sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pô, sacanearam o Besouro Verde...

Às vezes (mais do que gostaria, para ser sincero) acabo dando à minha mulher motivo para me olhar como se eu fosse um marciano recém-caído na Terra. O mais recente foi no jantar de ontem, quando me queixei de que o filme do Besouro Verde tinha sido feito em tom de paródia.

-- O cara se chama Besouro Verde e você queria um filme sério? -- disse-me ela, estupefata, um misto de espanto e piedade em seus lindos olhos azuis arregalados.

Pois é. Eu queria. O personagem me intriga desde que assisti a episódios do seriado de TV com Bruce Leee e Van Williams. A ideia de um herói mascarado de sobretudo que se faz passar por gângster tem apelo, e me parecia cheia de potencial a ser realizado, à la Batman Begins, por exemplo.

Ah, sim: para que não achem (como minha mulher) que estou viajando na maionese, Matt Wagner escreveu uma bela minissérie, Green Hornet: Year One, nessa mesma premissa. E, nos anos 80 e 90, Ron Fortier produziu, para a NOW Comics, uma ambiciosa saga familiar envolvendo várias gerações de Besouros e Katos. Se a arte não era lá grande coisa e o roteiro às vezes sofria daquela mania da década de 80 de reduzir todos os heróis a fraudes ou psicopatas, o senso de potencial estava lá, de novo.

Talvez uma peça de época, algo entre Chandler e Spillane, com alguns toques do Sandman da Era de Ouro? O filme poderia ter saído por aí. Em vez disso...

Além do quê, o personagem tem pedigree. O Besouro Verde é parente do Lone "Zorro" Ranger. Ambos os personagens não só surgiram na mesma estação de rádio e sob os auspícios da mesma equipe criativa, como tinham diversos paralelos, incluindo o assistente "étnico" (Tonto, índio; Kato, japonês), como ainda mantêm uma relação de sangue: embora, por questões de direitos autorais, ela não seja explicitada atualmente, há insinuações, principalmente na série da NOW Comics, que o Besouro é sobrinho-neto do Ranger.

Mas de repente estou sendo chato e preconceituoso quanto às paródias em geral. A nova franquia cinematográfica da Múmia me deixou agoniado -- eu esperava algo com a atmosfera do filme de Boris Karloff e os caras vieram com uma imitação barata de Indiana Jones.

Minha impressão pessoal é a de que coisas como heróis mascarados e múmias ressuscitadas são tão intrinsecamente ridículas que parodiá-las é meio como bater em bêbado ou chutar cachorro morto...


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Retrato de um sistema solar enquanto jovem



O Instituto Max Plank de Astronomia divulgou ontem a imagem de um disco protoplanetário -- o disco ede poeira que se forma em torno de uma estrela nascente, e onde acabam surgindo os planetas.

A imagem, feita com o telescópio Subaru, no Havaí, mostra, sob a forma de uma barra branca, a luz refletida pelo disco de material em rorno da estrela LkCa 15, a 450 anos-luz da Terra. A estrela em si está coberta pelo disco preto no centro da imagem, para que sua iluminação direta não ofusque a imagem do que existe nos arredores.

O Max Planck fez ainda um informativo infográfico descrevendo exatamente o que se vê na imagem (as legendas, infelizmente, estão em inglês -- quando o blog for rentável o suficiente para eu contratar um editor de arte, isso não acontecerá mais, prometo).




A teoria dominante, hoje, sobre formação planetária diz que mundos como a Terra ou Júpiter nascem a partir de diferenças na cocentração de matéria nesses discos: os pontos mais densos atraem mais matéria para si e começam a crescer. Esse cresimento gera planetesimais -- asteroides com esteroides -- que passam a colidir entre si, até um momento em que todos os (ou a maioria dos) corpos em órbitas instáveis já tenham sido incorporados a planetas ou engolidos pela estrela.

Uma questão que sempre me intrigou é por que as estrelas jovens têm discos, e não nuvens protoplanetárias: se você parar para pensar, a gravidade atrai todas as partículas da mesma forma em toda a extensão do espaço, então por que o que começa como uma bolha tridimensional de gás e poeira acaba se reduzindo a uma estrutura bidimensional, o disco?

A resposta, bem óbvia depois de revelada, é conservação do momento angular: as partículas, afinal, estão girando em torno do centro da nuvem, onde a estrela começa a se formar. Uma consequência das leis de Newton é que um corpo com uma rotação de raio "R" e velocidade "V" tende a conservar o produto RxV: se R cai, V, aumenta (aqui é onde escritores sem imaginação usam o exemplo da patinadora que gira cada vez mais depressa à medida que aproxima dos braços do corpo). A imagem abaixo veio desta página:



Por conta disso, conforme o material vai caindo em direção ao centro da nuvem, mais depressa a nuvem passa a girar. A interação entre as forças envolvidas -- a atração gravitacional do centro da nuvem e a rotação cada vez mais rápida das partículas -- é o que faz com que a massa protoplanetária acabe assumindo a forma de um disco com uma protuberância no centro.

