argumento inteiro aqui, em inglês, mas a linha geral era a de que as todas as populações sobre o mundo são descendentes das setenta e duas nações nascidas a partir dos três filhos de Noé; alguma dessas nações viajou para o outro lado da Terra? Não. Caso encerrado.

Agostinho admitia a possibilidade de a Terra ser esférica, mas achava que, de acordo com as Escrituras, seria mais correto imaginar que do outro lado do mundo (no caso do teólogo, que escrevia na Argélia, isso significa o Togo e a Nova Zelândia) só houvesse um oceano desabitado.

E a opinião de Agostinho era levada a sério. O papa Zacarias I (741-152) chegou a declarar que a ideia da existência de homens outro lado do mundo era herética, porque "perversa e contrária à palavra de Deus". Ponto para a infalibilidade papal. 

(Sei que a infalibilidade só se aplica a pronunciamentos ex-cathedra sobre moral ou doutrina, mas declarar que algo é herético certamente é uma afirmação doutrinária, certo? Bem, então talvez não tenha sido ex-cathedra...)

Trezentos anos depois do papa Zacarias, teólogos questionavam como era possível que houvesse ainda povos desconhecidos e sem acesso ao Evangelho, se Jesus havia morrido por toda a humanidade. E assim por diante.

Confesso que não sei como a questão foi resolvida na doutrina, depois que ficou claro que tanto a América do Sul quanto a Austrália e a Polinésia tinham habitantes nativos. Suponho que tenha simplesmente sido varrida para debaixo do tapete, enquanto alguém assoviava para distrair os passantes. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

Vamos estudar a Bíblia? (2)

Em uma postagem anterior minha sobre o estudo não-religioso da Bíblia (uma das mais populares do blog, aliás; sinal de que há uma demanda reprimida por esse tipo de coisa) um comentarista chamou atenção para a duplicação do milagre da multiplicação dos alimentos no Evangelho de Marcos.

O primeiro trecho abaixo vem do capítulo 6:

38. Jesus perguntou: “Quantos pães tendes? Ide ver”. Eles foram ver e disseram: “Cinco pães e dois peixes”. 39. Então, Jesus mandou que todos se sentassem, na relva verde, em grupos para a refeição. 40. Todos se sentaram, em grupos de cem e de cinqüenta. 41. Em seguida, Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando-os aos discípulos, para que os distribuíssem. Dividiu, também, entre todos, os dois peixes. 42. Todos comeram e ficaram saciados, 43. e ainda encheram doze cestos de pedaços dos pães e dos peixes. 44. Os que comeram dos pães foram cinco mil homens.


Já este aqui vem do capítulo 8:

5. Ele perguntou-lhes: “Quantos pães tendes?” Eles responderam: “Sete”. 6. Jesus mandou que a multidão se sentasse no chão. Depois, pegou os sete pães, deu graças, partiu-os e deu aos discípulos para que os distribuíssem. E distribuíram à multidão. 7. Tinham também alguns peixinhos. Jesus os abençoou e mandou distribuí-los. 8. Comeram e ficaram saciados, e ainda recolheram sete cestos com os pedaços que sobraram. 9. Eram umas quatro mil. Então ele os despediu.

Se fosse nos tempos atuais, alguém diria que o dedo do redator esbarrou no CTRL+C / CTRL+V. 

O mais interessante, no entanto, é que este não é um caso isolado em Marcos. Na verdade, a repetição da multiplicação de pães e peixes é apenas o fecho da repetição de uma sequência completa de cinco milagres semelhantes. 

As duas sequências começam com milagres na água, o primeiro no capítulo 4, quando Jesus acalma a tempestade no mar:

37. Veio, então, uma ventania tão forte que as ondas se jogavam dentro do barco; e este se enchia de água. 38. Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram-lhe: “Mestre, não te importa que estejamos perecendo?” 39. Ele se levantou e repreendeu o vento e o mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento parou, e fez-se uma grande calmaria. 40. Jesus disse-lhes então: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” 41. Eles sentiram grande temor e comentavam uns com os outros: “Quem é este, a quem obedecem até o vento e o mar?” 

Que encontra um paralelo no capítulo 6, que repete até mesmo a temática da falta de fé dos discípulos:

47. Já era noite, o barco estava no meio do mar e Jesus, sozinho, em terra. 48. Vendo-os com dificuldade no remar, porque o vento era contrário, nas últimas horas da noite, foi até eles, andando sobre as águas; e queria passar adiante. 49. Quando os discípulos o viram andar sobre o mar, acharam que fosse um fantasma e começaram a gritar. 50. Todos o tinham visto e ficaram apavorados. Mas ele logo falou: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” 51. Ele subiu no barco, juntando-se a eles, e o vento cessou. Mas os discípulos ficaram ainda mais espantados.

A cada milagre aquático segue-se uma série de três curas. A primeira é composta por um exorcismo (5:1), uma hemorragia (5:25) e uma ressurreição; a segunda, pela cura de um cego (8:22), outro exorcismo (7:24) e o surdo-mudo (7:32). E ambas se encerram, como já foi dito, com uma multiplicação de pães e peixes.

