sexta-feira, 3 de junho de 2011

Minhas objeções ao politicamente correto

No ano passado, o blogueiro de ciência Roberto Takata publicou uma longa e bem-pensada postagem em defesa da preocupação com o politicamente correto; outro dia, o médico e escritor de ficção científica Flávio Medeiros fez uma longa postagem em tom de desabafo no sentido oposto. O texto de Medeiros não é uma resposta direta ao de Takata, mas a justaposição de ambos me levou a, finalmente, pôr no papel (ou no servidor) meus pensamentos a respeito.

Acho que um bom jeito de começar é tirando um bode da sala -- no caso, o fato de, no Brasil, a expressão "politicamente incorreto" ter virado um eufemismo (politicamente correto?) para grosso, malcriado, escroto. Nesses casos, a solução é milenar: em companhia civilizada, quem comete grosseria perde credibilidade e, se insistir, é gentilmente convidado a se retirar. Criança malcriada vai pra cama mais cedo, sem videogame, televisão  e com mesada cortada. Adulto malcriado deve ser ignorado, desprezado ou, em casos extremos, entregue à polícia. Cantada escrota rende tapa na cara. Simples assim.

(Em tempo: a ideia de que bons modos, consideração e simples cortesia devem ser estendidos a todos, e não apenas a uma determinada classe, grupo étnico, etc, não é uma bandeira "politicamente correta", mas mero bom-senso republicano.)

Enfim, uma vez que deixemos de equalizar "ser politicamente correto" com "honrar a educação que mamãe me deu", o que resta? E isso que resta, presta?

Acho que o leitor já deduziu, a partir do título desta postagem, é que em minha opinião há, sim, resíduos, e que, não, esse resíduos não prestam lá muito. Os resíduos que vejo seriam:

1. Determinismo etimológico: "denegrir" e "judiar" viram palavras malditas porque têm conotação negativa e, oh, céus, contêm alusões a "negro" e "judeu" em sua morfologia. Tá. E quantos usuários atuais da língua sabem disso? E, dos que sabem, quantos consideram essa ligação algo além de uma mera curiosidade histórica? O determinismo etimológico faz tábula rasa da história da língua, e atribui aos usos de hoje as (presumidas) intenções de ontem.

2. Descontextualização paranoica: expressões como "a coisa está preta" ou "nuvens negras no horizonte" são transmutadas em ditos racistas. Como assim? Certa vez, discutindo o assunto com um colega de redação, perguntei: "Por esse raciocínio, a criança que chora de medo do escuro quando os pais apagam a luz do quarto é racista". E ele concordou...

3. Raciocínio mágico: no fim e ao cabo, o politicamente correto acaba sendo uma espécie de nova superstição, como a das vovós que dizem "aquela doença" em vez de "câncer", ou o pessoal que bate na madeira antes de falar em coisas desagradáveis. Trata-se de uma fé no poder dos nomes que lembra o credo dos antigos demonologistas, para quem conhecer o verdadeiro nome de um demônio significava controlá-lo. Isso me parece  mais uma power-trip de acadêmicos de humanidades, principalmente do pessoal da linguística e da crítica literária, do que qualquer outra coisa ( "Os Físicos fazem lá as bombas atômicas deles, mas nós vamos transformar a sociedade por meio das palavras, sem que um só tiro seja disparado!").

Mas o efeito me parece ser mais o de uma atenuação das consciências do que qualquer outra coisa: os aleijados viraram deficientes, que viraram portadores de necessidades especiais, mas os ônibus adaptados ainda são poucos, e tente pegar um táxi em São Paulo usando cadeira de rodas. Por outro lado, "fogo amigo" e "dano colateral" soam bem melhor que "mortos por engano".

quinta-feira, 2 de junho de 2011

James Randi e cirurgia espiritual

E já que hoje estamos no tema da cura pela fé, um quadro clássico do James Carson Show, estrelando James Randi (no fim do vídeo há um pequeno quadro humorístico sobre o governo Reagan que eu realmente não sei por que está lá...):


Enfim, que mal que há?

Parágrafo extraído da edição de segunda-feira do New York Times:

Ao nascer, a menina, Alaynia, era um pacotinho de bochechas rosadas, mas aos seis meses, um tumor do tamanho de uma bola de beisebol tinha consumido sua face esquerda, empurrando o globo ocular para fora da órbita. Os Wylands, membros da Igreja dos Seguidores de Cristo, uma seita que acredita em cura pela fé e cujos membros desprezam a medicina, recusaram-se a levá-la ao médico.

A notícia do NYT é de que os pais, Timothy e Rebecca Wyland, estão sendo levados a julgamento e podem pegar até cinco anos de cadeia. Já Alaynia, hoje com 18 meses e em um lar adotivo, pode ficar cega.