Astronomia e os rumos da história

Acho que o truque -- que já virou clichê -- foi usado pela primeira vez, na ficção, por Mark Twain em A Connecticut Yankee in King Arthur's Court: o fim de um eclipse solar é tratado como "prova", diante de um populacho ignorante, dos poderes superiores de alguém. Agora, de acordo com astrônomos da República da Georgia (parte da antiga União Soviética), algo parecido pode ter levado à adoção do cristianismo como religião oficial do país, entre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média.

O mito da cristianização da Georgia diz que o Rei Mirian, lá pelo século IV, estava caçando numa floresta quando, de repente, o Sol desapareceu. O monarca então começou a desfiar um catálogo de deuses, pedindo a cada um deles que trouxesse o Sol de volta, mas só foi atendido quando apresentou sua solicitação ao "deus de Nino" (Nino, no caso, era uma missionária cristã, depois canonizada; veja ícone ao lado).

De acordo com o "paper" disponibilizado no Arxiv, até o século passado não havia registro de um eclipse total do Sol na Georgia durante o século IV, mas novas tabelas, criadas pela Nasa, mostram que de fato houve um eclipse total visível no país em 6 de maio do ano 319. No ano 320, cruzes foram erguidas pelo país e o cristianismo, oficializado.

Este não foi, é claro, o primeiro eclipse a alterar o curso da história. Em 28 de maio de 585 AEC, uma batalha entre medos e lídios, onde hoje é a Turquia, foi interrompida por um eclipse do Sol — interpretado, por ambos os lados da refrega, como um sinal de desaprovação, pelos deuses, da carnificina.

Mas o eclipse da Georgia levanta algumas questões curiosas sobre o papel do acaso na história. Vamos supor que a sombra da Lua tivesse libertado o Sol em algum outro ponto da oração do rei (não é difícil imaginá-lo de cabeça baixa e murmurando: "Por favor, Ísis, por favor, Ares, por favor, Júpiter, por favor, Mitra, por favor, Dionísio, por favor..."). Que rumo a Europa Oriental teria tomado?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Saiu Assembleia Estelar!

O editor Marcello Simão Branco me avisa que já está pipocando por aí o livro Assembleia Estelar, uma antologia de mais de 400 páginas reunindo contos de ficção científica com temática política. Além de pesos-pesados como Ursula K. LeGuin e Bruce Sterling, o livro traz trabalhos de diversos autores brasileiros (eu, entre eles).

Meu conto, Questão de Sobrevivência, passa-se num futuro próximo e trata da tensão política e ética entre um movimento social e seus "patrocinadores" secretos. E contém uma dose moderada de porrada, claro, que personagem meu tem de ralar, não basta ficar choramingando solilóquios pelos cantos.

(O conto foi publicado originalmente numa revista, mas o revisor fez tantas e tamanhas barbaridades com o texto que considero essa primeira versão totalmente apócrifa. Uma segunda versão saiu na antologia Tempos de Fúria, em relação à qual o texto que aparece em Assembleia tem algumas pequenas diferenças.)

No momento em que escrevo, o livro ainda não se encontra catalogado no site da Livraria Cultura ou no da Devir (a editora responsável), mas deve ser questão de (pouco) tempo.

PM-PB vira igreja evangélica. Ou: Estado laico? Onde?

Minha esperança é de que esta notícia, dando conta de um programa de disseminação da religião evangélica pela Polícia Militar, tenha sido inserida no site do governo do Estado da Paraíba por um hacker, mas confesso que não é uma esperança muito grande. Um excerto:

"O projeto foi elaborado pelo comandante da companhia, o capitão Fabian, juntamente com o pastor e cabo Marcílio. O objetivo é usar a palavra de Deus para ajudar na diminuição da criminalidade da região. “Além da força repressiva e preventiva da Policia Militar, é necessário ir de encontro à fonte dos problemas e a orientação religiosa pode transformar vidas nestas cidades”, argumenta o capital Fabian."

(...)

"Segundo o pastor, com tão pouco tempo já é possível notar uma diferença dentro da companhia. “A ação foi bem aceita pelos militares e nossa expectativa é que ocorra o mesmo na sociedade, para enfim notarmos uma diferença na redução da criminalidade. Os cultos são realizados na sede da 2ª Companhia, em Mamanguape, nas terças-feiras, das 15h às 17h."

Da última vez que consultei a Constituição da República Federativa do Brasil, dizia lá que "É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público" (artigo 19, pode conferir).

O fato de termos crucifixos pendurados em tribunais e câmaras legislativas de todo o País é um forte indicador de que a interpretação dessa norma é um tanto quanto elástica (para dizer o mínimo). 

Aqui em Jundiaí -- de onde escrevo -- existe há anos uma honraria concedida pela Câmara  Municipal, o chamado Diploma do Mérito Religioso, dada a pessoas que se destacam em "testemunhar e professar a fé cristã". Talvez os muçulmanos -- temos uma bela mesquita na cidade -- e os seguidores de religiões afro tenham reclamado mas, se o fizeram, ninguém prestou atenção.

