sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Uma imagem para animar o fim de semana


Vinda diretamente do Ha-Ha Stop. Especialmente relevante para quem passou a infância sendo arrastado para a missa e para o catecismo, e que teve algumas discussões tensas para escapar do crisma... E reflitamos que esta é uma liberdade de que nossos candidatos a cargo eletivo ainda não desfrutam, infelizmente (embora desfrutem de tantas outras que talvez não sintam falta dela.)

Que tal trazer um pedaço de asteroide para a Terra?

A Agência Espacial Europeia anunciou nesta sexta-feira quarto candidatos para uma missão que será lançada no período de 2020 a 2022. Essas quatro são as finalistas de uma lista original de 47, e apenas uma será efetivamente implantada.

Há algum tempo, vinha sendo feito um lobby em defesa de uma missão para os gigantes gelados do sistema solar (Netuno e Urano), mas nenhuma das quatro tem esse perfil.

Parafraseando Newton, como espécie ainda somos crianças colecionando conchinhas nas praias do Desconhecido. O problema é que agora temos uma boa ideia de onde as melhores conchas devem estar – mas não temos dinheiro para ir buscá-las todas.

As missões finalistas são:

Observatório de Caracterização de Exoplanetas: projeto dedicado a caracterizar a atmosfera de planetas localizados fora do sistema solar, incluindo a determinação de sua capacidade de suportar vida. Esse observatório ficaria no ponto L2, uma zona de estabilidade gravitacional localizada a 1,5 milhão de quilômetros da Terra.

Grande Observatório de Cronometragem de Raios X: para estudar em detalhes a matéria que orbita nas vizinhanças do horizonte de eventos de buracos negros (se você nunca leu uma HQ de ficção científica na vida, “horizonte de eventos” é o limite em torno de um buraco negro a partir do qual é impossível retornar para o espaço normal).

Marco-Polo R: Missão para trazer de volta à Terra uma amostra de um asteróide.

Explorador de Espaço-Tempo e Teste Espacial Quântico do Princípio de Equivalência (STE-Quest, para encurtar): tem o objetivo de medir com precisão os efeitos da gravidade no fluxo do tempo e na matéria. A meta principal é testar o princípio da equivalência entre gravidade e inércia (se você leu minha postagem sobre Mond, sabe um dos motivos por que isso é importante).

Se eu fosse Imperador do Universo, todas as quatro missões seriam lançadas, e uma para Netuno e Urano, também. Como não sou, meu coração fica dividido entre a Marco-Polo R e a STE-Quest. Exoplanetas em terceiro, Raios X em quarto. E você, o que acha?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

And so it ends...


O ônibus espacial Discovery decola em sua última missão. Já tratei do fiasco geral que foi o programa  de ônibus espaciais da Nasa em outra postagem, então aqui deixo apenas uma  questão: por que a humanidade tem uma relação tão ambígua com os voos espaciais tripulados?

Por um lado, as principais lideranças mundiais não parecem realmente ser capazes de levar a empreitada a sério. Por outro, também não parecem dispostas a simplesmente tirar a coisa da tomada de vez.

Isso me lembra um dos paradoxos de Mr. Pond, um dos vários detetives-filósofos criados por G.K. Chesterton: "Uma coisa que vale a pena fazer merece ser malfeita". É o paradoxo que define a exploração do espaço.

AAAS premia Elizabeth Loftus, pioneira da 'falsa memória'

Esta informação é quentinha: a psicóloga Elizabeth Loftus foi agraciada com o Prêmio Liberdade e Responsabilidade Científica da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS). Eu geralmente prefiro espaçar as postagens no blog ao longo do dia, mas o prêmio da Dra. Loftus é uma notícia boa demais para esperar.

Primeiro, um pouco de background: nas décadas de 80 e 90, os Estados Unidos viveram uma epidemia de "recuperação de memória" de abusos sofridos na infância, com pacientes de psicólogos e de psicoterapeutas  subitamente recordando terem sido vítimas de violência -- geralmente, sexual -- por parte de pais, professores ou outros adultos.

Inúmeros processos judiciais foram abertos, e famílias se viram destruídas pelas "lembranças" ressurgidas. O que Elizabeth Loftus fez foi demonstrar que era perfeitamente possível que as memórias fossem falsas e estivessem sendo criadas e implantadas na mente dos pacientes pelos próprios terapeutas.


