sexta-feira, 20 de maio de 2011

A ciência da revolta, versão minimalista

Por que as pessoas se rebelam? E por que se rebelam em certos momentos, e não em outros? Exceto em circunstâncias muito específicas, levantar-se contra o poder estabelecido parece ser, ao menos numa análise desapaixonada, uma péssima ideia: os rebeldes não só arriscam suas vidas e as de suas famílias, como ainda correm o risco de, em caso de sucesso, ver a ordem que se esforçaram para derrubar substituída por outra ainda pior.

A despeito de todos os riscos e contraindicações, no entanto, revoltas e revoluções continuam a acontecer, ou deixar de acontecer, de uma forma que desafia as previsões dos teóricos (como os acadêmicos marxistas que construíram carreiras inteiras tentando explicar a embaraçosa ausência de la revolución bem sabem).

Numa tentativa de compreender melhor o fenômeno, pesquisadores da Universidade de Washington, nos EUA, decidiram adotar uma abordagem minimalista e estudar detalhadamente os fatores envolvidos nos motins a bordo de navios da Marinha Britânica entre 1740 e 1820, período que inclui o famoso motim do HMS Bounty.

Os estudiosos encontraram cerca de 70 motins no período. De acordo com o sociólogo Steven Pfaff, a maioria dos motins não era causada por um espírito generalizado de revolta, sede de liberdade ou idealismo, mas por reivindicações específicas -- e em momentos em que os marinheiros viam uma possibilidade concreta de ter essas reivindicações atendidas.

Em alguns casos, os motins lembravam greves, como no episódio do Camilla, de 1783, cuja tripulação se recusou a trabalhar por considerar que o número de homens a bordo seria insuficiente para controlar o navio em caso de tempestade.

De acordo com Pfaff, muitos motins ocorriam quando os marinheiros se sentiam trapaceados. Revoltas iniciadas por motivos aparentemente fúteis -- excesso de água no rum ou roupas puídas, por exemplo -- são mais fáceis de entender quando se considera que a bebida e a vestimenta eram considerados parte do pagamento dos marujos. O material de má qualidade equivalia a um corte de salário.

Os marinheiros também esperavam que suas tradições fossem respeitadas: uma rebelião a bordo do Minerva, em 1793, ocorreu, entre outros motivos, porque o capitão havia proibido os marujos de praguejar.

De acordo com Pfaff, os marinheiros em geral mostravam-se dispostos a aceitar muita coisa, desde que os oficiais passassem uma imagem de justiça, competência e de alguma preocupação com o bem-estar dos homens.

Além disso, mais de 60% dos motins estudados foram mais parecidos com greves ou manifestações do que eventos dramáticos envolvendo a morte dos oficiais ou a transformação do navio numa nau pirata.

O estudo ainda está em andamento, e incluirá uma análise dos fatores que levaram alguns marujos a assumir o risco de se tornar líderes de motins, além de uma comparação entre navios amotinados e um grupo de controle de não amotinados.

Dia Internacional de Desenhar Maomé

Acima, minha humilde colaboração para marcar a data.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Instalado o mais ambicioso instrumento da ISS


A Nasa informa que o Espectrômetro Alfa-Magnético (AMS, para os íntimos -- a na foto acima, aparece dentro do compartimento de carga do Endeavour) foi instalado com sucesso na Estação Espacial Internacional. O AMS é principal a razão -- para além das dificuldades técnicas que sempre atrapalham os lançamentos de ônibus espaciais -- pela qual a frota de naves tripuladas da Nasa não se aposentou de vez no ano passado.

Quando o presidente Obama decidiu que a ISS ficaria no espaço até 2020, pelo menos (em vez de ser "desorbitada" em 2015, como queria a adminsitração Bush) os cientistas pediram pelamordedeus  para que o voo final do Endevaour fosse postergado até que o AMS sofresse os ajustes necessários para aproveitar a oportunidade de cinco anos a mais no espaço, e fosse posto em condições de trabalhar por uma década.

O AMS -- na verdade, AMS-2; o AMS-1 voou no compartimento de carga do Discovery em 1998 -- usará um intenso campo magnético para desviar a trajetória de partículas eletricamente carregadas, trazidas pelos raios cósmicos, e fazê-las passar por cinco diferentes detectores.