No caso específico da Paraíba, talvez a PM tenha ido um pouco longe demais, mesmo dentro da nossa longa tradição jurídica de vistas grossas para com princípios democráticos básicos. 

É, por exemplo, possível que a Igreja Católica reclame -- a hierarquia católica adora o Estado laico, desde que seja para a religião dos outros -- e faça algum tipo de manifestação. Até que acabe sendo acomodada com a inclusão de um padre e de uma ou duas missas no programa, claro.

PS

Por alguma razão, o link para a matéria no site do governo paraibano parou de funcionar. Mas a chamada para o texto continua disponível, como se vê na imagem abaixo:


Projeto "resgatando vidas" é o nome da fofa iniciativa. Para fins de registro histórico, reproduzo, abaixo, a íntegra do que estava publicado até algumas horas atrás:

Batalhão da PM implanta o projeto "Resgatando vidas"


A 2ª Companhia do 7º Batalhão da Policia Militar da Paraíba, sediada em Mamanguape, deu inicio ao projeto `Resgatando vidas', que consiste num trabalho evangélico que dissemina os escritos bíblicos.

O projeto foi elaborado pelo comandante da companhia, o capitão Fabian, juntamente com o pastor e cabo Marcílio. 
O objetivo é usar a palavra de Deus para ajudar na diminuição da criminalidade da região. "Além da força repressiva e preventiva da Policia Militar, é necessário ir de encontro à fonte dos problemas e a orientação religiosa pode transformar vidas nestas cidades", argumenta o capital Fabian.

O projeto começou no dia 1º de fevereiro com o culto de abertura dirigido pelo pastor-cabo Marcílio. Também esteve presente o major
Lúcio, presidente da União dos Militares Evangélicos da Paraíba, o major Almeida (subcomandante do 1º BPM), e o pastor Cláudio (da Igreja Batista Renascer).

Segundo o pastor, com tão pouco tempo já é possível notar uma diferença dentro da companhia. "A ação foi bem aceita pelos militares e nossa expectativa é que ocorra o mesmo na sociedade, para enfim notarmos uma diferença na redução da criminalidade. Os cultos são realizados na sede da 2ª Companhia, em Mamanguape, nas terças-feiras, das 15h às 17h.

O mesmo material foi aproveitado num site paraibano sobre segurança pública, o ParaíbaQAP.

PS do PS

Fuçando um pouco mais, achei este link, para uma página interna do site oficial da PM-PB. Abaixo, o printscreen do release, em toda sua glória:


Pessimismo neutraliza até analgésico

O pessimista tem a vantagem de nunca receber surpresas desagradáveis, diz o clichê. Mas ele pode também estar se privando de algumas coisas que, se não exatamente surpreendentes, certamente são agradáveis. Alívio da dor, por exemplo.

De acordo com experimenmto descrito na edição mais recente da revista Science Translational Medicine (STM), voluntários submetidos a uma dor controlada -- com uma fonte de calor encostada na panturrilha -- receberam um fluxo de solução salina que poderia conter ou não o analgésico remifentanil. Em alguns casos, os cientistas disseram aos voluntários que a solução já estava "dopada" com o analgésico; em alguns casos, deixaram o analgésico correr sem avisar ninguém; e ainda em outros casos, disseram que seria administrada uma droga que aumentaria a dor. Pediu-se aos voluntários, ainda, que dessem uma "nota" para a intensidade da dor que sentiam, de 0 a 100.

Resultado: os pacientes que tinham sido informados de que estavam recebendo o analgésico tiveram uma redução da intensidade média de dor de 66 para 35. Os que receberam o analgésico sem serem informados viram a dor cair de 66 para 55. Já os que foram avisados para esperar uma intensificação da dor viram a taxa média cair de 66 para 64.

(Esse último resultado é um lembrete de que o poder das expectativas também tem limites: o pessimismo virtualmente neutralizou a analgesia, mas não foi capaz de invertê-la. Fãs de O Segredo, tomem nota.)

Esse tipo de efeito já havia sido documentado em estudos anteriores, principalmente envolvendo comparação entre placebos. O médico e jornalista britânico Ben Goldacre conta o caso de um estudo realizado com estudantes que receberam pílulas -- azuis ou rosadas -- antes do início de uma palestra especialmente chata, sendo informados de que estariam tomando um sedativo ou um estimulante, mas sem saber qual pílula era o quê. De fato, ambas eram de açúcar. No fim, demonstrou-se que a rosada teve efeito estimulante e a azul, sedativo.

Outro estudo, com a substância oxazepram, mostrou que ela funcionava melhor como ansiolítico quando embalada numa cápsula verde, e como antidepressivo numa cápsula amarela.