(Nota: é curioso como a hipótese dos implantes de memória soa, à primeira vista, muito mais chocante que a de que lembranças traumáticas podem ser "reprimidas para o inconsciente"; mas, de fato, há prova científica de que os implantes podem ser feitos, enquanto que toda a teoria da repressão não passa de mitologia freudiana, sem nenhum apoio empírico.)

O trabalho clássico de Loftus nessa área foi um experimento chamado "perdido no shopping". Resumindamente: voluntários receberam pequenos relatos sobre suas infâncias, escritos por pais ou outros parentes, nos quais havia sido inserido um episódio falso: o dia em que o voluntário se perdeu num shopping center. A missão dos voluntários era elaborar um pouco mais cada episódio dos relatos, acrescentando suas lembranças pessoais à do pai ou parente. 

Resultado: 25%  dos voluntários descreveu com detalhes como haviam se perdido no shopping. Experimentos posteriores foram capazes de elevar o índice de confabulação de memória falsa a fantásticos 50%.

A prova de que memórias falsas podem ser implantadas causou uma pequena revolução no sistema judiciário dos Estados Unidos, diz a nota da AAAS, evitando a condenação de um sem-número de inocentes.


Big Pharma e os testes clínicos

A melhor forma de uma proposta de tratamento de saúde ganhar alguma respeitabilidade científica é por meio de um teste clínico randomizado controlado. O nome pode parecer complexo, mas o procedimento é fácil de descrever:

"Controlado" significa que o tratamento em estudo precisa ser comparado a alguma outra coisa -- a outro tratamento, por exemplo, ou a simplesmente não fazer nada (já que muitas doenças acabam desaparecendo por conta própria).

Já "randomizado" implica que as pessoas que tomam parte no teste são distribuídas ao acaso entre o grupo que receberá o tratamento e o grupo de controle. Isso é feito para evitar que a comparação final dos resultados dos dois grupos seja injusta -- por exemplo, com apenas doentes terminais no grupo de teste e apenas jovens nos estágios iniciais da enfermidade no grupo de controle.

Esse procedimento é ditado por nada além de simples bom-senso e, como tudo que se baseia em bom-senso,  foi descoberto, aplicado, esquecido e redescoberto diversas vezes ao longo da história.

A descoberta de que frutas cítricas curam escorbuto -- uma doença que dizimava as tripulações navais -- , feita em 1747, ocorreu por meio de um teste do tipo: o médico de um navio selecionou 12 marinheiros que estavam mais ou menos no mesmo estágio da doença, transferiu-os para uma mesma cabine, submeteu-os a uma mesma dieta -- para controlar causas ambientais -- dividiu-os em seis duplas e deu a cada dupla um tratamento diferente. Os que receberam laranjas e limões sararam.



Atualmente, pelo menos 80% de todos os testes clínicos do tipo feitos no mundo são patrocinados por grandes indústrias farmacêuticas. Esse dado, somado ao fato de que a esmagadora maioria das terapias ditas "holísticas" ou "alternativas" fracassa fragorosamente quando submetida ao protocolo, leva algumas pessoas a afirmar que todo o conceito de "teste clínico" e de "respeitabilidade científica" é arbitrário, uma empulhação criada para nos empurrar remédios e procedimentos caros.

(Curiosamente, não parece ocorrer a essas pessoas que os conceitos de "alternativo" e "holístico" talvez se encaixem de forma muito melhor nessa caricatura desabonadora.)

A acusação, no entanto, não tem fundamento lógico: dizer que a "Big Pharma" está por trás do poder de convencimento dos testes clínicos faz tanto sentido quanto dizer que as empreiteiras estão por trás das leis da física que mantêm os prédios bem construídos em pé.

Isso não significa, é claro, que o fato de a grande indústria financiar a maior parte dos testes não tem efeitos deletérios. Existe um livrinho inglês que todas as pessoas interessadas em ciência e política de saúde deveriam ler, chamado Testing Treatments, que apresenta várias distorções criadas por essa concentração de financiamento. Abaixo, um resumo:

Resultados negativos suprimidos: quando um candidato a tratamento fracassa, os resultados acabam não sendo publicados;

Relatórios que douram a pílula: artigos científicos escritos por pesquisadores financiados pela indústria tendem a ver o copo "meio cheio", destacando os pontos positivos dos resultados e dando menos destaque aos riscos e pontos negativos;

Distorção de prioridades: testes com novas drogas acabam recebendo mais verba do que outros tipos de tratamento, como cirurgias;

