sábado, 5 de fevereiro de 2011

Meu momento 10²³: 'overdose' de sedativo homeopático

No vídeo abaixo, eu consumo um copo com 60 pílulas de Aconitum napellus, uma planta venenosa, associada a beladona e outros derivados vegetais menos cotados. Todas essas toxinas foram diluídas homeopaticamente a 6 C, o que significa uma parte de soluto em um trilhão de partes de solvente.

Efetivamente, embora do ponto de vista homeopático eu tenha me submetido a uma "overdose", o que bebi não foi nada além de água com açúcar.

(Para quem duvida, esta postagem está sendo organizada -- incluindo upload do vídeo, que é demorado pra caramba -- cerca de uma hora após a deglutição e, como deve estar dando para notar, eu não estou rolando no chão e babando gosma roxa. Minha digitação seria um pouco pior, nesse caso.)

As pílulas são recomendadas como tratamento homeopático para ansiedade e distúrbio do sono. E esta é minha participação na campanha 10²³: homeopatia é feita de nada.

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

E com vocês: Penn, Teller e medicina alternativa

Hoje eu provavelmente vou passar o dia inteiro fora de casa e não conseguirei blogar mais, então -- aproveitando que amanhã é o dia do 10:23 -- eu os deixo aos cuidados dos mágicos de Bullshit:


'A quem isto serve?', ou o uso crítico do senso crítico

Pegando carona nesta postagem do blog Rainha Vermelha, e também na avalanche de comentários que o Amálgama recebeu depois de reproduzir este meu texto sobre homeopatia, queria comentar algo sobre o triste estado em que se encontra o chamado "senso crítico" hoje em dia.

Como Descartes já havia dito a respeito de "bom senso", "senso crítico" é um item extremamente raro, na medida em que é valioso e, ao mesmo tempo, todas as pessoas parecem satisfeitas com o tanto que têm. Ao contrário da maioria das coisas a que a humanidade dá valor -- dinheiro, fama, saúde ou beleza, por exemplo -- e das quais muito nunca parece chegar a suficiente, com o "senso crítico" tudo mundo está satisfeito.

Infelizmente, a amostra disponível no mundo virtual sugere que quase todo mundo se contenta com muito pouco. As ocorrências do que passa por "senso crítico" nas caixas de comentário de blogs e reportagens me lembram do meu tempo de faculdade de Jornalismo, quando as corporações de mídia eram a Grande Besta e qualquer defesa dessas companhias com base no princípio da liberdade de imprensa era rebatida com um sorriso sardônico e a frase de efeito: "Liberdade de imprensa ou liberdade de empresa"?

O que é uma boa frase, mas um péssimo argumento. Digo, se você não gosta da, digamos, linha editorial do Estadão e está disposto a fazer algo a respeito -- além de cancelar sua assinatura, o que é um jeito de votar usando o cartão de crédito --, a liberdade de empresa é o que lhe permite investir o quanto quiser (ou o que conseguir emprestar no banco, ou arrecadar com outras pessoas também insatisfeitas) na criação de um novo jornal que diga exatamente o que você acha que deve ser dito. Enfim, num ambiente livre de censura estatal, a liberdade de empresa é o que viabiliza a liberdade de imprensa. Simples assim.



No mundo virtual, a frase de efeito é "a quem isso serve". Ela é extremamente ecumênica: ambientalistas exaltados usam-na contra quem argumenta em favor dos transgênicos; negacionistas do clima usam-na contra ambientalistas; esquerdistas usam-na contra a direita; direitistas, contra a esquerda. O novo código florestal deixa de ser discutido com base em seus méritos (extremamente duvidosos, de acordo com amplo consenso científico), e passa a ser tratado como um Fla-Flu entre agentes subversivos a soldo de ONGs estrangeiras com fins inconfessáveis e a ganância desmedida do agronegócio predatório.

(A ironia de ser um deputado do PCdoB -- provavelmente a agremiação mais acusada, em toda a história brasileira, de fazer subversão a serviço de potências estrangeiras -- o principal denunciador dos inomináveis laços internacionais dos críticos do código não tem nada a ver com esta postagem, mas é boa demais para que deixe de ser mencionada.)

O que vou escrever agora talvez seja uma novidade bombástica para muita gente envolvida em debates travados via Twitter, em listas de e-mail e nas seções de comentários dos blogs: fechar-se numa igrejinha ideológica e lançar suspeitas de conspirações funestas e intenções macabras sobre quem discorda da, ou questiona a, teologia da sua seita particular não é exercer o senso crítico. É abster-se dele.