Este não é, claro, o primeiro caso do tipo registrado nos Estados Unidos. Em 2009, outro casal havia sido condenado a seis meses de cadeia por rezar em vez de tratar a filha que sofria de diabete.

A menina, no caso uma pré-adolescente de 11 anos, ficou "fraca demais para falar, comer ou caminhar". Do grupo de orações reunido em torno dela, alguém só pensou em ligar para uma ambulância quando a garota finalmente parou de respirar. E morreu.

Ela tinha diabete. Diabete.

Ao ser condenado, o pai dessa jovem, Dale Newmann, disse à corte: "Sou culpado de confiar plenamente no Senhor... Culpado de pedir pela intervenção celeste. Culpado de seguir Jesus Cristo quando o mundo todo não entende. Culpado de obedecer ao meu Deus".

O senhor Newmann tem precedentes de peso para defender a retidão de suas ações, ao menos à luz do cristianismo:  não só há o caso de Abraão, que teria apunhalado e assado o filho, não fosse a intervenção providencial de um anjo (sorte que a filha de Newmann não teve...), como ele pode ainda encontrar consolo no Novo Testamento, onde se lê que "todos os que quiserem viver piedosamente, em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição" (o verso é de II Timóteo, uma carta atribuída a Paulo que a maioria dos estudiosos, hoje, considera apócrifa, mas que continua firme no cânone).

No caso de Alaynia, o NYT reporta que os pais estão firmemente convictos de que Deus está do lado deles.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O último pouso do Endeavour


O ônibus espacial Endeavour tocou a pista do Centro Espacial Kennedy na madrugada desta quarta-feira, encerrando sua derradeira missão. Agora, ele será parcialmente desmantelado e enviado para um museu na Califórnia. O Endeavour é a mais jovem nave da frota, tendo sido construído como substituto do Challenger, destruído em 1986.

Ao mesmo tempo em que o Endeavour encerrava sua carreira, o Atlantis era posicionado na plataforma de lançamento para o voo final dos ônibus espaciais, com partida prevista para 8 de julho. Depois do retorno do Atlantis à Terra, os EUA entrarão em um hiato no qual o país não terá capacidade de levar seres humanos ao  espaço.

A esperança do governo Obama é de que esse hiato se encerre antes do fim da década, com a certificação de naves projetadas, construídas e operadas por empresas priviadas. O modelo mais promissor, até agora, parece ser a cápsula espacial Dragon, criada pela companhia SpaceX.

A atual administração federal americana também mudou o foco do programa de voos espaciais tripulados, cancelando o plano de retorno à Lua e substituindo-o pelo pouso de astronautas num asteroide, seguido por missões a Marte. Uma missão precursora do desembarque no asteroide, a Osiris-REx, foi anunciada recentemente.

Celular e câncer: lá vamos nós outra vez

Os jornais impressos fizeram um trabalho heroico para pôr em perspectiva a decisão da Agência Internacional de Pesquisa de Câncer (IARC, na sigla em inglês) de classificar a exposição à radiação de celular na categoria de"possível cancerígeno", também chamada de Grupo 2B, mas a mídia eletrônica não teve dúvida em sair berrando por aí que "celular causa câncer" (eu ouvi isso no rádio duas vezes, só nesta manhã).

Então, vamos por partes: não, não há nenhuma prova de que usar celular cause câncer. Não saiu nenhum novo estudo mostrando multidões de usuários com tumores brotando da cabeça.

O Grupo 2B da IARC inclui, entre outros suspeitos, café, isopor, gasolina, óleo diesel e níquel (sim, o metal usado para fazer moedas). Ele reúne substâncias, compostos e situações para as quais a ligação com o câncer é possível, mas onde as provas existentes são insuficientes ou inadequadas.

Acima do 2B existem dois outros grupos, o 2A ("provavelmente carcinogênico") e o IA ("carcinogênico"). No Grupo 2A estão a fumaça de motores diesel e o ambiente de barbearias e salões de beleza. No Grupo IA você encontra o tabaco e a luz do Sol.

Ou seja: embora reconheça que é possível que a exposição à radiação do celular possa causar câncer, a IARC considera que existem provas mais fortes ligando o câncer a coisas como trabalhar como cabeleireiro, respirar nas ruas de São Paulo ou tomar banho de Sol.

Do ponto de vista lógico, para ligar um agente a uma doença, é preciso estabelecer dois tipos de prova -- um mecanismo de ação e uma relação estatística. O mecanismo de ação é uma explicação de como o agente pode levar à doença; a relação estatística demonstra que isso realmente acontece.

A necessidade das duas coisas existe porque quase sempre é possível teorizar um mecanismo de ação, mas sem a estatística não dá para dizer se a teoria corresponde à realidade; por outro lado, estatística sem mecanismo de ação pode levar a falsas atribuições.

