sábado, 5 de março de 2011

Nas ondas do rádio!

Ou, nos cabos da internet: meu bate-papo com o pessoal do programa Rock com Ciência, da Universidade Federal de Viçosa, vai ao ar neste sábado, dia 5, às 17h.

O tema são estudos sobre o poder da oração e o mecanismo das curas pela fé. Discutimos a análise estatítisca pioneira realizada por Francis Galton no século XIX, um grande estudo recente feito nos Estados Unidos e, perto do fim do programa, ofereço uma bênção que deve curar dores de cabeça instantaneamente e fazer os relógios dos ouvintes voltarem a funcionar.

(Sério.)

Mas você deve ouvir mesmo por causa da trilha sonora, que vai de Elvis Presley a Pantera (eu havia sugerido também Gloria Gaynor, mas o pessoal não quis usar, por algum motivo...).

Queria agradecer ao Rubens Pazza pelo convite, e a todo o pessoal do Rock com Ciência pela conversa. E espero que os leitores deste blog aproveitem a oportunidade para ouvir o melífluo som de minha voz... Ah, claro: o programa vai aparecer online aqui.

Carnaval e o massacre de mídia

Se você está online lendo blogs, em vez de estar preso na estrada a caminho de tomar chuva na praia e/ou curtindo uma ressaca desgraçada, talvez se identifique com o experimento imaginário que vou propor agora.

Suponha que, nos 30 dias anteriores ao carnaval -- também vale copa do mundo ou olimpíada -- os meios e comunicação se abstivessem, não de noticiar o assunto, mas de bombá-lo.

(Para quem estiver desconfortável com o jargão: noticiar é divulgar um fato específico de interesse público -- tipo, Geisy Arruda foi vítima de tentativa de agressão -- bombar é insistir no tema mesmo na ausência de novos fatos relevantes -- tipo, Geisy Arruda comprou vestidinho polêmico na loja "X".)

Hipótese a ser testada no experimento: afinal, o "brasileiro" -- este estereótipo que os marqueteiros adoram -- realmente se interessa tanto por festas e eventos esportivos?

Trata-se de uma tentativa de isolar o real interesse do público do efeito claque: o assunto "A" domina a pauta da mídia porque interessa às pessoas, ou as pessoas acabam se interessando por "A" porque é só o que veem na pauta da mídia?

Já digo que sou profundamente cético em relação ao chamado "poder da mídia". Não acho que foi a Globo que elegeu Fernando Collor, e nem acredito que uma grande conspiração de magnatas da comunicação seria capaz de transformar a bocha no novo esporte nacional.

Tendo afirmado isso, acrescento que tenho razoável confiança na possibilidade de a mídia intensificar e amplificar, até certo ponto, interesses já presentes no público.

Digamos, para efeito de hipótese, que 40% da população brasileira tem um interesse realmente profundo e arraigado em carnaval e é composta por foliões juramentados e inveterados; outros 20% têm um interesse, digamos, amador na festa; outros 30% oscilam entre uma vaga simpatia e indiferença. E os 10% restantes sentem verdadeira hostilidade.

Me parece razoável que a "bombação" seja capaz de converter os profissionais em fanáticos, os amadores em profissionais, os simpáticos em amadores e os indiferentes em simpáticos. Já os hostis provavelmente urram de desgosto, mas ninguém liga para eles.

A bombação é útil para as empresas e profissionais de mídia porque funciona como uma espécie de antibiótico de amplo espectro, já que reforça o poder de um conteúdo único que, logo de saída, já tinha algum nível de apelo para uma fatia expressiva da população, e acaba cativando cerca de 90% das pessoas (pela minha hipótese).

Bombar um assunto que já nasce com potencial de interessar ao público é simplesmente seguir a lei do menor esforço -- e, se o seu negócio depende de audiência de massa, reduz brutalmente os riscos.