O estudo na STM traz a novidade de ter sido feito com a tomada concomitante de imagens do cérebro dos voluntários, o que permitiu aos cientistas ver a operação fisiológica da expectativa. No caso do grupo que havia recebido a previsão pessimista, houve ativação de áreas do cérebro relacionadas à ansiedade.

Para relembrar Ellery Queen, o homem-labirinto

Terminei de reler há pouco The Greek Coffin Mistery, romance da fase clássica de Ellery Queen. Movido por uma certa nostalgia, republico aqui, com algumas poucas modificações, um artigo que havia escrito depois de ler o livro pela primeira vez, em 2006. 

Jorge Luis Borges era fascinado por labirintos, e por isso não espanta que tenha se encantado com o trabalho de uma dupla de americanos, dois primos que também eram “Ellery Queen”.

Quem tem o prazer de entrar em contato com a obra literária de Ellery, hoje em dia, cedo ou tarde será informado de que “Ellery Queen” foi o pseudônimo adotado por dois primos, Frederic Dannay (1905-1982) e Manfred Bennington Lee (1905-1971), para entrar num concurso de romances policiais, em Nova York, em 1928. “Ellery Queen” também é o nome do detetive que resolve o caso apresentado no livro. E isso é verdade, mas não toda a verdade.

Primeiro, tanto “Frederic Dannay” quanto “Manfred B. Lee” também eram, de certa forma, pseudônimos (ou, pelo menos, “nomes artísticos”). Os primos chamavam-se Daniel Lathan e Manford Lepofsky.

O labirinto se aprofunda: de acordo com o prefácio de The Roman Hat Mystery (1929), primeira aventura publicada da dupla, “Ellery Queen” é o pseudônimo adotado por um detetive e escritor americano que vive na Itália. “Ellery Queen” já havia publicado livros “sob seu nome verdadeiro”, mas agora escolhia usar o pseudônimo porque o livro em questão é a “versão ficcional de um caso real”. O Ellery que vive na Itália, assim como seu alter-ego dentro do livro, é filho de um inspetor da polícia de Nova York. Esse inspetor, “Richard Queen” (outro pseudônimo), está na Itália, aposentado, mas estava na ativa na época dos “fatos” narrados nos livros de Ellery.

Assim, o que temos? Um detetive-escritor que escreve sobre as aventuras de um detetive que também é escritor, sendo que ambos são a mesma pessoa – ou quase, porque o Ellery do livro é uma “versão ficcional” do Ellery real. É como se você estivesse na Internet lendo um artigo sobre uma pessoa que está na Internet lendo um artigo sobre uma pessoa que está na Internet...

Barnaby Ross

Enfim, não acaba nunca. O prefácio desse primeiro livro e dos nove Ellery Queens que se seguiram imediatamente a ele era assinado pelas misteriosas iniciais “JJMcC”, supostamente um corretor da Bolsa que conhecia a família Queen e que convencera Ellery a publicar seus casos “reais” (em oposição aos casos “ficcionais” que, como romancista, ele também escrevia, para aumentar nossa confusão). As únicas informações que temos sobre a vida “real” dos Queens vêm desses prefácios. A partir do décimo-primeiro livro, “JJMcC” desaparece de cena e não volta nos mais de trinta volumes subseqüentes.

No início de sua parceria, Dannay e Lee levavam a fachada de “Ellery Queen” a sério: muitas vezes, um deles iria fazer palestras, mascarado, passando-se pelo verdadeiro Ellery. Quando a dupla criou outro autor ficcional, “Barnaby Ross”, eles marcavam palestras conjuntas de “Ross” e “Queen”, durante as quais, em meio a discussões acaloradas, “Barnaby” desafiaria “Ellery” a solucionar um enigma diante da audiência estupefata!

Tudo combinado, claro. Puro teatro. Até que, um dia, anunciou-se que “Barnaby Ross é, na verdade, Ellery Queen”...

Não apenas a identidade de Queen era labiríntica; labirínticos também eram seus enredos. Numa técnica que atingiu o ápice em  The Greek Coffin Mystery (1932), Ellery Queen desenvolve o mistério de soluções múltiplas, ou o mistério em camadas – onde o detetive é induzido ao erro sucessivas vezes, cada erro trazendo, em si, uma pista para a solução certa e final. O “Mistério do Caixão Grego” tem nada menos que quatro soluções, sendo que a segunda delas representa um erro que é, como diz o próprio “JJMcC”, “a maior surra que Ellery já levou”.

Borges e Sherlock Holmes

Essa estrutura do enredo “elleryano” inspirou um ensaio ficcional de Borges, “Exame da Obra de Herbert Quain”, publicado em Ficções. O volume contém ainda dois contos enviados pelo grande autor argentino para a Ellery Queen Mystery Magazine, revista de contos policiais que existe até hoje: “O Jardim de Caminhos que se Bifurcam” e “A Morte e a Bússola”, sendo que o segundo foi rejeitado pela publicação.