Pesquisas desnecessárias: o mundo realmente precisa de mais um antiinflamatório, ou de uma nova droga para controlar a pressão arterial? No entanto, à medida que velhas drogas entram no domínio público, as empresas correm para encontrar novas moléculas com exatamente o mesmo efeito -- ou, no máximo, com um ganho modesto de poucos pontos percentuais de eficácia -- mas que possam ser patenteadas, o que leva ao item final da lista:

Investimentos colossais em propaganda e marketing: a indústria farmacêutica costuma dizer que precisa do dinheiro das patentes de remédios para poder investir em pesquisa. Isso é menos verdade do que parece: a maior parte do investimento dessas empresas é feita em propaganda. Com uma infinidade de moléculas que têm todas exatamente o mesmo efeito, como você convence o médico a receitar o produto do seu laboratório, e não o do concorrente ou o genérico equivalente? Pense um pouco e adivinhe.

Entre o fim do século XIX e durante toda a primeira metade do século passado, a indústria farmacêutica se acostumou a um modelo de negócio baseado em "moléculas milagrosas", como os antibióticos e os primeiros remédios para pressão alta. Essas eram substâncias patentetáveis e capazes de operar efeitos dramáticos, transformando pestes e pragas milenares em  meras lembranças, e que elevaram a expectativa de vida humana a níveis sem precedentes na história.

O problema é que, a partir da segunda metade do século XX, começou a parecer que todas as "moléculas milagrosas" já tinham sido descobertas. As doenças que restaram -- como câncer e Alzheimer, por exemplo -- resistem bravamente à abordagem de cura-por-pílula que funcionara tão bem contra a tuberculose, a peste negra ou a hanseníase. Mas o velho paradigma não mudou.

Não se trata de considerar as grandes companhias como vilãs (embora elas se comportem assim em algumas oportunidades), mas de reconhecer que elas têm como objetivo principal gerar dividendos para seus acionistas, e não cuidar da saúde do mundo.

(O mesmo vale, aliás, para os laboratórios homeopáticos, farmácias de manipulação, produtores de fitoterápicos e quetais.)

Mesmo a pesquisa realizada nas universidades sofre distorções causadas pelos tipos de incentivo a que os cientistas acadêmicos estão expostos. Em Testing Treatments, os autores citam a relutância em participar de grandes programas de pesquisa envolvendo vários centros de estudo (porque isso dilui a autoria); a relutância em realizar testes clínicos em seres humanos (por conta dos custos, da pressão ética e da burocracia); e o excesso de estudos em animais que nunca chegam a gerar benefícios para a saúde humana.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Poder da oração. Poder?

Rezar pode ter uma grande utilidade subjetiva -- ajuda a acalmar as emoções, focalizar a mente, reduzir o estresse. Mas, até aí, cantarolar, contar devagar até dez, meditar, ou ler as tirinhas do jornal ou respirar fundo também têm o mesmo efeito. 


Mas não é esse efeito prosaico (ainda que importante) o mais fervorosamente anunciado pela indústria da fé. Os verdadeiros efeitos da oração deveriam ser muito mais dramáticos. Como disse Jesus: "Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto". Mas será que o produto corresponde à propaganda?


A primeira tentativa científica de avaliar o poder da prece foi empreendida pelo britânico Francis Galton e publicada em 1872. Em seu artigo Statistical Inquiries into the Efficacy of Prayer (“Investigações Estatísticas da Eficácia da Prece”), ele oferece uma série de sugestões sobre como validar a ideia de que orações são úteis.

O plano geral, adotado até hoje em vários campos da pesquisa científica, é comparar a população de interesse com um grupo de controle – no caso, pessoas que rezam (ou que são objeto de oração) com pessoas de caráter mais secular ou que recebem menos preces.

Entre as comparações sugeridas por Galton estão: naufrágios de navios de missionários versus de navios de traficantes de escravos; tempo de recuperação de doentes religiosos e de doentes ímpios; mortalidade infantil em famílias religiosas e em famílias seculares.

Mas a parte mais famosa do artigo de Galton é a comparação da longevidade de membros de famílias reais com a de outros grupos de pessoas ricas. Por que a famílias reais? Porque, nas monarquias onde não há separação formal entre Igreja e Estado, a população reza pela saúde do rei na maioria dos serviços religiosos. 

A idade média em que a morte alcançava os homens de famílias reais, no período de interesse, era de 64,04 anos, de fato a menor entre todas as classes afluentes. O grupo mais longevo era o dos proprietários rurais (70,22 anos). 

Curiosamente, o resultado de Galton foi, de certa forma, reproduzido em 2006 pela “a investigação mais rigorosamente científica sobre se preces podem curar doenças” (palavras do New York Times), o estudo STEP, publicado no American Heart Journal em abril de 2006.