Mas tem também um efeito perverso, o de reduzir a diversidade. Uma das coisas que me desencantaram em meus anos finais como funcionário do braço online de uma grande empresa de comunicação foi ver como a promessa de diversificação trazida pela internet -- que prometia ser um canal onde seria possível ouvir falar não só de samba, futebol  cerveja, mas também de música tailandesa, bocha e aguardente peruana -- caiu num vazio, ao menos no que diz respeito às grandes empresas.

No fim, a evolução do conteúdo dos grandes portais noticiosos acabou trazendo, para mim, a mesma frustração que senti quando entrei nas primeiras as megastores de livros: em vez da grande variedade de temas e autores que esperava, o que vi foram apenas estantes e estantes lotadas com os mesmos velhos best-sellers de sempre.

E dá-lhe carnaval.

sexta-feira, 4 de março de 2011

21 gramas é o peso da alma?

Outro dia encontrei uma propaganda do filme 21 gramas, de Alejandro Iñárritu, e me lembrei de que a quantidade de massa que dá título à película vem do suposto peso da alma humana. Não pela primeira vez, me perguntei da onde diabos esse número teria vindo, e ontem finalmente achei uma boa candidata a resposta, no livro Search for the Soul, de Milbourne Christopher.

Formado por uma série de artigos que descrevem, cada um, um tipo de experimento realizado para tentar detectar a "alma" humana -- entendida como uma entidade dotada de existência própria e separada do corpo -- o livro tem um capítulo sobre os esforços de pesar o espírito.

O valor de 21 gramas aparece logo no primeiro deles, realizado pelo médico Duncan McDougall, e que deu origem a um "paper" publicado em 1907 no Journal of the American Society for Psychical Research.

A história: McDougall preparou um leito hospitalar montado sobre uma balança, e convidou voluntários -- pacientes terminais de doenças como tuberculose -- a morrer nele, garantindo que não haveria dor ou desconforto adicionais em relação à morte numa cama de hospital comum.

O primeiro voluntário morreu após três horas e quarenta minutos de repouso no leito especial, que registrou uma perda de 0,75 onça -- em unidades civilizadas, 21,26 gramas. Este primeiro resultado, ao que parece, foi o que deu origem à lenda dos "21 gramas".

Mas esta não é a história completa: ao todo, McDougall realizou seis experimentos do tipo com seres humanos, e os resultados ficaram longe de serem consistentes. O segundo voluntário, por exemplo, perdeu uma onça e meia (42,5 gramas) em duas etapas, uma quando parou de respirar e outra, quando o coração parou de bater. Outro resultado encontrado foi de três oitavos de onça (10,6 gramas).

McDougall também usou seu leito-balança para pesar cães antes e depois de sacrificá-los, concluindo, a partir disso, que o melhor amigo do homem é, na verdade, um animal desalmado.

O trabalho do médico americano foi atacado, na época de sua publicação, por questões metodológicas: não há, afinal, como relacionar a perda de peso no ato da morte com a partida da alma. Outras variáveis poderiam muito bem estar envolvidas, ponderaram os sábios da época.

Em 1915, outro cientista americano, H.L. Twining, numa série de experimentos que hoje faria seu laboratório ser depredado por grupos de defesa dos animais, dedicou-se a lacrar camundongos em tubos de vidro, apoiar os tubos em balanças e esperar que os roedores morressem sufocados. O lacre garantia que coisas como excreção, respiração ou transpiração não afetariam o resultado.

Nenhuma diferença de peso foi detectada entre o ante e o post mortem.

Hoje em dia, o chamado "dualismo de substância" -- a ideia de que existem duas substâncias diferentes na composição do ser humano, a matéria física e a matéria espiritual -- não é mais levada a sério como hipótese científica (e nem filosófica, exceto nos recônditos de certas teologias). Outras formulações dualistas mais sutis ainda subsistem, ao menos no discurso filosófico, mas não creio que em alguma delas ainda se fale no "peso" da alma.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Formiga zumbi com fungo no cérebro



A imagem acima, retirada desta nota da National Geographic, mostra um exemplar do fungo Ophiocordyceps camponoti-balzani brotando do cérebro de uma formiga brasileira. O fungo é capaz de dominar a "mente" da formiga, forçando-a a se dirigir para um lugar favorável para seu crescimento e reprodução. Uma vez lá, ele a mata.

