sexta-feira, 25 de março de 2011

Que tal parar de culpar a vítima?

Tenho algumas reservas quanto ao uso amplo que às vezes se dá à expressão "não culpe a vítima". Afinal, há casos em que a vítima é, efetivamente, culpada: motoristas embriagados que se esborracham em postes são um caso óbvio.

O título desta postagem, no entanto, se refere à tendência de "pôr a culpa na vítima" que alimenta boa parte do que passa por cultura de autoajuda no mundo atual -- indo desde as versões evangélicas vendidas nos cultos da prosperidade às formas mais (cof! cof!) sofisticadas de O Segredo e quetais.

Nesta semana, por exemplo, apareceu no quadro de avisos do meu condomínio uma "mensagem edificante", provavelmente impressa da internet, com o título "se não quiser ficar doente..." e que enumera uma série de atitudes que as pessoas que têm a boa saúde como meta devem tomar.

Ali não há nada, no entanto, sobre lavar as mãos antes das refeições, comer vegetais frescos, evitar o álcool e o tabaco ou manter uma rotina de atividade física. As dicas da mensagem são, fundamentalmente: não reprima suas emoções; fale sobre seus sentimentos; seja sincero; não seja perfeccionsita.

Primeiro, fiquei pensando em que mundo viveríamos se esses conselhos fossem seguidos à risca. Imagino pessoas saindo no tapa nas filas de caixa de supermercado (não reprima suas emoções), hordas de chatos insuportáveis babando dores de cotovelo intermináveis no ouvido de vítimas que responderiam chamando-os de vermes nojentos e chutando-os para longe (fale sobre seus sentimentos; seja sincero) e, claro, um aumento brutal no número de acidentes aéreos e automobilísticos, de erros médicos e na condenação de inocentes pela Justiça (pilotos, motoristas, médicos e juízes teriam deixado, junto com todos nós, de ser perfeccionsitas).

Analisada friamente, essa utopia da sinceridade e da espontaneidade é, de fato, uma distopia de preguiçosos, relaxados e malcriados. Mas o principal fator aí é que essa linha de conduta é recomendada para quem não quer ficar doente.

De fato, o texto joga a velha cartada psicossomática: só fica doente quem "merece", seja por conduta, seja por algum tipo de fraqueza de caráter. Essa ideia já foi muito bem explorada na ficção, principalmente na ficção gótica -- por exemplo, no excelente Ligeia, de Edgar Allan Poe -- mas é absolutamente falsa.

Sim, existem hipocondríacos e existe gente (100% da população, eu diria) que poderia se beneficiar de um pouco mais de força de vontade e disciplina quanto à saúde mas, primeiro: disciplina e força de vontade são exatamente o oposto da espontaneidade e do espírito deixa-pra-lá; segundo: pessoas que contraem câncer ou úlcera -- as doenças favoritas dos teóricos da causa psicossomática, a despeito da descoberta de que a gastrite, por exemplo, está ligada a uma bactéria -- já têm o suficiente para se preocupar sem que precisem ficar se sentindo culpadas por o que quer que tenha dado errado em seus organismos.

Culpar a vítima é atraente, em última análise, porque oferece aos acusadores uma sensação de controle: ele ficou doente porque é um estressado; eu, que levo a vida na flauta, não corro esse risco.

Desculpe, gente, mas esse controle não passa de ilusão. Somos todos peões do acaso e, embora algumas atitudes -- lavar as mãos, fazer exercícios, não fumar, não misturar álcool e direção -- possam reduzir riscos, não há como controlar nada. O mundo é uma galeria de tiro e todos, cedo ou tarde, acabamos abatidos. Aprenda a viver com isso e pare de culpar os outros.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Falha mais uma tentativa de distinguir acupuntura de placebo


Acho que é do Millôr Fernandes a observação de que qualquer qualquer afirmação, independentemente da validade, sempre tem uma chance mais do que razoável de ser levada a sério quando sai da boca de um velhinho chinês. Não sei se o Millôr tinha a chamada "medicina tradicional chinesa" em mente quando formulou o pensamento, mas alguns resultados recentes de estudos sobre acupuntura me trouxeram à lembrança a pérola do Mestre do Méier.