Além de ser capaz de identificar partículas de antimatéria, o AMS levantará dados que serão usados para testar teorias a respeito da natureza da matéria escura. Esse material misterioso compõe 83% de toda a matéria do Universo, ou 23% de todo o balanço de matéria e energia do cosmo (átomos ordinários como os que fazem você e eu são 17% da matéria e 4% do balanço geral de matéria e energia).

Cientistas citados pela agência de notícias Reuters esperam que o AMS "transforme nossa compreensão do Universo, da mesma forma que o Hubble redefiniu as fronteiras da astronomia". De fato, as questões que o AMS ajudará a responder estão na confluência da astronomia com a cosmologia e a física de partículas. Esse é um experimento relevante tanto para a compreensão do infinitamente grande quanto do inestimavelmente pequeno.

Ah, sim: o AMS é fruto de uma colaboração de 60 institutos de pesquisa de 16 países (o Brasil não consta da lista, mas Portugal, sim), e custou US$ 2 bilhões. Mal comparando, é mais ou menos o mesmo preço da Usina Hidrelétrica de Estreito, no Maranhão.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Calote digital e a natureza humana

Não sei quantas pessoas, aqui no Brasil, já ouviram falar num website chamado prosper.com, onde pessoas (na verdade, apenas residentes de cerca de 25 Estados norte-americanos) podem fechar negócios de empréstimo de dinheiro entre si, sem precisar recorrer a bancos ou financeiras.

Funciona assim: um usuário - que faz login na categoria "quero tomar emprestado" - cadastra suas necessidades monetárias, que vão parar numa lista;  outro - que faz login na categoria "quero emprestar" - tem acesso à lista, decide quem parece mais merecedor de empréstimo. Uma taxa de juros é calculada pelo sistema, o tomador recebe o dinheiro e então faz pagamentos mensais ao emprestador.

Pondo de lado o aspecto econômico do sistema e seus possíveis impactos no mercado financeiro tradicional (é curioso imaginar o que algo do tipo faria com os juros praticados, por exemplo, no Brasil), as interações no prosper.com chamaram a atenção por outro motivo: trata-se, afinal, de uma espécie de rede social. Se as pessoas mentem a criam perfis falsos no Facebook ou no Orkut para ganhar status ou arrumar namorada, o que não faziam por dinheiro? E os emprestadores, deixam-se engabelar?

O resultado desse tipo de questionamento aparece em dois atigos científicos, How Accounts Shape Lending Decisions Through Fostering Perceived Trustworthiness e Tell Me a Good Story and I May Lend You My Money: The Role of Narratives in Peer-to-Peer Lending Decisions.

Como o título do segundo trabalho deixa claro, uma boa conversa fiada ajuda bastante a conseguir um empréstimo.

Esse estudo analisou cinco tipos de perfil que os tomadores constroem para si mesmos dentro da redede empréstimos - e que os pesquisadores chamaram de "confiável", "bem-sucedido", "passando por dificuldades", "trabalhador", "ético" e "religioso" - e concluiu que ter um perfil "confiável" é o que atrai melhores resultados. Já os "religiosos" eram, curiosamente, os que tinham mais dificuldade em conseguir doadores.

Detalhe: tomadores com baixo perfil de crédito tendem a criar mais de uma identidade, e a dar características diferentes a cada uma. Citando o press-release que divulga os estudos:

Quanto mais identidades os tomadores construíam, mais chance os emprestadores tinham de financiar os empréstimos e reduzir as taxas de juros, mas menor era a probabilidade de os tomadores pagarem o empréstimo: 29% dos tomadores com quatro ou mais identidades deram o calote, contra 24% dos com duas e 12% dos sem nenhuma.

(No prosper.com, a criação de um texto com informações pessoais, incluindo um perfil de personalidade, é opcional.)

No geral, as pessoas sem perfil pessoal são as que têm mais dificuldade em obter empréstimos, mas as que melhor pagam.

Já o primeiro dos dois estudos mostra que os tomadores que se dão ao trabalho de explicar seus problemas financeiros - e o motivo que os levou a ter crédito negado no sistema financeiro formal - têm mais chance de conseguir o empréstimo, mesmo, como dizem os autores, sem que haja qualquer garantia de que as histórias contadas são verdadeiras.

Esses trabalhos sobre o prosper.com reforçam a teoria de que o ser humano é um tarado por narrativas - que nos deixamos convencer mais facilmente por uma boa história do que por números, dados e argumentos.