Mas a capacidade de Ellery Queen como arquiteto de labirintos  fica ainda mais evidente num pequeno volume hoje quase esquecido, A Study in Terror. O livro tinha tudo para ser uma obra menor, uma coisa mercenária – a “novelização” de um filme de 1965 sobre Sherlock Holmes perseguindo Jack, o Estripador.

No livro, o personagem Ellery Queen recebe um manuscrito, uma “aventura inédita de Sherlock Holmes”, escrita de próprio punho pelo Dr. Watson. O que se segue (o conteúdo do “manuscrito”) é a história do filme; esse trecho foi produzido por outro autor, Paul W. Fairman, num estilo pseudo-vitoriano. E, ao final, o Queen-personagem conclui que o estripador não é o culpado citado no manuscrito (e, por conseguinte, o que aparece no final do filme!). Queen demonstra que Holmes mentiu para Watson, para proteger...

Mas isso seria estragar a história, não é?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Remédio para emagrecer. Proibir resolve?

"O contrabando de bebidas alcoólicas foi tão essencial para o crime organizado e a Máfia quanto a galinha é para o ovo. Ele virtualmente salvou as grandes gangues (...) enquanto anteriormente políticos contratavam criminosos, o contrabando tornou os criminosos tão ricos que eles começaram a comprar políticos no atacado".

O trecho acima foi extraído do verbete "Bootlegging" de The Mafia Encyclopedia, e me veio à mente quando li que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estuda proibir os medicamentos para emagrecer derivados de anfetamina e a sibutramina. Outra coisa de que me lembrei foi de um gráfico publicado na edição mais recente da revista Wired, mostrando quais as atividades criminosas mais rentáveis do mundo.

No topo, com uma receita de US$ 38 bilhões: contrabandear cocaína para os Estados Unidos.

Proibir um produto não significa tirá-lo do mercado, significa lançá-lo no mercado negro. E o mercado negro de emagrecedores -- e pseudoemagrecedores -- já é bem parrudo. Claro, o papel da Anvisa é avaliar se o medicamento funciona e é seguro, e vetá-lo caso contrário.

Mas a experiência da Lei Seca mostra que tentar fazer isso com uma substância que já conta com uma cultura de consumo estabelecida pode simplesmente jogar os consumidores renitentes nos braços de contrabandistas e falsificadores, causando enormes prejuízos sociais.

E essa é uma questão interessante: até que ponto as pílulas emagrecedoras já estão tão incorporadas à cultura brasileira quanto, digamos, o cigarro e o álcool? e, se já estiverem, o que se pode fazer a respeito?

O caso do combate ao tabagismo, onde uma abordagem em "pinça" -- de um lado, restrições legais que não chegam a proibir o produto de vez; de outro, uma mudança de cultura que altera a forma como as pessoas veem conceitos como beleza e elegância -- talvez possa servir de exemplo.

Ainda mais porque a transformação cultural em torno do cigarro foi alimentada por doses maciças de informação científica, oferecida livremente ao público, a respeito de riscos e malefícios.

Pois é, então redescobriram o vídeo do óvni em Jerusalém...

Há alguns dias (vários dias, na verdade), eu soltei um link no Twitter sobre o desmascaramento de um vídeo forjado que supostamente mostrava um objeto voador não-identificado flutuando sobre a Esplanada das Mesquitas em Jerusalém.

Mas, como na internet os boatos nunca morrem (pelas minhas contas, ao longo de dez anos escrevi sete matérias desmentido a história do "livro didático americano que diz que a Amazônia pertence à ONU"), eis que o vídeo não só volta a dar o ar de sua graça como chega ao "mainstream" da mídia brasileira, graças aos inestimáveis préstimos da agência EFE -- como se pode conferir aqui e aqui.

(Se um dia nos encontrarmos numa mesa de chope, lembre-se de me embebedar e depois pergunte-me sobre a experiência de tentar manter um canal online sério de ciência tendo por base o material da EFE e da BBC.)

Mas, enfim: Phil Plait, o BadAstronomer, tem uma postagem de 9 de fevereiro em seu blog explicando como o primeiro vídeo foi falsificado. Um tutorial, com o passo-a-passo de como as imagens foram processadas em computador, já está há tempos no YouTube. Compare as duas versões (o vídeo original e o tutorial) abaixo:






Ah, sim, mas há um segundo vídeo. Desculpem, meninos e meninas, mas ele também já foi desmascarado. Veja o original abaixo -- se você olhar com atenção, vai notar que a câmera está gravando uma imagem estática bidimensional, e não uma cena com profundidade e movimento -- e o tutorial em seguida:





A mais distante obra de engenharia civil já executada



Óquei, não se trata exatamente de um grande projeto -- está mais para um grafite de bnmheiro -- , mas veja aí, na imagem acima, à direita, indicada pelas setas amarelas: a borda da cratera  aberta no cometa Tempel 1 pelo projétil disparado pela sonda Deep Impact, em 2005. A cratera tem diâmetro estimado em 150 metros.