Existem quatro espécies de fungo que fazem isso -- assumem o controle do inseto, matam-no e se alimentam dele -- e todas são brasileiras.  Eu pessoalmente acho que deveriam se chamar PMDB, PSDB, PT e DEM, mas essa é só a minha opinião.

Que mais posso dizer? Os maçons se referem a Deus como o "Grade arquiteto do Universo". Galileu dizia que Ele era matemático. Darwin fez seu famoso comentário sobre o Capelão do Diabo e a crueldade da natureza. Para mim, se existe um designer universal, Ele deve ser o Grande Roteirista Cósmico de Filmes B.

E a ISS ficou pronta... sem o Brasil

Com a abertura, nesta semana, do módulo europeu Leonardo, a construção da Estação Espacial Internacional (ISS) está, finalmente e após 12 longos anos, completa. As próximas duas -- últimas -- missões de ônibus espaciais previstas levarão instrumentos científicos e peças de reposição à ISS, mas o Leonardo é a última adição de espaço habitável a ser feita ao posto orbital.

Uma vez completada a montagem, a estação deve ter uma vida útil, em sua configuração plena, de dez anos. O presidente dos EUA, Barack Obama, abandonou a diretriz de derrubar a ISS em 2015 -- como previsto pelo governo Bush -- e optou por mantê-la operacional até 2020.

Se isso por um lado parece ser uma boa ideia (não há muito sentido passar 12 anos construindo algo que só vai ser usado plenamente por cinco), por outro amarra recursos que poderiam estar sendo usados para levar astronautas a  Marte. É por essas e outras que muita gente (eu inclusive) se refere à órbita da Terra como um "atoleiro": gastam-se bilhões de dólares para chegar lá, e depois não se tem meios para ir além.

Mas o objetivo principal desta postagem é relembrar o fiasco tremendo que foi a "participação brasileira" na ISS -- projeto no qual entramos nos anos 90 com pompa e circunstância, e do qual fomos diplomaticamente chutados por, em linhas gerais, termos dado uma de moleque irresponsável, prometendo mais do que podíamos entregar, pedindo para renegociar e, depois, não entregando nem o mínimo que havia sido renegociado. Se houvesse um Procon internacional, a Nasa teria motivos de sobra para pôr o Brasil no pau.

(E esse foi, diga-se, um papelão bipartidário, que teve início no governo FHC e atingiu o auge no de Lula -- quando, num obsceno desperdício de recursos humanos e financeiros, Marcos Pontes, um astronauta treinado profissionalmente, foi enviado à ISS num voo idêntico, em termos de transporte e duração, ao dos turistas espaciais.)

A questão nem é discutir se participar da ISS servia ou não aos interesses da ciência brasileira e do desenvolvimento tecnológico nacional -- talvez não servisse, mesmo -- mas sim o fato de que o compromisso foi firmado e, depois, abandonado. O pior é que o investimento previsto nem era tão alto assim: US$ 120 milhões, ou cerca de R$ 200 milhões, em dinheiro de hoje. Para se ter uma ideia, o Senado Federal gasta, com folha de pagamento, R$ 2,5 bilhões ao ano, ou cerca de 21 vezes o que deveríamos ter investido na ISS ao longo de uma década.

Olhando isso tudo pelo retrovisor, tenho arrepios de pensar na Copa e na Olimpíada. O COI e a Fifa deviam ter consultado a Nasa...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ficção de Polpa: Crime!

Eu já havia cometido uns quatro ou cinco contos misturando fc e mistério antes de sentar para escrever As Muralhas Verdes, minha contribuição para o quarto volume da série gaúcha Ficção de Polpa, da Não Editora, mas este conto é bem diferente dos anteriores porque (a) nele não só a mistura ficção científica/mistério é radicalmente diferente (nele, o elemento de fc é apenas incidental) e (b) ele representa meu primeiro exercício no mundo dos "crimes impossíveis", à la John Dickson Carr e Edward Hoch.