Como Aristóteles havia escrtito em sua Arte Retórica, exemplos convencem as massas, argumentos, os sábios. Estudos como os sobre o porosper.com sugerem que o velho filósofo talvez fosse um otimista...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Certo e errado na língua portuguesa

Parece que a elite jornalística brasileira descobriu, na semana passada, que os professores de língua portuguesa não se referem mais a formas "certas" ou "erradas" de emprego do idioma, e sim a formas "adequadas" e "inadequadas".

O que é engraçado, porque eu me lembro de que, em minhas primeiras aulas de gramática de ensino médio, lá se vão 25 anos, as coisas já eram assim.

 Lembro-me até de como o professor introduziu o assunto, exemplificando que, embora uma forma como "É nóis aí, bróder", possa ser útil na pelada de fim de semana, chamar o pai da namorada de "mermão" poderia prejudicar as chances de sucesso do romance.

Enfim, se a coisa é ensinada dessa forma há 25 anos (pelo menos), por que o escândalo agora? Os jornalistas em atividade hoje não fizeram ensino médio? Fizeram e esqueceram? Faltaram nessa aula? Se deixaram os bancos escolares em eras ainda mais remotas, nunca prestaram atenção nas lições que seus filhos, netos, bisnetos, traziam para casa?

O que talvez tenha causado espécie, ao menos pelo que se vê nos exemplos destacados pela mídia, é a brutal relativização a que a chamada norma culta da língua é submetida no livro que serviu de estopim ao escândalo, o tal Por uma vida melhor. Fica a impressão de que a norma culta é fruto de uma espécie de conspiração das "zelite" para submeter o povão a "preconceito linguístico".

Essa visão, tacanha e populista, deixa de dar à norma culta, construída pelo esforço de estudiosos, dicionaristas, gramáticos, escritores e, sim, falantes "comuns", o devido valor. O respeito às normas estritas de concordância de gênero e número dá à língua uma expressividade e um poder de sutileza que ela não teria de outra forma.

Uma das frases destacadas do livro criticado é:"Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado". O plural parcial seria, argumenta-se, suficiente. Mas esse uso impediria a construção de uma sentença mais rica, como "Os livros ilustrados mais interessantes e o mapa estão emprestados, mas ele será devolvido amanhã". O português oferece recursos fantásticos, como o sujeito oculto e a elipse, que dependem, crucialmente, do cuidado com as concordâncias, principalmente a concordância verbal.

Resumindo, achar que a norma culta só está aí para que as pessoas que não votam no PT e que se dão ao trabalho de conhecer a língua portuguesa com algum grau de intimidade possam chamar o Lula de preguiçoso apedeuta é um erro (essa possibilidade é apenas um bônus extra). A norma culta está aí porque, primeiro, é preciso haver uma "língua franca" que permita a comunicação entre as diferentes tribos; segundo, porque ela permite articular um grau de precisão e expressividade que as demais normas -- tribais, profissionais, étnicas, etc. -- não atingem, ou atingem apenas em campos muito específicos.

Numa reação, compreensível, ao sufocante beletrismo engendrado pelo período parnasiano, o modernismo brasileiro entronizou o coloquialismo como uma espécie de valor absoluto. Isso foi um erro. A linguagem coloquial certamente tem seu lugar; é, no mínimo, ridículo imaginar mesóclises, digamos, numa briga de bêbados. Mas uma coisa é reconhecer que o coloquial tem seu espaço e seu lugar. Outra é tratá-lo como valor absoluto.

Falando de minha experiência pessoal como escritor, digo que às vezes me sinto numa camisa de força ao notar que pronomes oblíquos e tempos verbais como o mais-que-perfeito soam "estranhos" em determinados contextos. Trata-se de um empobrecimento líquido da língua: uma perda de poder de precisão, da capacidade de reduzir ambiguidades no texto.

Mas hoje aconteceu uma coisa engraçada no almoço: na fila do quilão, ouvi uma mulher comentando com a amiga, "esta salada parece boa, você vai comer ela?". Só que a mulher não pronunciou o "r" do "comer", e a sentença soou "... vai comê ela?" Daí para a forma correta (ou "adequada de acordo com a norma culta") "comê-la", é só um pulinho.

O que me faz imaginar que, se algum dia os populistas linguísticos tiverem sucesso em abolir os pronomes oblíquos, o povo tratará de reinventá-los. Eles não são frutos de uma conspiração das zelite: a língua simplesmente funciona melhor assim.