A distância média que separa o Tempel 1 do Sol é de cerca de 3 Unidades Astronômicas, ou pouco mais de 400 milhões de  quilômetros. As fotos da explosão causada pelo bombardeamento do Tempel 1 ficaram famosas. Você vê uma delas logo abaixo:


O registro da cratera, mais de cinco anos depois, foi feito pela sonda Stardust (rebatizada "Next", um nome que só deve ter pego com os engenheiros da Nasa, e olhe lá). A missão primária da Stardust, coletar poeira cósmica e lançá-la num recipiente em direção à Terra, foi completada em 2006.

Esse follow-up permitiu, segundo nota da agência espacial, que cientistas tivessem uma melhor ideia da estrutura do cometa. A forma atual da cratera indica que o núcleo do astro é especialmente frágil.

Os pesquisadores também disseram que a Stardust parece ter voado pelo interior de uma "barragem antiaérea" ao se aproximar do cometa: em vez de liberar pequenas partículas num fluxo uniforme, o núcleo parece expelir pedaços mais "massudos" que depois se esfarelam.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A história do mundo, segundo H.G. Wells

A convite do Amálgama, passei a semana passada enfurnado nas páginas de Uma Breve História do Mundo, livro finalizado por H.G. Wells em 1921, para compor uma resenha que você pode ler aqui.

O livro é uma obra de fôlego de divulgação científica mas, como a ciência evolui, ficou obviamente datado (mais a respeito, na resenha).

As coisas que realmente valem a pena são o foco quase ideológico que Wells dá ao papel da tecnologia e da educação na história humana, e sua visão sobre o que viria a ser o futuro dele (o nosso presente).

Ele já fazia críticas ao dogmatismo do governo soviético, mas apostava que o avanço da civilização dependeria de uma flexibilização cada vez maior do direito de propriedade.

A avaliação que faz do papel revolucionário e civilizatório do cristianismo me soou tão exagerada que me pareceu mais recurso retórico -- tipo, jogar na cada dos cristãos conservadores que "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que", etc, etc.

Meus livros favoritos de HG Wells são The War of the Worlds e The Invisible Man, com The Island of Dr. Moreau quase empatando em segundo. Homem Invisível se vale de um truque de prestidigitação literária -- o uso de um discurso pseudocientífico para convencer o leitor de que o impossível é possível (no caso, um homem tornar-se invisível por meios bioquímicos) -- que é algo que sempre almejei a ser capaz de recriar. Alguns dos contos da minha coletânea Tempos de Fúria são esforços nesse sentido.

Mas sou um leitor que geralmente prefere contos a romances, e de Wells os que mais tenho ganas de reler são The Empire of the Ants e The Country of the Blind -- ambos, curiosamente, passados na América do Sul.

Zona habitável: habitável para quem?

Creio que a primeira crítica contundente ao conceito de "zona habitável" que encontrei estava no livro What Does a Martian Look Like? The Science of Extraterrestrial Life, escrito em parceira pelo biólogo Jack Cohen e pelo matemático Ian Stweart.

O conceito de zona habitável é bem simples: a faixa em torno de uma estrela onde há energia suficiente para sustentar a existência de água em estado líquido. O espaço entre a estrela e o início dessa zona seria quente demais para a vida; o espaço além do término da zona, excessivamente frio.

Cohen e Stewart chamam a atenção para o fato de que essa definição é simplista demais. Mesmo aceitando a ideia de que água em estado líquido é fundamental para a vida, a intensidade da radiação estelar pode não ser o fator fundamental aí.

Um exemplo claro é o papel dióxido de carbono e de outros gases do efeito estufa: com uma atmosfera mais densa, Marte poderia ter oceanos; com uma atmosfera menos densa, Vênus poderia ter um clima ameno. Titã e Europa, luas de Saturno e Júpiter respectivamente, ficam totalmente fora da "zona habitável" do sistema solar, e ambas contêm líquido -- Titã sustenta lagos de hidrocarbonetos na superfície e Europa tem um oceano sob sua crosta externa de gelo.

Mesmo aqui na Terra há a suspeita de que algumas formas de vida poderiam ser independentes da luz solar. Em 2008, foi descoberta, nas profundezas de uma mina de ouro da África do Sul, a bactéria  Desulforudis audaxviator, que vive da energia liberada pela desintegração de átomos radioativos nas rochas ao redor. Ela não só não precisa do Sol, como poderia continuar a existir mesmo se toda a vida na Terra se extinguisse.

Mais recentemente, cientistas sugeriram que "planetas errantes" -- astros expulsos de seus sistemas solares por interação gravitacional -- poderiam abrigar vida. Esses mundos seriam capazes de sustentar oceanos graças ao calor de seus núcleos.

E mesmo a exigência de planetas pode ser provinciana. Em seu romance The Black Cloud, Fred Hoyle apresenta uma forma de vida inteligente que não só não evoluiu numa superfície planetária, como ainda acreditava que a gravidade intensa dos planetas deveria tornar a vida impossível.