O trabalho envolveu pesquisadores de seis centros de estudos, avaliando 1.802 pacientes. Teve entre seus autores um padre católico, dois pastores batistas cerca de uma dezena de médicos. 

No estudo, pessoas submetidas a cirurgias coronárias foram divididas, de forma aleatória, em três grupos: 604 pacientes receberam orações depois de serem informados de que poderiam ou não ser alvo de preces; 597 não receberam orações, depois de ouvirem a mesma informação; enquanto outros 601 foram avisados de que seriam alvo de oração, e receberam as preces.

Os médicos e enfermeiros envolvidos no cuidado direto dos pacientes não foram informados de quem receberia ou não preces, para evitar que os profissionais se mostrassem, ainda que inconscientemente, mais (ou menos) atenciosos com membros de um ou outro grupo. 

Rezaram pela recuperação sem complicações dos pacientes selecionados três equipes de religiosos, sendo duas católicas – freiras carmelitas e beneditinas – e uma protestante, do grupo Unidade Silenciosa. Foi usada uma prece padronizada. As orações tiveram início na véspera de cada cirurgia e foram repetidas diariamente durante 14 dias consecutivos. O estudo foi realizado ao longo de vários anos, a um custo de US$ 2,4 milhões.

O que o STEP revelou foi que, entre os pacientes que não sabiam se receberiam ou não preces, a taxa de complicações foi praticamente idêntica, embora os alvos de oração tenham se saído ligeiramente pior: 52% desses apresentaram dificuldades pós-operatórias, contra 51% no outro grupo. Já no grupo de pacientes que tinha certeza de que era alvo de oração, a taxa complicações foi significativamente maior: 59% deles sofreram dificuldades após a cirurgia.

Críticas ao caráter “reducionista” da pesquisa – “má religião e má ciência”, nas palavras de um comentarista – obviamente não demoraram a aparecer. Seria curioso ver, no entanto, como muitos dos algozes do reducionismo científico reagiriam se os dados tivessem indicado um forte efeito positivo das preces.

(Esta postagem é um resumo bem resumido de parte do 'Livro dos Milagres', uma obra que escrevi reunindo as informações mais atuais sobre o estudo científico de fenômenos religiosos/milagrosos, e que será publicada assim que aparecer uma editora interessada...) 

E se a lei da inércia estiver errada?

O importante periódico científico Physical Review Letters deve publicar em breve um artigo que apresenta dados experimentais que militam a favor de uma teoria hoje em dia pouco favorecida pela comunidade, a Dinâmica Newtoniana Modificada, ou "Mond" (pela sigla em inglês). Basicamente, essa teoria postula que, em escalas muito específicas, a equação newtoniana F = m*a não corresponde exatamente aos fatos, e precisa receber um fator de correção.

Proposta como uma alternativa à teoria da matéria escura, a Mond (assim como a matéria escura) tenta explicar como as galáxias se mantêm coesas girando com a velocidade que giram, já que a massa visível que contêm não deveria ser suficiente para impedir que se despedaçassem.

Os propositores da Mond (seu principal defensor é o israelense Moti Milgrom) destacam o fato de que não é absolutamente necessário apontar para uma falta de massa: talvez as leis que usamos para calcular as forças envolvidas estejam erradas!

Trata-se de uma proposta ousada, mas Milgrom insiste que ela não é mais ousada do que pressupor a existência de enormes massas de partículas que ninguém vê, a matéria escura.

Ele diz ainda que a Mond é uma proposta mais honesta que a matéria escura. Seu ponto é a chamada questão da falsificabilidade: uma hipótese científica tem o dever de permitir, ainda que apenas em princípio, a realização de observações que podem prová-la falsa.

Milgrom argumenta que, uma vez dado o fator de correção para F = m*a, surge automaticamente uma série de previsões sobre o resultado de experimentos realizados na escala de influência da teoria. Já as hipóteses sobre matéria escura podem ser manipuladas à vontade para se encaixar, a posteriori, nos dados, e portanto não têm falsificabilidade.

Isso não é exatamente verdade: embora existam várias hipóteses sobre matéria escura, produzindo diferentes previsões, cada uma delas é falseável em si. Mas talvez ele esteja certo quanto ao conceito de matéria escura.