Por exemplo, é provável que mais de 80% das crianças que quebram o braço estivessem brincando ao ar livre, expostas à luz do Sol. Mas, sem um mecanismo de ação plausível, fica difícil engolir a explicação de que é a radiação solar o que quebra os ossos.

No caso da ligação celular-câncer, a evidência estatística sempre foi muito fraca, e o fato de a radiação dos telefones ser não-ionizante -- isto é, fraca demais para danificar moléculas como o DNA -- parece excluir qualquer possível mecanismo de ação.

A nota da IARC declara que a evidência de que o uso de celular aumenta o risco de glioma (um tipo de câncer de cérebro) é limitada, e que a ligação entre celular e outros tipos de câncer tem evidência inadequada.

Esses adjetivos em itálico têm significados técnicos precisos na linguagem da IARC, a saber:

Limitado: uma associação positiva foi observada entre a exposição ao agente e o câncer, para a qual uma interpretação causal é considerada plausível, mas o acaso, erros ou fatores alheios não podem ser excluídos com confiança.

Inadequado: os estudos disponíveis têm qualidade, consistência ou poder estatístico insuficientes para permitir uma conclusão sobre a presença ou ausência de uma associação causal entre exposição e câncer, ou não há dados sobre o câncer em humanos.

Num estudo que provavelmente reflete o pior caso analisado pela IARC, o uso de celular por mais de meia hora ao dia, durante dez anos, parece ter aumentado o risco de glioma em 40%.

Isso não significa que as pessoas que usaram o celular dessa forma passaram a ter uma chance de 40% de desenvolver câncer no cérebro, mas sim que o risco básico, que todos corremos, é 40% maior em usuários contumazes de celular -- se o estudo estiver certo, coisa de que nem a IARC tem certeza.

Esta fonte dá como risco de glioma na população em geral uma taxa de 3 em 1000, ou 0,3%. Um aumento de 40% eleva o risco a 0,42%.

O que me parece é que a IARC está apelando para a velha máxima better safe than sorry ou, no vernáculo, seguro morreu de velho. Mas, se você vai se preocupar com os cancerígenos no seu ambiente, eu sugeriria que começasse usando protetor solar antes de sair de casa -- e que tomasse cuidado com a fumaça dos caminhões na rua.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Brasil, uma sociedade 'solta'... mas nem tanto

Semana passada, a revista Science publicou um artigo em que pesquisadores comparam 33 países em termos de "soltura" ou "aperto" de suas sociedades. Em resumo, uma sociedade é "solta" quando seus cidadãos têm alta tolerância a violações das regras de convivência social, regras essas que tendem a ser meio vagas e mal definidas; já uma sociedade "apertada" tem regras claras e bem definidas, e baixa tolerância para com violações.

O Brasil, como qualquer brasileiro certamente esperaria, ficou entre as sociedades mais "soltas" -- 3.5 pontos na escala de "aperto"; em termos de comparação, o Japão marcou 8.6, o Paquistão, 12.3 e a Alemanha, na média entre a antiga Alemanha Oriental e a Antiga Alemanha Ocidental, 7.0.

Países mais "soltos" que o Brasil incluem Hungria (2.9), Ucrânia (1.6) e Holanda (3.3). Seria interessante buscar alguma correlação entre o índice de "aperto" e a percepção de corrupção nacional mas, se existir, ela não é imediatamente evidente: o Paquistão, que é o país mais "apertado", tem uma taxa de corrupção maior que a brasileira, de acordo com a transparência internacional.

Uma coisa em que os autores do trabalho publicado na Science insistem é que não há juízo de valor embutido nessa distinção entre "soltos" e "apertados"; de fato, a tese por trás do estudo é de que cada sociedade tende a encontrar o nível de "aperto" necessário para si, dadas as circunstâncias históricas e ambientais que moldaram seus povos.

Um paralelo traçado pelos autores é entre sociedades tradicionais agrícolas, onde as crianças costumam ser tratadas com disciplina e dentro de uma ética rígida de trabalho, e sociedades de caçadores e coletores, onde as crianças têm uma educação muito mais solta e flexível. A razão estaria no fato de que a agricultura requer trabalho duro e disciplinado, enquanto que a caça depende mais de um outro conjunto de perícias.

Traduzindo isso para o mundo dos Estados-nação, faria sentido o Japão ter uma sociedade "apertada", já que é preciso uma disciplina rígida para viver com os recursos naturais limitados do arquipélago e, claro, enfrentar desastres naturais como terremotos e tsunamis. Já o Brasil...

Existem, porém, outras pressões em jogo: a relação entre tradição cultural, nível de ameaça e grau de "aperto" não é exatamente linear. Israel, no meio do deserto e cercado por inimigos, é uma sociedade supreendentemente "solta", dadas as circunstâncias (índice de "aperto" inferior ao brasileiro: 3.1).

Abaixo, a tabela do nível de "aperto" dos países estudados (clique para ampliar):