E é também um gigantesco exercício de preguiça mental. Se o argumento X me parece inatacável e não tenho nada a oferecer para contrapor aos dados Y, sou livre para ignorar aquilo tudo e continuar com meus preconceitos queridos, porque quem articulou X e apresentou Y é um mau caráter mal intencionado.

Esse atalho heurístico pode ser útil se você é o Super-Homem e Lex Luthor está tentando lhe convencer a deixá-lo apertar o botão vermelho onde está escrito SELF-DESTRUCT mas, no geral, a saída mais honesta é pedir um tempo, raciocinar a respeito do argumento e pesquisar sobre os dados antes de cristalizar uma conclusão.

Em lógica, às vezes se diz que uma pessoa que se recusa a reconhecer a conclusão válida de um argumento está sendo "perversa". Por exemplo, é uma "perversidade" aceitar que todos os homens são mortais e que Sócrates é um homem, mas negar que Sócrates seja mortal. A questão "a quem isto serve" pode até ter mérito em alguns contextos mas, da forma como vem sendo usada no debate online, basicamente só serve para acobertar preguiça e perversidade. Com o bônus de fazer quem a usa passar por esperto -- mas só dentro da igrejinha.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Geada de gelo seco esculpe dunas de Marte

As dunas em torno do polo norte de Marte mudam ao sabor do vento – e da sublimação do gelo seco. A descoberta foi feita a partir de imagens obtidas pela câmera HiRise, a bordo da sonda NASA's Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), da Nasa, há seis anos em órbita do planeta vermelho.

A paisagem marciana é fantástica – como qualquer leitor de Watchmen sabe -- e é especialmente intrigante por suas semelhanças com características e processos que temos também aqui na Terra. O Monte Olimpo de Marte, o pico mais alto do sistema solar, é um vulcão como as ilhas do Havaí. Valles Marineris é um cânion. E as dunas são, ora bolas, dunas.

Mas a correspondência nunca é exata: não temos nada, na Terra, que se compare ao Olimpo maciano ou ao intricado sistema de Cânions descoberto pela sonda Mariner no início da década de 70. Em comparação, as dunas do norte marciano pareciam “menos legais” que as nossas, já que, ao que tudo indicava, estavam congeladas no tempo, imobilizadas pela ausência de um vento forte o bastante para movê-las.

Não mais, mostra trabalho publicado na edição desta semana da revista Science. Um dos agentes da mudança é algo que não temos aqui na Terra: geada de dióxido de carbono. O inverno, o gás – principal constituinte da rarefeita atmosfera marciana – congela-se sobre as areias. Na primavera, evapora-se. De acordo com a pesquisadora Clarice Hansen, esse delicado movimento do gás é suficiente ára desestabilizar as dunas, causando avalanches e depressões. “O nível de erosão em apenas um ano marciano é fantástico”, disse ela, em nota. “Em alguns lugares, centenas de metros cúbicos de areia deslizaram pela face das dunas”.

O vento também provoca mudanças, o que surpreendeu os cientistas: a atmosfera de Marte, com menos de 1% da densidade da terrestre, não deveria ser capa de gerar ventos rápidos o bastante para erguer grãos de areia. Clarise Hansen especula que o clima circunpolar favorece ventos excepcionalmente fortes.

As areias de Marte são um dos meus cenários favoritos para escrever ficção científica (tenho até um conto a respeito que você pode ler de graça, aqui). Faz tempo que estou querendo escrever algo sobre um balão de água voando em Marte – como o CO2 é uma molécula mais pesada que o H2O, o vapor de água deve ser capaz de sustentar um balão em Marte, como ar quente sustenta um na Terra – mas a falta de tempo é um problema. A ideia de uma geada de CO2 pode trazer um twist interessante para o enredo. Quem sabe...


Os Lordes de Sith já estão entre nós...

Impagável vídeo encontrado no YouTube. O astro involuntário, Benny Hinn, é um pastor neopentecostal americano, mas fico imaginando se uma montagem parecida não cairia igualmente bem em algumas figuras aqui do nosso lado do equador:



Mitos da criação

A postagem de ontem sobre os livros de Stephen Hawking e Brian Geeene já ia muito longa, e acabei deixando de lado a ideia de incluir nela uma breve resenha do mito judaico-cristão da criação do Universo, à guisa de contraste com a versão científica apresentada pelos dois autores. Então, ei-la aqui.