Ficou bom? Comprem o livro (que deve estar disponível no fim do mês) e descubram!

(Amostra grátis ao pé da postagem...)

O que eu sei que é bom é o conto de Octavio Aragão, O Caso do Americano Audaz, que traz uma aventura perdida do colega do Dr. Watson.

Atualmente estou me metendo a escrever um romance de mistério, por falar nisso. Se vai ficar bom não sei, mas o processo de construção da história lembra muito o de bolar um truque de mágica -- o objetivo sendo fazer o leitor/espectador ler sem realmente notar.

Ah! A amostra:

Momento CSI: perícia judicial prova que pizzas são sólidas

Enquanto os tribunais brasileiros reclamam de falta de verba e o ex-ministro do STF Eros Grau exercita seu precioso latim numa tentativa de convencer os leitores do Estadão de que não há nada demais em o Estado brasileiro, que está constitucionalmente proibido de "estabelecer aliança" com religiões, oferecer ensino religioso e celebrar tratados com o Vaticano, o juiz James P. MacElree, do Estado da Pensilvânia, agindo com galhardia e imbuído do mais elevado espírito público, gasta dinheiro do próprio bolso para realizar uma perícia científica com consequências sísmicas:  pizzas são sólidas?

A história é descrita em detalhe no blog da revista Discover, mas resumindo: um cara jogou um pedaço de pizza num carro na rua. A lei da Pensilvânia considera ilegal "arremessar objetos sólidos" nas vias públicas. A defesa do cara argumenta: mas, será que a pizza preenche os requisitos de "objeto sólido"?

A sentença do meritíssimo MacElree merece ser lida na íntegra, mas traduzo abaixo o trecho mais brilhante do autógrafo:


"Usando fundos pessoais, comprei uma pizza com a finalidade de testar suas propriedades físicas. A primeira coisa que notei foi que ela veio numa caixa (i.e., um recipiente). Ela repousava no fundo do recipiente, mantida no lugar pela gravidade, e não tomava a forma ou ocupava todo o volume do recipiente. Concluí, portanto, que se não tratava de um gás. Meu experimento seguinte foi tentar fatiar a pizza em seis pedaços, porque não estava faminto o suficiente para comer todos os oito pedaços. Observei que o processo de fatiar realmente produziu seis pedaços separados e distintos, que não voltaram a se unir para tomar a forma do fundo do recipiente. Concluí, portanto, que se não tratava de um líquido. Meu experimento seguinte foi uma tentativa de pegar um dos pedaços e comê-lo. Observei que a fatia de pizza mantinha sua forma básica, embora pendesse um pouco na ponta. Além disso, fui capaz de remover uma parcela com uma mordida, e foi necessária alguma mastigação antes que pudesse engoli-la. Pus o restante sobre um papel e observei que ficou no lugar, não se esparramou pela minha mesa, e manteve a forma (exceto pela parte mordida). Portanto, concluí que era um sólido. 


"Gostaria de agradecer o estimado advogado de defesa por me conceder a oportunidade de encomendar um almoço antecipado, e de passar o restante do meu horário de almoço escrevendo esta momentosa opinião. Espero que seu cliente tenha apreciado pagar o advogado pelo tempo gasto neste argumento totalmente frívolo. Estou inclinado a impor ao advogado uma multa sumária de US$ 500 por apresentar tamanha frivolidade, que desperdiçou o  tempo da polícia, do promotor público e o da Corte".

Há dez anos, nesta data...


O Taleban dava início à sistemática destruição dos Budas de Bamiyan, que haviam vigiado o Vale de Bamiyan, no Afeganistão, por 1.500 anos. De acordo com este artigo do ScienceNOW, as estátuas, de 38 e 55 metros, foram esculpidas diretamente no arenito do vale, que abrigava um complexo de mosteiros budistas no momento em que essa religião em particular começava a se espalhar pela Ásia Central.