É possível, especulam os estudiosos, que quando o autor de Marcos se sentou para escrever seu texto, mais de uma geração após a morte de Jesus, as duas sequências, provavelmente derivadas de uma narrativa original comum, já tivessem acumulado tantas pequenas divergências  -- como a natureza exata das curas, por exemplo -- que o redator tenha considerado mais prudente mantê-las ambas, como se fossem, de fato, séries de episódios independentes.

Das duas sequências, a multiplicação dos alimentos para satisfazer 5.000 pessoas e o caminhar sobre a água reaparecem em João, enquanto que a cura do cego e a ressurreição têm paralelos joaninos.

Neste momento, alguém poderia imaginar que a tradição oral por trás da cadeia de milagres tem uma base histórica -- uma cadeia real de milagres, talvez? Os estudiosos mais atentos encontram uma base, sim, só que mitológica: feitos míticos atribuídos a Moisés e aos profetas Elias e Eliseu.

O par de profetas aparece no Velho Testamento curando cegos e ressuscitando mortos de um modo que lembra muito as técnicas usadas por Jesus: com a aplicação água, saliva e lama aos doentes. Já o heroi do Êxodo obviamente tinha poder sobre as águas do mar (que se abriram para ele) e era capaz de alimentar multidões (com maná dos céus e aves).

O núcleo original de cinco milagres parece ser mais, então, um dispositivo retórico para insinuar no personagem Jesus uma estatura comparável à das grandes figuras do Velho Testamento do que uma compilação de fatos.

E quanto ao que o homem Jesus realmente fez, ou disse? Aqui, tenho de citar o teólogo Robert M. Price, autor de Deconstructing Jesus: "O Jesus histórico se perdeu por trás da cortina de vitrais do dogma cristão".

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Usando o cérebro para prever sucesso

Estúdios de cinema fazem exibições para plateias de teste; escritores, cada vez mais, apelam para "beta readers", amigos que leem as obras e dão opiniões -- espera-se -- sinceras, antes que os textos cheguem às mãos de um editor; editoras de livros têm uma reserva de "leitores profissionais" que tentam determinar as qualidades dos livros em perspectiva; editores de jornais, revistas e de websites apresentam suas propostas de reforma editorial a grupos de foco.

Todos esses métodos têm como objetivo reduzir o risco envolvido no lançamento de uma obra, criando um modelo que permita prever a reação do mercado (e, eventualmente, matar um projeto destinado ao fracasso antes que ele vire um buraco negro de recursos).

As falhas desse sistema são notórias: abundam casos de obras rejeitadas seguidas vezes que acabaram virando sucesso, bem como trabalhos aprovados com honra e distinção pelos grupos de teste e que acabaram fazendo tanto sucesso quanto um steak tartare numa colônia de vegetarianos.

Mesmo assim, o pessoal que decide como e onde fazer investimentos acha que isso é melhor que nada. E, dada a obsessão humana em conquistar pelo menos um mínimo de ilusão de controle sobre o imponderável, montar um grupo de foco ainda é melhor do que degolar um bode para Mercúrio, o deus do sucesso comercial.

Acho (se bem que gostaria de saber se alguém já fez um teste duplo-cego a respeito).

Imagino, portanto, que executivos de marketing de todas as cores e credos começarão, em breve, a salivar sobre um resultado publicado por pesquisadores da Universidade Emory no Journal of Consumer Psychology: aparentemente, uma ressonância magnética funcional do cérebro de adolescentes permite, com razoável precisão, prever quais músicas pop farão sucesso -- e, com precisão maior ainda, quais serão fracassos retumbantes.

O estudo é derivado de um trabalho anterior, sobre pressão de grupo, no qual jovens de 12 a 17 anos foram expostos a uma série de canções então desconhecidas e não lançadas comercialmente, enquanto seus cérebros eram analisados.

Alguns anos depois, uma dessas canções despontou no show de calouros -- desculpe, reality show -- American Idol, o que levou os pesquisadores a revisar seus dados e buscar uma correlação entre as leituras cerebrais e o sucesso (ou fracasso) comercial posterior das canções usadas.

Essa é uma metodologia meio perigosa -- é muito fácil achar algo nos dados, quando se sabe o que procurar -- mas, ressalvas à parte, os autores afirma ter descoberto uma correlação entre a atividade no centro de recompensa do cérebro dos jovens e o sucesso das canções.

Mais exatamente: uma alta atividade nessa área do cérebro dos ouvintes permitiu prever (ou "pós-ver", no caso) 30% das canções que viriam a vender mais de 20.000 cópias. Já uma baixa atividade marcou 90% das canções com vendas abaixo das 20.000 unidades.

O escritor de ficção científica em mim fica imaginando a adoção generalizada do procedimento pelo pessoal do marketing. Na definição de discursos políticos, por exemplo: pondo eleitores na máquina e vendo como seus cérebros se acendem quando são mencionadas expressões como "privatização" ou "casamento gay".

Quem viver, verá.