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Mostrando postagens de Fevereiro 6, 2011

A evolução funciona em todas as direções

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Todas as formas de vida existentes hoje na Terra são igualmente "evoluídas", no sentido de que estão adaptadas aos ambientes em que vivem e de que percorreram, ainda que por trilhas diversas, os 4 bilhões de anos que nos ligam todos, homens, tubarões, planárias e bactérias, ao ancestral comum que iniciou a marcha da biologia na Terra.

Essa constatação é talvez uma das mais difíceis de transmitir quando se fala sobre evolução. Mesmo quando uma pessoa se liberta da intuição criacionsita, é grande a chance de que permaneça ligada a uma ideia de "grande design" ou de "propósito" embutido na evolução biológica.

A confusão semântica entre "evolução" e "aperfeiçoamento" está na raiz de muitas ideologias que se veem como consequências lógicas -- quando, na verdade, não passam de filhas bastardas -- da teoria da evolução, como o darwinismo social e o socialismo científico.

A ideia de que a evolução teria um rumo ou meta -- para além do fim inci…

Egito, Estado, religião e os presunçosos

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Existe uma palavra da língua inglesa, "smug", que define o sujeito que fica de lado, com um sorrisinho de superioridade,  enquanto os outros ao redor fazem bobagem. Em português, os equivalentes mais próximos seriam "cheio de si", "presunçoso" ou "complacente".

"Smug" foi o termo que me veio à cabeça quando comecei a encontrar, pelas esquinas da web, textos de cristãos conservadores vangloriando-se da "tradição cristã de separação entre Estado e religião" que torna a democracia viável no Ocidente, em oposição ao que ocorre, por exemplo, no Egito.

De fato, a ideia de que o que entendemos como a moderna separação entre Estado e religião deriva de um "insight" genial de Jesus, que resultou na fala registrada no capítulo 12 de Marcos, 22 de Mateus e 20 de Lucas ("Dai a César e o que é de César e a Deus o que é de Deus") é tão prevalente quanto grosseiramente errada.

No contexto em que aparece nos Evangelhos s…

Guia de sobrevivência para bruxas romenas

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Talvez você tenha lido a notícia segundo a qual as bruxas da Romênia estão preocupadas com um projeto de lei que poderá mandá-las para a cadeia caso façam previsões que não venham a se cumprir (o texto do G1.com está aqui). Não sei exatamente que tipo de treinamento as místicas romenas recebem, mas elas não deveriam temer o novo projeto. Fazer previsões infalíveis é relativamente simples. Os truques são:

1. Soe confiante, mas humilde. Você deve ser firme no que diz, mas ao mesmo tempo resguardar-se com ressalvas do tipo "esse poder não funciona sempre" ou "tenho a impressão de que estou recebendo..." ou o clássico "isso faz sentido para você?" A mistura do tom de autoridade com as ressalvas faz com que o consulente se sinta culpado caso alguma parte da previsão pareça não funcionar: ele vai achar que não interpretou direito o que você disse.

2. Pesquise as estatísticas. Por exemplo, de acordo com dados de 2010 do Dieese, o tempo médio que uma pessoa em Sã…

'Todo mundo é contra a liberdade de expressão'

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A frase que dá título à postagem era usada por um professor de Jornalismo da ECA-USP, lá se vão bem uns 20 anos, para chocar os estudantes de primeiro ano. Ele a sustentava com uma série de exemplos escabrosos -- e se alguém escrever um artigo defendendo a volta da escravidão? e se alguém escrever que mulher que trai o marido tem mais é que levar tiro na boca? e se alguém defender o extermínio dos índios? -- até que a classe acabasse concordando que, sim, liberdade de expressão é legal, mas peraí.

Confesso que nenhum desses exemplos (e outros ainda piores) jamais foi capaz de mudar o meu xiitismo em defesa da mais plena liberdade de expressão. Sim, que se escreva em defesa da volta da escravidão; sim, que se escreva em defesa da lapidação extrajudicial das adúlteras; sim, que se argumente pelo genocídio.

Que essas ideias venham a público, que sejam expostas como as bobagens que realmente são, e que seus autores sejam reduzidos às devidas proporções, seu nanismo moral e intelectual des…

Casamento galáctico, cortesia de Hubble e Chandra

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A imagem acima é um composto de dados de raios X obtidos pelo Observatório Espacial Chandra e de luz visível captada pelo Hubble. Ela mostra o que resta da colisão de duas galáxias.

Explica a nota da Nasa: "Arp 147 contém os vestígios de uma galáxia espiral (direita) que colidiu com a galáxia elíptica à esquerda.

"A colisão produziu uma onda crescente de formação de estrelas que aparece como o anel azul contendo uma abundância de jovens estrelas de grande massa. Essas estrelas percorrem rapidamente sua evolução, e em poucos milhões de anos explodem como supernovas, deixando para trás estrelas de nêutrons e buracos negros".