Em 2006, O Observatório Chandra de Raios X produziu um resultado que foi apresentado como a vitória do modelo de matéria escura sobre a Mond, ao permitir o cálculo da massa envolvida numa colisão entre dois aglomerados de galáxias. A imagem do Chandra tornou-se um clássico:



Onde a mancha roxa mostra a zona de influência da matéria escura. Em um artigo publicado na internet, Milgrom reconhece que a Mond não é capaz de dar conta do resultado, mas que a aplicação de sua hipótese, nesse caso, reduz a necessidade de se postular uma massa não-observada por um fator de 5, o que permitiria supor que essa massa existe sob a forma de estrelas de brilho tênue ou de neutrinos, em vez de uma quantidade enorme de partículas desconhecidas pela ciência.

(Críticas ao modelo da matéria escura também apareceram recentemente na Scientific American.)

Quem está certo nessa história? Não faço a menor ideia. A maioria dos físicos ainda parece preferir o modelo da matéria escura, então seguindo a sugestão de Bertrand Russell -- quando há um consenso entre os especialistas, o leigo faz bem em acompanhá-lo; quando os especialistas estão divididos, o leigo faz bem em calar a boca -- continuo a dar mais crédito às partículas misteriosas que não interagem com a luz.

Mesmo assim, acompanhar o debate não deixa de ser fascinante, à medida em que revela o que há de mais belo na ciência: a negação do dogmatismo, o confronto aberto de ideias, o recurso final ao dado empírico.

E a hipótese Mond não deixa de ser interessante em si mesma, mesmo que apenas para fins de ficção científica. Em um universo onde a Mond seja real, é possível que a equivalência entre gravidade e inércia não seja mais tão exata quanto supomos, por exemplo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Livro proibido de Galileu faz aniversário



Via Twitter, o @PhysicsNews informa que hoje é aniversário da publicação de Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, de Galileu Galilei. Lançado em  fevereiro de1632 (ou seja, há 379 anos), o livro teve sua distribuição sustada pelo papa Urbano VIII alguns meses mais tarde, e foi posto no índice de obras proibidas da Igreja Católica em 1633, da onde só foi removido em 1835.

É nesse livro que Galileu apresenta seus argumentos a favor do sistema heliocêntrico, num diálogo entre Salviati (filósofo seguidor de Copérnico), Simplicio (filósofo seguidor de Aristóteles e Ptolomeu) e Sagredo (um espectador neutro). Por conta desse livro, Galileu foi condenado por heresia e mantido em prisão domiciliar até o fim da vida.

Algumas tentativas de fazer a Igreja parecer um pouco menos obscurantista no episódio tentam jogar a culpa do desenlace sobre Galileu, que teria sido pouco político ao construir o personagem de Simplicio -- nessa ótica, a condenação do livro e do autor não seria uma condenação da ciência, mas sim da falta de tato em expô-la.

De qualquer forma, a Igreja Católica só passou a autorizar a discussão, em material impresso, de ideias heliocêntricas em 1822. Isso foi cerca de uma década antes da confirmação experimental da paralaxe estelar -- uma aparente mudança na posição de objetos no céu causada pelo movimento da Terra em torno do Sol -- mas um século depois da explicação da "aberração da luz", um fenômeno em que a luz de um corpo celeste parece vir de um ponto diferente de sua origem real, também causado pelo movimento da Terra, como exemplifica a imagem abaixo, vinda da Wikipedia (em resumo, o movimento do telescópio, que se desloca pelo espaço junto com a Terra, faz com que a luz, originária do ponto 1, pareça vir do ponto 2):



Antes disso, em 1664, o papa Alexandre VII havia confirmado, por meio de bula, a condenação de "todos os livros que ensinam o movimento da Terra em torno do Sol".

Por que deveria haver nada em lugar de alguma coisa?

Se um dia eu fosse criar um teste de personalidade baseado em perguntas filosóficas de múltipla escolha, o primeiro item provavelmente seria:

Você acha que a questão "por que existe alguma coisa em vez de nada?" é:

(A) Um intrigante problema,  para o qual talvez não haja resposta;
(B) Um sinal da existência de um criador necessário, isto é, Deus;
(C) Fruto de de um raciocínio circular, e que não requer resposta;
(D) Algo que as pesquisas sobre Física teórica resolverão um dia.

Minha resposta particular seria "c" (com uma certa simpatia por "d"), mas imagino que isso me põe num grupo francamente minoritário, então me explico.

A questão, da forma como foi articulada por Leibniz em seu argumento da razão suficiente, me parece circular porque ela pressupõe (sem demonstrar) a premissa de que o "nada" é um estado possível, uma alternativa válida a "alguma coisa". Por exemplo, a questão "por que a chuva cai em vez de subir" pressupõe que ir para cima é uma possibilidade -- algo facilmente demonstrável.