A análise dos fragmentos deixados pelos fanáticos iconoclastas revelou que as estátuas eram pintadas, uma de vermelho e outra de branco, confirmando relatos feitos por viajantes que visitaram o local no século XI. Os destroços dos dois colossos também permitiram uma datação mais precisa das estátuas, determinando que foram erigidas entre os séculos VI e VII.

A mesma análise revelou que, embora as estátuas tenham sido esculpidas na rocha da encosta, seus trajes tinham sido feitos de argila "lisa como porcelana". A imagem acima foi feita por Arnold Metzinger, e tenta mostrar como os budas deviam parecer no século VI.

terça-feira, 1 de março de 2011

Lembre-se: espermatozoides resistem a Coca-Cola

Acho que todo mundo já ouviu as histórias mais escabrosas sobre o poder corrosivo da Coca-Cola: como ela desentope pias; como um osso ou dente deixado para curtir num copo do refrigerante fica mole depois de alguns dias (deixar um osso ou dente alguns dias num copo de limonada tem o mesmo efeito, aliás). Enfim: sejam quais forem os poderes destrutivos da Coca-Cola, o esperma humano é imune.

O website Improbable Research, mantido pelo mesmo grupo que anualmente oferece o Prêmio IgNobel, chama a atenção de seus leitores, nesta terça-feira, para a notícia de um casal vietnamita que tentou evitar a gravidez lavando a vagina da moça com Coca-Cola após la petite mort, mas não obteve o resultado esperado.

O assunto chamou a atenção do pessoal do IgNobel porque o prêmio de Química de 2008 foi dividido entre dois grupos, um que disse ter descoberto que a Coca-Cola era um bom espermicida e outro dizendo ter provado que o primeiro grupo estava errado.

O estudo com resultado negativo foi bem minucioso, aliás. Foram testadas Coca-Cola, New Coke (uma versão mais doce da Coca tradicional), New Coke sem cafeína e Pepsi. Como o estudo é de 1987, acho que a Coca Zero e a Pepsi Twist ainda não estavam no mercado. Resultado? "Nenhuma delas foi capaz de reduzir a mobilidade do esperma abaixo de 70% dos controles em menos de uma hora".

Cristianismo e bruxaria na África: atração fatal

Volta e meia a mídia internacional produz uma história sobre os efeitos trágicos que certas superstições têm na África -- por exemplo, como a perseguição e mutilação de albinos na Tanzânia, as condenações por bruxaria no Malawi, ou o uso de beterraba como remédio contra aids -- mas esses informes tendem a ser esporádicos, e vistos em conjunto forma um mosaico cheio de lacunas.

Uma visão mais  completa pode ser extraída de um relatório publicado em 2010 pela Unesco, com o título Crianças acusadas de bruxaria, que chama a a atenção para o papel catalisador que a religião cristã tem nessas atrocidades.

É um texto de 59 páginas e, embora apele para o tipo de eufemismo que faz da linguagem da burocracia da ONU uma fonte universal de piadas de mau gosto (por exemplo: "Comportamentos comumente associados à acusação de bruxaria incluem violência, maus tratos, abuso, infanticídio e abandono de crianças. De uma perspectiva ocidental, essas práticas representam violações dos direitos das crianças" -- e numa "perspectiva oriental", essas práticas representam o quê?), ele traz uma apreciação antropológica do fenômeno da bruxaria nas culturas africanas e destaca que as superstições, mesmo as de origem tradicional, mudam junto com a sociedade ("novas circunstâncias requerem novas magias").

O relatório nota que, nos países africanos cristianizados -- principalmente onde predominam os sabores carismático e pentecostal do cristianismo -- linchamentos e abusos contra pessoas acusadas de bruxaria são muito mais comuns do que nos países islamizados: "A bruxaria é capaz de se integrar muito bem no discurso cristão, porque foi personificada e associada ao Diabo ou Satã".