Ainda de acordo com a agência espacial, os nove "rubis" (ou ametistas, já que não são intensamente vermelhos) do anel são fontes de raios X alimentadas pela energia de buracos negros, cada um com até 20 vezes a massa do Sol.

Que tal isso como anel de noivado?

Planetas, planetas à mancheia!

Óquei, então o observatório espacial Kepler da Nasa encontrou mais de 1.000 candidatos a planeta fora do sistema solar.

Esta notícia não é exatamente novidade (anda rolando por aí desde a semana passada) e também é preciso dar o devido desconto ao senso de marketing um tanto quanto megalomaníaco que parece ter se apossado da Nasa de uns tempos para cá -- eu mesmo preferi blogar apenas a respeito das descobertas no sistema Kepler 11 -- já que o milhar se refere a candidatos, e mesmo a Enciclopédia de Planetas Extrassolares ainda mantém o total de mundos descobertos em cerca de 500, mas não dá para deixar passar batido o infográfico animado abaixo:



Kepler Exoplanet Candidates from blprnt on Vimeo.

Criado por Lee Billings e Jer Thorp, ele apresenta todos os candidatos a planeta já encontrados pelo Kepler, dispondo-os como se estivessem no nosso sistema solar, o que permite comparações com a Terra, Júpiter, Marte e Vênus.

(Ah, sim: o ideal é assistir à animação em tela cheia)

Química, física e reducionismos

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Estamos no Ano Internacional da Química, uma celebração da ciência da matéria e de suas transformações. Embora, do ponto de vista teórico, a química tenha sido "reduzida" à física com as descobertas sobre o elétron e a estrutura do átomo feitas no início do século passado, experimente pedir a um físico para inventar um novo processo de fermentação de cerveja -- se ele topar, tente beber o resultado por sua própria conta e risco.

A relação entre física e química (e depois, entre química e biologia, biologia e medicina, medicina e psicologia, psicologia e sociologia) é um bom exemplo da necessidade de ser bem específico quando se fala em "reduzir" uma coisa à outra. O fato é que existem vários tipos de reducionismo, e tratar todos como se fossem uma coisa só é, bem, reducionista demais.

Comecemos pelo mais filosófico de todos, o reducionismo ontológico. Esta é a ideia de que algumas coisas, em essência, no fundo, como coisas-em-si, de fato se reduzem -- realmente são…

Power Balance quer ser homeopatia quando crescer

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O website americano do fabricante das pulseiras Power Balance -- aquelas faixas de borracha com um holograma de cartão de crédito em cima, que serviriam para "harmonizar as energias", seja lá o que isso for -- publicou uma nota dizendo que "defende seus produtos".

"Ao contrário de recentes alegações na imprensa australiana, a Power Balance não fez nenhuma alegação de que as pulseiras não funcionam. Isso é simplesmente falso", prossegue o texto, que diz que "aparentemente, algumas alegações em nossos anúncios australianos não atendiam aos padrões da ACCC", sigla do órgão de defesa do consumidor da Austrália.

Esse "aparentemente" é intrigante. Se o autor da declaração no site americano tivesse se dado ao trabalho de consultar o website australiano das pulseiras milagrosas, teria encontrado (com alguma dificuldade, é preciso reconhecer) a seguinte nota:

"Em nossa publicidade, afirmamos que as pulseiras Power Balance melhoram a força,…

Um mês de blog: balanço

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Esta encarnação do blog completou um mês ontem, dia 7. Ao todo, nesse período, ele recebeu 6.749 acessos, uma média de 225 ao dia. Meu crédito no AdSense chegou a US$ 1,15. Serei pago quando atingir US$ 100, o que sugere que não devo prender a respiração enquanto espero. Já meu crédito na Amazon.com é de US$ 0,00 (na verdade é negativo, já que encomendei algumas coisas nesse meio tempo).

A maioria dos acessos vem do Twitter e do Networkedblogs. O Scienceblogs Brasil também anda mandando gente para cá (obrigado, pessoal!), e o Google começa a me despachar leitores, embora o antigo blog no estadão.com.br ainda apareça mais no alto quando se faz uma busca pelo meu nome.

(Mas, afinal, quem faz buscas pelo meu nome? Provavelmente só eu, mesmo.)