A possibilidade do "nada" absoluto como alternativa viável e plausível a "alguma coisa" é, no entanto, muito mais difícil de estabelecer.

Uma forma de tentar fazer isso é argumentar pela simplicidade: "nada" é simples, "alguma coisa" é complexo, e a experiência mostra que coisas complexas requerem mais explicações que coisas simples. Outra saída seria pelo princípio do menor esforço: se ninguém se mexe, nada acontece. Logo, para haver alguma coisa, é preciso trabalho e direção.

Esses dois argumentos, no entanto, são generalizações indevidas de particularidades muito específicas da experiência humana, a saber, da experiência do trabalho humano.

Não é verdade que, se ninguém faz nada, nada acontece. Muita coisa acontece: o vento sopra, a grama cresce, os planetas seguem em suas órbitas. É verdade que em nossas sociedades praticamente nada do que nos cerca -- móveis, computadores, arroz, feijão -- existiria sem o esforço de outros seres humanos, mas generalizar da Avenida Paulista para o Universo envolve uma dose cavalar de arrogância.

Já a alegação da "simplicidade" do nada é ainda mais problemática. Não apenas o "nada" físico -- o vácuo -- vem se revelando algo extremamente complexo, como o conceito abstrato de "nada" requer uma boa dose de contorcionismo linguístico e mental: se estamos falando sobre nada, então do que estamos falando?

Se você não viu nada, então isso significa que você  viu alguma coisa?  A própria adoção do zero foi uma manobra revolucionária na história da matemática. É muito mais simples discutir "alguma coisa" do que "nada".



Imagino que os parágrafos acima tenham me deixado aberto à acusação que fiz aos defensores da excepcionalidade de "alguma coisa": a de provincianismo e antropocentrismo. Não é porque, poderiam dizer-me, nossas mentes miúdas têm dificuldade em entender o nada que ele não poderia ser, objetivamente, mais simples que alguma coisa. Afinal, o nada é nada. Não tem partes. Não segue regras. Não obedece a leis. Não cresce, não muda, não se transforma. Ele é mais simples do que "alguma coisa" da mesma forma que uma pedra é "mais simples" do que uma árvore.

Mas será? Um critério objetivo muitas vezes usado para medir complexidade é -- estou passando por cima de uma enorme discussão conceitual aqui, desculpem-me -- o número de formas em que uma coisa poderia ser alterada e continuar a ser ela mesma.

Por exemplo, o ar no meu escritório continuará a ser o ar no meu escritório, não importa se a molécula de CO2 que acabo de exalar vai parar no canto superior esquerdo ou no canto inferior direito da sala. Já a mudança de posição de uma só molécula no meu cérebro poderia me transformar em outra pessoa -- num astrólogo, talvez! -- portanto, eu sou mais complexo que a massa de ar que preenche o meu escritório.

(Repare que esse critério também funciona no exemplo anterior, da pedra e da árvore.)

O que nos traz à questão: de quantas maneiras diferentes é possível ser "nada"? Imagino que de apenas uma. Qualquer mudança transformaria o "nada" em alguma coisa. E de quantas formas é possível ser "alguma coisa"?

Melhor não tentar contar.

(A foto acima é de um tardígrado, um animal capaz de sobreviver no vazio do espaço)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

108 meses ou sete anos? Enganados pelas unidades

O que é mais vantajoso: uma ampliação da garantia de sua máquina de lavar de 84 para 108 meses ou de sete para nove anos? Parando para fazer a conta, dá para ver que se trata da mesmíssima coisa: uma ampliação de 24 meses, ou dois anos.

(Incidentalmente, 84 meses equivalem a sete anos, e 108, a nove).

No entanto, de acordo com estudo publicado do site do Journal of Consumer Research -- e chamado How to Make a 39% Increase Look Bigger ("Como Fazer um Aumento de 39% Parecer Maior") -- a maioria das pessoas vê mais vantagem quando a ampliação de garantia é expressa em meses, não em anos.

Os autores do trabalho, de instituições belgas e holandesas, encontraram ainda outros exemplos do mesmo efeito: as pessoas tendem a achar que uma nota de 95 numa escala de 0 a 100 é maior que uma nota de 9,5 de 0 a 10, e a evitar chocolates quando o conteúdo energético (e, por tabela, o poder engordativo) é expresso em quilojoules (1.029 numa barra de Twix) do que na familiar escala de calorias alimentares (246, para o mesmo doce).