O relatório elabora:

"A maioria das igrejas pentecostais [africanas] centram-se num pastor ou profeta que alega ter sido escolhido por Deus (...). Dentro de seu objetivo maior de combater um mal onipresente (a bruxaria é um mal ainda onipresente) os pastores-profetas oferecem a seus seguidores não apenas uma vida melhor -- prosperidade financeira -- mas, acima de tudo, cura divina e salvação".

E, mais adiante:

"O papel dos pastores-profetas nessas igrejas parece ser de grande importância na "caça às bruxas", não somente pela possibilidade de trazer salvação para as pessoas possuídas, mas também por sua capacidade de identificar bruxas. Em diversas cidades africanas, esses pastores-profetas desempenham um papel essencial nas acusações de bruxaria contra crianças. Embora nem sempre sejam a origem da acusação -- a pessoa às vezes já sofre suspeita da família ou da comunidade -- eles confirmam e legitimizam a acusação (...) esses pastores detectam bruxas por meio de sonhos e visões".

Crianças começam a ser acusadas de bruxaria a partir dos quatro anos de idade. "Acusações de bruxaria voltam-se mais frequentemente contra crianças pequenas, às vezes chegando ao início da adolescência". E as crianças acusadas geralmente são as mais vulneráveis -- órfãos, portadores de deficiência, bebês prematuros, crianças de rua.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Retrato de família: Reia, anéis e Dione



No primeiro plano da imagem acima o que se vê é o polo sul de Reia, a segunda maior lua de Saturno (com 1.500 km de diâmetro, fica atrás apenas de Titã, mais de três vezes maior). Reia foi descoberta por Giovanni Cassini em 1672, e batizada com o nome da esposa do titã Saturno.

Abaixo do polo sul de Reia vemos Dione, também descoberta por Cassini, batizada com o nome de uma sobrinha de Saturno, filha de Tétis e mãe de Afrodite. Dione tem 1.100 km de diâmetro. As luas Dione e Reia são muito parecidas entre si, com rotação travada pela gravidade do planeta e temperaturas extremamente baixas para os nossos padrões (máxima de -174º C).

As duas luas também também parecem ser formadas principalmente de água congelada, que nessa faixa de temperatura se comporta como se fosse rocha -- apresentando montanhas, planícies e crateras.

Abaixo das duas luas, os famosos anéis de Saturno. A foto foi feita pela sonda Cassini, batizada em homenagem ao descobridor das irmãs fotografadas.

Telefone celular, seu cérebro e o noticiário seletivo

Acho que quase todo mundo viu ou ouvir falar, na semana passada, deste despacho da agência inglesa Reuters sobre um estudo que indica que o uso de telefones celulares aumenta o fluxo de sangue no cérebro, especificamente do lado da cabeça onde o aparelho está encostado. Embora o texto tenha tido o cuidado de informar que o "impacto na saúde não está claro", está claro que a frase deixa, no ar, a noção de que algum impacto na saúde há de haver.

Curiosamente, no entanto, não vi em nenhum dos grandes "outlets" nacionais de mídia a repercussão deste press-release da Universidade de Manchester, dando conta de um levantamento estatístico que procurou alguma correlação entre a disseminação do uso do celular na Inglaterra e o número de casos de câncer de cérebro. Os cientistas usaram dados de 1998 a 2007.

O que eles encontraram? Nichts. Niente. Nichego. Rien. Nishto. Nothing. Nada.


(Em alguns pontos da web brasileira mais -- com o perdão do trocadilho -- antenados que a grande mídia, a notícia foi dada com o título "Celulares podem não causar câncer". A implicação, involuntária que seja, é que era de se esperar que causassem!)


Como notam os autores do trabalho de Manchester (publicado na revista Bioelectromagnetics), não existe nenhum mecanismo conhecido pelo qual a frequência eletromagnética usada pelos celulares possa produzir o tipo de dano biológico necessário para criar um câncer.

Radiações capazes de danificar o material genético no interior das células, como o ultravioleta ou os raios X, são muito mais potentes. Os fótons emitidos pela lâmpada da sua sala são mais energéticos que os disparados pela antena do telefone.