(Uma questão paralela é se a vida poderia surgir sem o "input" de energia de uma estrela: a audaxviator possivelmente descende de bactérias que usavam luz do Sol de alguma forma, mas acabou adaptando-se às novas condições.)


Os cientistas que buscam planetas extrassolares e sinais de vida extraterrestre certamente sabem disso tudo. Então, por que insistem em falar em termos de "zona habitável"? Basicamente, trata-se de um conceito útil em tempos de recursos limitados: como não é possível sair por aí procurando vida em todos os planetas do Universo, concentrar a busca, ao menos inicialmente, nos que têm condições mais favoráveis é sábio. 

Rufem os tambores: minha estreia na série A

Será que a maior parte dos leitores deste blog já ouviu falar em James Randi? O mágico americano (naturalizado; Randi é canadense de nascimento) apareceu há alguns anos no Fantástico, da Globo, desafiando Thomas Green Morton a demonstrar seus "poderes paranormais" sob condições controladas, mas é provável que a maioria dos brasileiros não esteja familiarizada com o currículo desse grande homem. Aqui, então, algumas pinceladas:

Projeto Alfa: Randi treinou dois jovens mágicos que, de 1979 a 1983, enganaram os pesquisadores do Laboratório McDonnell de Pesquisa Psíquica. Criado com uma doação de meio milhão de dólares feita pelo presidente da empresa aeroespacial McDonnell-Douglas, o laboratório tinha por objetivo testar alegações de poderes paranormais  em condições científicas controladas. O fato é que os dois discípulos de Randi demonstraram que os "controles" usados eram insuficientes, e que os cientistas eram facilmente enganados.

Curandeiros da Fé: Em 1987, Randi publicou um livro chamado The Faith Healers (Os Curandeiros da Fé) que expõe diversos truques usados por figuras religiosas em espetáculos e rituais de cura. Entre outras coisas, ele conseguiu interceptar e gravar a comunicação de rádio entre um pastor evangélico e cúmplices presentes na plateia, que em segredo informavam ao chefe quais as doenças dos fiéis, para que ele pudesse fingir estar recebendo a informação por meio de "inspiração divina".

O prêmio de US$ 1 milhão: A Fundação Educacional James Randi mantém um desafio a todas as pessoas que acreditam ter poderes sobrenaturais ou paranormais, oferecendo US$ 1  milhão a quem quer que consiga provar possuir tais poderes. O prêmio também será pago para uma prova científica de que homeopatia funciona.

Exposição de fraudes: Randi sempre foi muito ativo na exposição de falsos médiuns e paranormais. Ele escreveu o livro definitivo sobre Uri Geller,  The Truth About Uri Geller (obra que provavelmente seria censurada no Brasil), e muitos vídeos de Randi desmascarando charlatões na TV estão disponíveis no YouTube, como este aqui:








E agora você talvez esteja se perguntando, por que estou gastando o seu tempo com isso? Simples: o website de James Randi publicou, nesta terça-feira, 15 de fevereiro de 2010, um artigo escrito por mim. Se não acredita, o link está aqui.

Na verdade, trata-se de uma tradução e adaptação para o inglês desta postagem, sobre o processo de canonização do papa João Paulo II (fui eu mesmo quem traduziu e adaptou).

Então, bem, a sensação é mais ou menos como a de um jogador de várzea subitamente convocado para a seleção. Sem os contratos milionários e tal, mas e daí? O que importa mesmo é o sorriso metido a besta na cara  e o calorzinho no peito. O resto a gente se vira.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Corinthians e Ed Witten

Nas últimas 24 horas, passei por duas experiências diametralmente opostas: assisti, no estádio Dr. Jayme Cintra,  à partida entre Paulista de Jundiaí e Corinthians (0 x 0) e, no auditório da Unesp, em São Paulo, à palestra sobre Teoria das Cordas proferida por Edward Witten, um dos principais teóricos da área e o único físico a já ter recebido a Medalha Fields, concedida por avanços no campo na matemática (e que, compreensivelmente, costuma ser dada apenas a matemáticos).

Além do óbvio contraste entre os dois espetáculos, há o fato de que, no jogo de futebol, eu entendi praticamente tudo, mas não gostei de nada. Na palestra de Witten, não entendi quase nada, mas gostei de praticamente tudo.

Falando sério: fui a São Paulo com o espírito preparadíssimo para boiar em 90% do que era dito. Creio ter boiado, na verdade, em apenas 70%, e isso graças ao fato de ter concluído há pouco a leitura de The Hidden Reality: Parallel Universes and the Deep Laws of the Cosmos, de Brian Greene, que cobre boa parte do material tratado na palestra, mas num nível bem menos técnico.

(Para quem não leu nada sobre ciências nos últimos 30 anos, um rapidíssimo resumo: a Teoria das Cordas propõe que os constituintes fundamentais da matéria não são pontos dotados de massa, carga elétrica, etc., mas "cordas" -- coisas que possuem forma e comprimento. As cordas ajudam a eliminar alguns problemas matemáticos graves que aparecem quando se tenta calcular o que acontece em escalas extremamente pequenas, quando fenômenos quânticos e gravitacionais são ambos muito importantes.)