Em princípio, esse fenômeno parece ser mais um caso daquilo que o matemático John Allen Paulos chama de "innumeracy" ("anumerismo", ou "analfabetismo de números"), mas a mim me parece mais um exemplo dos limites da intuição humana, a mesma faculdade mental tão adorada pelos românticos de todas épocas e que insiste em nos dizer que a Terra é chata e fica no centro do Universo.

Nesse caso, o erro intuitivo está em comparar valores numéricos sem prestar atenção nas unidades e seus significados. O efeito desapareceu, disseram ou autores, quando os voluntários prestaram atenção nos atributos medidos, ou foram lembrados da escolha arbitrária de unidade.

Lembre-se disso da próxima vez que for às compras.

Kafka e eu: a saga do seguro desemprego

Hoje, cerca de 90 dias após ter sido demitido, recebi a primeira parcela do meu seguro-desemprego. A trajetória entre o bilhete azul (que, estranhamente, não era azul, mas uma folha de sulfite comum) e este momento é tão engraçada -- numa perspectiva, digamos, filosófica -- que tomo a liberdade de oferecer uma pequena crônica a respeito.

Enfim: meu último dia "oficial" como assalariado foi 7 de dezembro. O fato de o seguro-desemprego estar saindo em 21 de fevereiro traz consigo a pergunta, e se eu realmente estivesse precisando do dinheiro? Com escola dos filhos para pagar e dívidas no banco? Passando fome?

A saga tem início no RH (ou "DP", como preferem as telefonistas não-escoladas em novilíngua corporativa). Para solicitar o seguro, é preciso um documento emitido pela empresa, o termo de rescisão -- um papel  que diz que você não trabalha mais lá. Curiosamente, o bilhete azul/sulfite comum não serve. Oh, não senhor. É preciso um papel oficial. Este só se recebe (ou eu só recebi) na homologação, que por sua vez só foi feita em meados de janeiro.

De posse do papel, vai-se ao Poupa-Tempo (com um monte de outros documentos, porque no Brasil o governo só acredita que o cidadão é quem diz ser sob coação extrema) e faz-se a solicitação. O seguro então é liberado, via Caixa Econômica Federal, 30 dias depois.

(Ah, sim: para resgatar o FGTS, é preciso ir pessoalmente a uma agência da CEF, de posse do mesmo papel de demissão. Então, não seria mais simples resgatar o FGTS e pedir o seguro-desemprego numa tacada só? Claro que seria. Mas o pessoal da CEF não deixa: é preciso perder tempo indo, com exatamente a mesma documentação, ao Poupa-Tempo.)

Só isso? Claro que não. É preciso ligar num 0800 da CEF e solicitar um "cartão do cidadão" (deveria ser "cartão do palhaço pagador de impostos", mas novilíngua não é privilégio corporativo). Que leva uns 15 dias para chegar. E é preciso ir pessoalmente a uma agência da CEF para cadastrar a senha do cartão.

Para cadastrar a senha é necessário, além de encarar a fila, ter em mãos um documento com foto. Carteira de motorista vencida não serve -- o que é engraçado, porque o fato de o cidadão não estar mais apto a conduzir veículo automotor não interfere em nada com sua aparência física e/ou com o número de seu RG e CPF -- então, tem de ser o RG.

(Aquele que o cidadão tirou para prestar vestibular, com uma foto que já tem lá uns 25 anos, anos e que é, objetivamente, um documento de identificação muito mais precário que a carteira de motorista vencida, onde, ora bolas, aparece uma foto de apenas três anos atrás.)

E então o cidadão apresenta o RG, apenas para ouvir da simpática atendente que a plastificação do documento é irregular e que ele, portanto, não será aceito. A senha não pode ser cadastrada. O senhor não teria a carteira de trabalho aí?

Não. Não teria. Conhecedor, no entanto, das inconsistências da burocracia, o cidadão cruza a cidade a pé -- desempregado tem tempo de sobra, afinal -- em busca de outra agência da CEF. Onde, apresentando o mesmíssimo RG com a mesmíssima plastificação, consegue, sem maiores atropelos (exceto a onipresente fila) cadastrar uma senha.

Agora, o cidadão tem conta em bancos privados. A CEF é um banco. Bancos realizam transferências interbancárias. O valor do seguro-desemprego poderia, talvez, ser transferido diretamente para uma das contas do supracitado cidadão? Não. Seria, então, possível usar o "cartão do cidadão" para sacar o valor do seguro-desemprego em caixas automáticos ligados à rede da CEF? Também não.