E quanto aos resultados divulgados pela Reuters? O físico Robert Park sugere que o aumento no fluxo de sangue possa ser uma resposta ao calor gerado pela radiação do celular (ficar com a orelha encostada numa lâmpada acesa vai acabar aquecendo seu cérebro, também -- e queimar a orelha, por falar nisso).

Resumindo, o efeito do celular no cérebro pode ser idêntico ao de se usar chapéu. Chapéu causa câncer?

Por que a grande mídia deu a história da atividade cerebral e ignorou o resultado negativo do estudo estatístico? Provavelmente porque uma das histórias saiu na Reuters e a outra, não (uma busca no site da Reuters revela a matéria alarmista, mas não traz nada a respeito da tranquilizadora).

E por que a Reuters deu uma história, e não a outra? Bem, talvez porque o experimento sobre atividade cerebral tenha sido publicado numa revista científica de alto perfil  respeitabilidade, o Jama. Mas também talvez -- apenas talvez -- porque medo e insegurança vendem mais jornal que o contrário.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Estudar mais pode ser bom para a sua saúde

Eis aqui uma curiosa correlação estatística que pesquisadores da Universidade Brown, nos EUA, encontraram: entre anos de estudo e saúde.

Resumindo: uma pesquisa que acompanhou 3.890 pessoas, ao longo de 30 anos, mostrou que homens com 17 anos de escola ou mais têm menor índice de massa corporal, bebem menos e fumam menos que homens com menor escolaridade. 

No caso das mulheres, o impacto é ainda mais dramático, com uma redução de mais de 3 pontos de pressão sistólica nas que fazem ensino médio, em comparação com as que não completaram essa etapa, e de 2 pontos extras nas que vão à faculdade.

Para os homens, a o ganho em pressão é de 2 pontos por terminar o ensino médio, sem benefício mensurável na educação superior.

De acordo com os autores do trabalho, publicado no periódico online BMC Public Health, mesmo quando variáveis como condição econômica e idade foram controladas, a correlação se manteve. Quando o controle aplicado foi de estilo de vida -- se a pessoa, independentemente do grau de escolaridade, fumava ou bebia -- o benefício da educação superior quase some, mas não de todo: a vantagem de pressão sistólica cai para 2,8 pontos nas mulheres e apenas 1 ponto nos homens.

Os leitores deste blog provavelmente já estão de saco cheio de me ver dizendo que correlação não é causação, e este caso é um belo exemplo. É óbvio que não adianta correr para se inscrever num pós-doutorado, achando que assim vai-se neutralizar os efeitos do torresminho com caipirinha do sábado à tarde.

Os próprios autores do levantamento reconhecem isso, notando que a vantagem extra das mulheres mais estudadas, em comparação com os homens, provavelmente vem do fato de que mulheres que conseguem avançar no mundo acadêmico, em sua maioria, escaparam de alguns fatores de risco que assombram o sexo feminino, como gravidez precoce, violência doméstica e depressão.

No geral, a correlação provavelmente aponta para a ligação entre mais anos de estudo e maior acesso à informação sobre saúde (valor do exercício, de uma boa alimentação) e também maior acesso a profissões de baixo risco.

Essa constatação sobre profissões também aponta um dos limites de se adotar o acesso universal à educação como estratégia de saúde pública: no dia em que todo mundo tiver diploma de faculdade, alguém ainda vai ter de recolher o lixo, lavar as janelas do décimo-quinto andar, fundir aço e servir na infantaria. O fato de as mulheres terem um benefício tão maior que os homens também sugere que o sexo masculino já atingiu uma espécie de teto em termos de benefício sanitário da educação, enquanto que o feminino -- dado o acesso relativamente recente -- ainda tem bastante terreno a conquistar.

Outro dado que permite encarar o resultado cum grano salis é o fato de a população estudada ser toda de uma zona suburbana da Nova Inglaterra. Variações étnicas e culturais, portanto, podem invalidar as conclusões.