Além de apresentar um interessante resumo histórico (Witten contou que a primeira versão da teoria das cordas era uma tentativa de explicar o comportamento dos quarks, e não uma ambiciosa proposta de gravidade quântica), o físico foi muito claro ao afirmar que a teoria ainda tem muito o que avançar.

Ele insistiu que a Teorioa das Cordas tem uma espécie de "vontade própria", revelando novas conexões possíveis entre fenômenos e propondo modelos matemáticos inesperados. Na sessão de perguntas e respostas que se seguiu à palestra, Witten foi confrontado com a perene questão que inferna os teóricos das cordas: Como a teoria pode ser testada? Que previsões faz? Como poderia ser refutada?

A maioria dos críticos da Teoria das Cordas sustenta que, embora ela faça um bom trabalho em descrever o que já sabemos, não permite prever, de forma clara, resultados observáveis que estejam além da ciência atual.

(De novo, encurtando uma discussão que poderia ser bem longa: em ciência, geralmente considera-se que uma teoria só merece ser levada  a sério se houver um meio concebível de provar que ela é falsa -- por exemplo, a afirmação "Deus é bom mas escreve certo por linhas tortas" não é científica porque nada que aconteça no mundo jamais poderá ser apresentado como prova de que Deus não é bom, já que Ele prefere usar "linhas tortas".)

Witten citou como exemplos de testes práticos da Teoria das Cordas a possível existência de partículas supersimétricas (que talvez venham a ser criadas no LHC), previstas na teoria, e o fato de alguns resultados do acelerador de partículas RHIC serem muito bem modelados com cordas.

Mas ele enfatizou que a verdadeira Teoria das Cordas ainda é desconhecida -- o que temos hoje são um punhado de teorias que parecem ser todas casos-limite de uma teoria mais profunda. No fim, disse: "A Teoria das Cordas continuará conosco até que uma teoria melhor apareça".

(Ah, sim: a foto lá em cima no canto sou eu em Jayme Cintra, usando um chapéu meio ridículo que comprei na exposição Dinos na Oca, anos e anos atrás)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A gonorreia tem um pedacinho de você

Cientistas já sabiam que bactérias são capazes de trocar fragmentos de material genético entre si -- esse é um dos mecanismos que faz com que a resistência antibióticos se espalhe tão depressa. Agora, uma equipe de pesquisadores de Chicago, nos EUA, diz ter provas de que pelo menos uma espécie de bactéria é capaz de de assimilar DNA humano. E não se trata de uma bactéria qualquer: é a Neisseria gonorrhoeae, a causadora da popular DST gonorreia.

Os detalhes da descoberta serão publicados na revista online mBio, da Sociedade de Microbiologia dos Estados Unidos. Ainda não se sabe exatamente que vantagem a bactéria leva nesse negócio, mas os autores da descoberta supõem que isso permite que o micróbio crie novas versões de si mesmo. 

A sequência de genoma humano foi encontrada em 11% das culturas de bactéria de gonorreia estudadas. Cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo contraem a doença a cada ano. A gonorreia é tratada com antibióticos -- embora venha mostrando resistência crescente a eles. 

Embora as implicações práticas -- do ponto de vista farmacológico e de saúde pública -- da descoberta ainda sejam incertas, o dado em si é mais um lembrete do profundo parentesco que une todas as formas de vida da Terra. A mim me lembra o episódio de Cosmos em que Carl Sagan explica que o material genético de uma árvore e o de um ser humano seguem as mesmas regras, são decodificados pelo mesmo "dicionário" e são feitos do mesmo material.

(Com o recente aniversário de Darwin, essa é uma constatação oportuna.)

Também me faz pensar na Biblioteca Genômica de Babel de Daniel C. Dennett, que conteria infinitos volumes impressos com todas as transposições possíveis de A, T, G e C, as letras do código genético. A ideia de que é possível transpor páginas de um livro para o miolo de outro sem alterá-lo em essência (a bactéria de gonorreia com uma pitada de DNA humano continua a ser uma bactéria de gonorreia, afinal) é de tirar o fôlego.

Gêmeos siameses em Marte


Um óvulo fecundado passando pela primeira divisão celular? Não, um par de crateras em Marte, fotografado pela câmera HiRise, da sonda MRO, da Nasa.

Os cientistas que operam a HiRise especulam que a cratera dupla foi criada pelo impacto simultâneo de dois corpos de massa semelhante -- talvez um asteroide ou cometa formado por dois "gomos" interligados. Um exemplo mencionado desse tipo de configuração é do do cometa Hartley 2, que você vê abaixo:


Fotografado pela sonda Deep Impact (em 2010, durante sua missão suplementar, chamada "Epoxi") o cometa realmente parece feito de dois blocos maciços unidos por uma ponte de neve. Algo parecido talvez tenha atingido Marte no passado, provocando as crateras interligadas.