Para receber, é preciso ir a uma lotérica com o cartão e RG e sacar o valor integralmente, em dinheiro.

A exigência obsessiva do RG é interessante. Para sacar o dinheiro é preciso levar o cartão, digitar uma senha e mostrar o documento com foto. Medidas para a segurança do cidadão, dirá você? Claro, forçando-o a entrar num estabelecimento, uma lotérica, sem portas automáticas ou detectores de metal, e a sair de lá para a rua com um pacote de dinheiro vivo que pode representar a soma total de seus rendimentos mensais. Seguro pra caramba.

Isso, é óbvio, supondo que a lotérica tenha dinheiro suficiente em caixa para pagar o seguro. Porque o cidadão pode ficar na fila por um tempo considerável apenas para chegar na boca do caixa e ser avisado de que não há dinheiro para fazer o pagamento naquele momento. Ou não há troco. Ou ambos.

É apenas na segunda (ou terceira) lotérica que o seguro finalmente é pago.

O Estado brasileiro -- seria apenas o brasileiro? -- tem o hábito arraigado de esquivar-se do trabalho, por meio da criação de dificuldades para o cidadão.

O exemplo mais claro disso para mim havia sido, até hoje, a tentativa do governador Geraldo Alckmin, em seu primeiro mandato, de convencer o governo federal a proibir os telefones celulares pré-pagos, a fim de evitar rebeliões em presídios: dada a incompetência das autoridades de segurança, reduzam-se os direitos do o cidadão honesto.

A saga do seguro-desemprego passa a ser uma segunda instância em minha memória pessoal. Das salvaguardas fajutas  ao arbítrio burocrático, várias das dificuldades criadas artificialmente no processo poderiam ser reduzidas com um pouco mais de esforço e inteligência por parte dos agentes públicos. Mas, aí, é melhor esperar sentado -- quando não se estiver em pé numa fila.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Voo final do Discovery marcado. De novo.



A Nasa decidiu marcar para a próxima quinta-feira o lançamento derradeiro do ônibus espacial Discovery. Dá para acompanhar a contagem regressiva online neste link.

Para quem não se lembra, diretriz dada pelo então presidente George W. Bush em 2004 determinava que a frota de ônibus espaciais dos EUA iria parar de voar em 2010. O Endeavour já fez sua última missão oficial, mas ainda falta aposentar o Discovery e o Atlantis (Challenger e Columbia foram destruídos).

O voo final do Atlantis acabou adiado de 2010 para junho deste ano por conta de mudanças no equipamento científico que a nave terá de levar à Estação Espacial Internacional (ISS), mas o atraso na aposentadoria do Discovery tem uma causa mais embaraçosa: problemas na segurança do tanque de combustível da nave.

De fato, a sucessão de adiamentos na partida derradeira do Discovery é uma espécie de resumo do fracasso do programa de ônibus espaciais.

Vendidos como os veículos que tornariam o acesso à órbita terrestre fácil, rápido e barato -- a ficção científica americana da década de 80 está toda povoada por cidades orbitais, empresas com sede no espaço, ônibus espaciais comerciais, etc. -- eles acabaram se mostrando caros, complexos e inseguros demais.

Da promessa inicial de um lançamento por semana, o programa terá realizado, entre sua estreia em 1981 e seu encerramento, em 2011, 133 voos ao longo de 30 anos, ou pouco mais de 8% da frequência esperada.

Compreensivelmente, as cidades espaciais e as megacorporações orbitais não se materializaram. Na verdade, essas esperanças nunca foram muito mais sólidas do que o projeto de Wernher von Braun de colonizar Marte usando uma frota gigantesca de naves de propulsão nuclear e asas-delta (não estou brincando: leia aqui).

A Nasa, no entanto, passou décadas em estado de negação -- como o marido traído que se recusa a enxergar as provas claras de infidelidade ao seu redor.

Em 1983, por exemplo, um estudo encomendado pela Força Aérea Americana calculou que o risco de um ônibus espacial explodir no lançamento era de cerca de 3% -- um número positivamente aterrador, já que basicamente garantia a ocorrência de um desastre ao ano se fosse mantido o ritmo de um lançamento por semana, como previsto.

Em resposta, a Nasa disse que preferia adotar um "julgamento de engenharia" que punha o risco de explosão no lançamento em 0,001%. Após do desastre do Challenger, o físico Richard Feynman, que tomou parte na investigação da tragédia, disse que "até onde consigo entender, 'julgamento de engenharia' significa inventar os números!".