Entrei no Google Analytics há pouco tempo, então não tenho dados comparativos de 30 dias, mas pelo que vejo estou acima  da média dos sites "de mesmo tamanho" (seja lá o que isso significa) em número de visitas e em duração média das visit…

Possessão demoníaca, exorcismo e ignorância

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Talvez não exista indicador melhor do nível de ignorância de uma sociedade do que a prevalência da crença em possessão demoníaca. É evidente, por exemplo, que o pobre endemoinhado exorcizado por Jesus no capítulo 9 no Evangelho de Marcos era um epilético. Isso fica bem claro na leitura, com olhos modernos, dos versículos correspondentes, abaixo:
“17. Respondeu um homem dentre a multidão: Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo. 18. Este, onde quer que o apanhe, lança-o por terra e ele espuma, range os dentes e fica endurecido. Roguei a teus discípulos que o expelissem, mas não o puderam. (...) 25. Vendo Jesus que o povo afluía, intimou o espírito imundo e disse-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai deste menino e não tornes a entrar nele.”
Compare a lista de sintomas dada pelo pai do "possesso" à descrição do "grand mal", um tipo de ataque epilético, que consta do site da Mayo Clinic: perda de consciência; os músculos se contraem de repente, …

Fazendo média com a média

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A mais recente edição da Scientific American americana traz uma nota provocativa assinada pelo matemático John Allen Paulos, com o título Por que Você Provavelmente é Menos Popular Que Seus Amigos.

O motivo, explica Paulos, é simples: pessoas muito populares tendem a atrair um grande número de amigos, e é mais provável que um pobre mortal como eu ou você sejamos parte do "rebanho" compartilhado por umas poucas figuras supersimpáticas do que estarmos, nós mesmos, no rol dos polarizadores de popularidade.

O mesmo raciocínio se aplica ao Twitter: você provavelmente tem menos seguidores do que a maioria das pessoas que você segue. Por quê? Porque é mais provável que você seja uma pessoa comum que acabou atraída para alguns grandes agregadores -- celebridades, universidades, jornais -- do que você, pessoalmente, ser um grande agregador.

O que gera a situação paradoxal de o usuário médio do Twitter ter uma lista de seguidores com menos nomes do que a média.

O parágrafo acima confu…

Perfuração do lago Vostok para a 29,53 metros

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A revista Nature acaba de informar, via Twitter, que a perfuração rumo ao Lago Vostok -- um dos últimos ambientes isolados da Terra -- foi interrompida no último dia, 5 quando faltavam 29,53 metros. O Vostok fica relativamente perto do polo sul. Eu já bloguei sobre o lago, mas abaixo vai um pouco de background:

Com uma área de 15.000 km² -- o tamanho aproximado do País de Gales -- e uma profundidade máxima de cerca de 800 metros, o lago fica a 1.300 km do polo sul. O lago está isolado do resto do mundo há 15 milhões de anos, mas (diz a Wikipedia) é possível que o lento deslocamento da capa de gelo da Antártida faça com que a água do lago seja trocada a cada 13 mil anos.


Um dos principais objetivos da perfuração é, claro, procurar por sinais de vida, presente ou passada. Uma massa de água isolada por gelo há milênios é a situação existente, por exemplo, em Europa, uma lua de Júpiter tida como candidata a abrigar vida.

A perfuração foi interrompida por conta da aproximação do inverno ant…

O Sol é visto em 360º pela primeira vez

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Você talvez nunca tenha pensado nisso, mas é impossível para nós, na Terra, ver o Sol inteiro de uma vez. A razão é a mesma que nos impede de ver o rosto e as costas de uma pessoa ao mesmo tempo: o ângulo de visão disponível é obviamente limitado àquilo que está voltado para nós.

No caso de uma pessoa, é relativamente fácil (embora nem sempre seja prático) posicionar espelhos e câmeras de forma superar essa limitação. No caso do Sol, é um pouco mais difícil -- mas o primeiro retrato simultâneo frente-e-verso do Astro Rei foi finalmente produzido, e deve ser divulgado nas próximas semanas.


As duas "meias laranjas" do retrato acima (que é a imagem do dia da Nasa) são dois hemisférios do Sol vistos simultaneamente a partir de dois pontos de vista separados por praticamente 180°. Foram obtidas no fim de janeiro pelo par de satélites Stereo, lançado em 2006.

A missão da dupla Stereo é permitir que cientistas estudem o Sol por inteiro. Enquanto uma característica importante da sup…

O dilema lexicográfico do prisioneiro

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O blog do psicólogo britânico Richard Wiseman trouxe, na sexta-feira, um enigma que, em linhas gerais, é o seguinte:

Você está preso numa cela, e os malvados guardas propuseram um desafio. Eles escreveram uma letra do alfabeto em uma série de pedaços de cartolina, e colocaram as cartolinas no chão da sua cela, formando uma palavra. 


Você deve retirar um cartão, garantindo que os restantes ainda formem uma palavra -- não é permitido reorganizar a ordem das letras. Você deve repetir o processo até que reste apenas uma letra. Em que ordem as letras devem ser retiradas?

A palavra dada pelos malévolos guardas de Wiseman está, compreensivelmente, em inglês (quem quiser tentar a mão no enigma original, é só seguir o link na primeira linha desta postagem). Adaptando o problema para o português, resolvi acrescentar uma facilidade e uma dificuldade.


A facilidade, que atende a uma peculiaridade de nossa língua, é permitir a livre manipulação dos acentos. Assim, por exemplo, se fosse possível (não s…