O trabalho mais recente, divulgado nesta quinta-feira, foi patrocinado pelo Instituto Karolisnka -- onde ficam os caras que decidem o Nobel de Medicina -- concluiu que acupuntura placebo funciona tão bem quanto acupuntura real no tratamento da náusea sentida por pacientes de câncer, submetidos a radioterapia.

O trabalho envolveu 277 pacientes. Desses, 215 foram distribuídos, aleatoriamente, entre um grupo que passou por acupuntura e outro que apenas teve agulhas falsas -- cujas pontas se retraem, sem perfurar a pele -- pressionadas contra o corpo.

Outros 62 pacientes receberam apenas os medicamentos normais contra náusea, sem acupuntura nenhuma.

(É importante notar que a acupuntura real foi efetivamente aplicada nos pontos do corpo que, segundo a tradição, ajudam a evitar naúsea; já a acupuntura placebo foi aplicada em pontos fajutos.)

A taxa de pacientes com náusea, nos grupos acupunturados -- real e placebo -- ficou em 37% e 38%, respectivamente, contra 63% dos que passaram pelo tratamento padrão. Os pesquisadores reconhecem que o fato de o terceiro grupo -- os dos pacientes sem acupuntura nenhuma, seja real ou falsa -- não ter sido formado de maneira aleatória pode ter comprometido essa parte da conclusão.

De qualquer forma, o principal fator envolvido parece ter sido expectativa: 81% dos pacientes que achavam que iam passar mal tiveram a profecia confirmada, contra 50% dos que estavam mais otimistas. Este trabalho saiu na PLoSONE.


O outro estudo é de 2008, e indicou -- depois de um levantamento duplo-cego de 370 pacientes -- que acupuntura falsa é bem melhor para ajudar mulheres a engravidar que a acupuntura real (taxas de sucesso de 55,1% e 43%, respectivamente, dados publicados no periódico Human Reproduction).

A conclusão proposta pelos autores (que desta vez eram chineses, não suecos), foi a de que a acupuntura placebo talvez não seja inerte -- e não, como a lógica poderia sugerir, que ambas as modalidades não passam de placebos e que o poder da expectativa é o verdadeiro fator envolvido nos resultados atribuídos às duas intervenções.




quarta-feira, 23 de março de 2011

Livros à venda!

Já estão disponíveis para venda online as antologias Ficção de Polpa: Crime! e Assembleia Estelar, a primeira de novelas policiais e a segunda de contos de ficção científica; a primeira da gaúcha Não Editora e a segunda, da paulistana Devir. O que ambas têm em comum entre si, e com este blog? Textos meus, oras.

Claro, não só isso: ambas são fruto do trabalho criterioso de seleção do conteúdo por editores que entendem do traçado (Samir Machado de Machado e Marcello Simão Branco, respectivamente).

O lançamento oficial da Ficção de Polpa é esta noite, em Porto Alegre (Cult Bar, rua Comendador Caminha, 348, a partir das 19h30). O da Assembleia Estelar será em em 31 de março, uma quinta-feira, na FNAC Paulista (Av. Paulista 901, perto do Metrô Brigadeiro, São Paulo, SP), a partir das 19h00. Eu estarei lá.

Espero ver mais livros com trabalhos meus, tanto de ficção quanto de ensaio/jornalismo nas livrarias ainda este ano, mas esse é o tipo de esperança que cada um cultiva por sua própria conta e risco.

No momento estou trabalhando num romance policial e me divertindo um bocado! Não sei se será mais uma mudança de gênero (como quando troquei o terror pela ficção científica) mas certamente está sendo uma bem-vinda mudança de ares. E esta vai acabar sendo minha maior obra (em quantidade de texto) até agora: o mistério não deve se resolver em menos de 200 páginas.

terça-feira, 22 de março de 2011

Por que o universo não precisa de Deus: segunda opinião

Depois do mais recente livro de Stephen Hawking, deponta no horizonte mais uma obra afirmando que o progresso da cosmologia permite pôr Deus para escanteio. Desta vez, trata-se de um artigo que será publicado no livro Blackwell Companion to Science and Christianity, que ainda não tem data para sair, mas já está em pré-venda na Amazon canadense (e custa uma grana preta).

Embora o livro ainda não tenha saído, o artigo, de autoria do astrofísico Sean Carroll, pode ser lido online. Trata-se de uma exposição acadêmica, com mais de duas dezenas de notas de rodapé. Felizmente, inscreve-se na tradição anglo-saxônica que valoriza a clareza sobre os (supostos) voos de estilo, e deixa-se ler sem dificuldade.

Em artigo para o site da revista Discover, Carroll pede comentários e críticas que possam ajudá-lo a dar forma final ao texto antes que o livro vá para a gráfica.

Eu não vi muito do que discordar no artigo para o livro, que inclui algumas pinceladas a respeito do papel da ideia de "criação do universo" na física moderna, e até oferece uma solução para a chamada questão do "ajuste fino" das leis da natureza que é exatamente o que suspeito que seja a verdade:

"Life is extremely robust, and would be likely to arise even if the parameters were very different, whether or not we understand what form it would take." 

("A vida é extremamente robusta, e provavelmente surgiria mesmo se os parâmetros fossem muito diferentes, mesmo se não compreendemos que forma ela teria".)

Já o artigo na Discover é interessante porque sintetiza muito bem o argumento da "desnecessidade" de Deus sem cair na arrogância que muita gente leu na versão de Hawking. O trecho precioso de Carroll é o seguinte (tradução minha):


"Nos últimos 500 anos, o progresso da ciência trabalhou para tirar de deus seus papéis no mundo. Ele não é necessário para manter as coisas em movimento, ou para desenvolver a complexidade das criaturas vivas, ou para dar conta da existência do universo. Talvez o maior triunfo da revolução científica tenha sido no reino da metodologia. Grupos de controle, testes duplo-cego, uma insistência em previsões precisas e testáveis – um conjunto de técnicas construídas para nos proteger da tendência, muito humana, de ver coisas que não existem. Não há um grupo de controle para o universo, mas em nossas tentativas de explicá-lo deveríamos ter como meta um nível semelhante de rigor. Se, e quando, os cosmologistas desenvolverem um uma compreensão científica da origem do universo, teremos um quadro onde não há espaço para Deus agir – se ele age (por exemplo, por meio de influências sutis em transições quânticas ou no progresso da evolução), é apenas de modos que são desnecessários e imperceptíveis. Não podemos ter certeza de que uma compreensão totalmente naturalista da cosmologia esteja a caminho, mas ao mesmo tempo não há razão para duvidar de que esteja. Há dois mil anos, era perfeitamente razoável invocar Deus como uma explicação para fenômenos naturais; agora, podemos fazer muito melhor."


Atenção, Kassab: o malufo-socialismo foi inventado em Jundiaí

A súbita conversão do prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab, ao ideário político de centro-esquerda não me causou espanto -- como parece ter sido o caso de muita gente -- mas déjà-vu. Meu pensamentos retornaram a março (acho que era março) de 1996, quando eu trabalhava no Jornal de Jundiaí e chegou a notícia de que um certo vereador estava entrando para o PSB.

Agora, esse vereador era uma verdadeira fortaleza do malufismo local. Era sempre um dos primeiros a receber Paulo Maluf em suas visitas à cidade, e fazia questão de ver seu nome associado ao do amado líder. Sua conversão ao PSB devia-se à radicalização da postura oposicionista do partido de Maluf na época (era o PPR?), que havia se integrado a um bloco de resistência à administração municipal tucana, o que provavelmente havia excluído seus filiados (e suas respectivas bases eleitorais) das benesses do poder.

(Esse bloco não durou muito, aliás: logo alguns vereadores o abandonaram, em nome de uma "postura independente", porque não queriam mais ser "sempre do contra".)

Como o PSB estava coligado ao PSDB na administração da cidade, para lá foi o nosso heroi.

Eu era editor de política, na época, e então lá fui ligar para o vereador e me informar sobre sua mudança de cores partidárias. O diálogo (que reconstituo de memória) foi mais ou menos assim:

"Vereador, ouvi dizer que o senhor está indo para o PSB".

"É verdade. Eu sempre fui um socialista".

(Pausa)

"Mas o senhor sempre esteve ligado a Maluf..."

"É verdade. Eu sempre fui, e continuo a ser, um malufista".

"Mas..."

"Eu sou um malufista socialista".

"Malufista... socialista?"

"É! Qual o problema?"

É, então. Qual o problema? Depois das cortesias de praxe, desliguei o telefone. Juro que tinha gente rindo ao meu redor.

Isso foi em 1996, quando eu ainda era jovem o bastante para me constranger com certas coisas, e alianças do tipo lulo-sarneysismo, lulo-collorismo, comunismo-ruralismo, entre outras, ainda não haviam desmoralizado de vez a questão dos princípios na política. Mas, vendo pelo retrovisor, talvez já fosse um prenúncio.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Vamos substituir pi?

Um tuíte do matemático John Allen Paulos chamou minha atenção hoje para uma questão candente, relativa a uma das mais importantes constantes do Universo: por que pi é definido com base no diâmetro da circunferência, e não no raio?

Para quem andou matando aula: o número pi (3,141592...) é uma constante, obtida quando se divide o comprimento de uma circunferência por seu diâmetro. Esse número não só é onipresente nas fórmulas que envolvem ângulos -- o que faz sentido, já que ângulos são frações do círculo -- mas também tem o estranho hábito de aparecer em situações que, à primeira vista, não têm nada a ver com a geometria das coisas redondas.

Por exemplo, pi é um dos fatores do cálculo da constante de Planck, h, que define o quantum de energia que dá nome à física quântica. Muitas vezes, os físicos preferem usar a constante de Planck reduzida, ou [h/(2*pi)].

Note que pi entra na jogada em dobro (2*pi). Esse é um fenômeno frequente. A fórmula do comprimento da circunferência, por exemplo, é 2*pi*r, onde "r" é o raio do círculo. A fórmula do período do pêndulo é apenas mais uma, entre muitas outras, que também envolve o dobro de pi.

Isso acontece porque pi é definido como base no diâmetro,  não no raio, da circunferência. Mas a própria circunferência é definida por um ponto de origem -- o centro -- e um raio, ou distância em relação ao centro. Diâmetro simplesmente não entra na jogada.

Entra em cena, então, o artigo Pi está errado!, de Bob Palais, argumentando que o lógico seria adotar, como constante nas equações da física, da geometria e de todos os outros campos onde pi aparece, a razão entre circunferência e raio, cujo valor é igual a 2*pi. Mais tarde, Michael Hartl sugeriu que a constante equivalente a 2*pi passasse a ser designada pela letra grega tau, lançando o movimento pela adoção universal de tau no lugar de pi.

Com tau, a constante de Planck reduzida passaria a ser apenas (h/tau). A medida dos ângulos em radianos também seria simplificada -- por exemplo, 360º passaria a ser igual a tau, e não mais a 2*pi.

A ideia de trocar pi por tau vai pegar? Acho que não; ou, se pegar, será num movimento espontâneo e extremamente lento. Afinal, a matemática não é como a ortografia da língua portuguesa, onde convenções de séculos podem ser mudadas por meio de meras canetadas. Mas deixo, como ilustração desta postagem, o símbolo do tau-ismo.