Uma primeira coisa que é preciso pôr em perspectiva é a profundidade do tempo histórico. Muita gente deve achar (eu achei, durante muito tempo) que a narrativa bíblica de Yahweh chamando Abrão para fora de Ur "dos Caldeus" (explico as aspas mais à frente) referia-se a algo ocorrido nos primórdios da civilização. Ledo engano.

Se Abrão realmente existiu, sua jornada de iluminação teria começado num momento em que a civilização suméria tinha pelo menos 1.500 anos, o Egito era um país unificado há 1.100, e Sargão da Acádia, fundador do que talvez tenha sido o primeiro grande império conhecido, era já uma figura histórica, tão distante do presente de então quanto D. Pedro I está distante de nós.

Isso significa, basicamente, que o mito da criação legado por Abrão a seus descendentes não surgiu num vácuo. Da mesma forma que seria difícil alguém fundar uma religião nova no mundo ocidental, hoje, ignorando dois milênios de tradição cristã, o mito que acabou codificado no Gênese bebeu profusamente a cultura circundante.

(A expressão "dois milênios de tradição cristã", quando invocada em termos de reverência e autoridade, sempre me faz sorrir: a "tradição suméria" durou 5.000 anos, com o sumério servindo de língua religiosa, literária e científica oficial da Mesopotâmia da aurora da civilização até o primeiro século EC, e hoje só o que resta dela são tabuinhas de barro.)


O mito mesopotâmico da criação passou por várias versões, mudando junto com a política (a identidade do deus-criador e as relações dentro do panteão variando de acordo com as alianças e o equilíbrio de poder entre as cidades-Estado) e a sociedade (nas versões mais antigas, o mundo "nasce" de uma deusa fêmea; conforme a tecnologia -- ferramentas, armas, cerâmica, etc. -- avança, ele passa a ser "feito" por um deus macho).

A criação do homem muitas vezes envolve um casal de deuses, onde o deus macho mata uma outra divindade ou demônio e mistura seu sangue à terra, e uma deusa usa a lama produzida dessa forma para moldar os primeiros seres humanos. Mesmo Yahweh, no princípio, tinha uma esposa, Asherah (imagem ao lado).

A criação do Universo, por sua vez, envolve uma batalha entre um emissário dos deuses da Ordem e uma personificação do Caos, geralmente representada como um monstro marinho -- sendo que o Caos em si é o oceano, as profundezas, o abismo.

(Fãs de RPG em geral e do desenho animado Caverna do Dragão, em particular, podem achar curioso saber que o dragão do caos é chamado de Tiamat -- que aparece, em versão original, na ilustarção ao lado).

O deus da Ordem (Marduk, na versão babilônica do mito) mata Tiamat e usa seu corpo para separar as águas -- isto é, o caos primordial -- em duas partes, as águas do firmamento e as águas sob a terra.

Qualquer semelhança com os versos de Gênese I:6-7:




6. Deus disse: "Faça-se um firmamento entre as águas, e separe ele umas das outras". 7. Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam debaixo do firmamento daquelas que estavam por cima.




Não é mera coincidência.

Já que chegamos ao livro do Gênese, vale a pena lembrar que essa narrativa contém duas versões para a criação do Universo, mutuamente incompatíveis. Uma delas, a do primeiro capítulo, traz a sequência de seis dias da criação, culminando com a raça humana (homens e mulheres juntos) no sexto dia. A do segundo capítulo começa com Adão sendo feito de barro na terra ainda vazia, as plantas e os animais em seguida e Eva, por último.

A hipótese histórica mais aceita é a de que o Gênese foi composto a partir da fusão de dois textos, um originário do reino de Israel e outro, do reino de Judá.

A fusão teria ocorrido depois da destruição de Israel pelos assírios, por volta de 720 AEC, quando refugiados fugiram para Judá, levando sua mitologia consigo. Isso tudo, 800 anos depois do tempo em que teria vivido Moisés -- a quem a autoria da narrativa é tradicionalmente atribuída -- e 1.300 anos depois de Abrão.

Como se pode afirmar isso? Voltando à Ur "dos Caldeus" de que falei acima: no tempo em que a Palestina estava dividida em dois reinos, Judá e Israel, após a monarquia unificada de Davi e Salomão dar com os burros n'água, a cidade de Ur realmente estava sob o domínio caldeu. Mas no tempo de Abrão ou no de Moisés, ela teria sido dos sumérios, ou talvez dos acádios. Caldeus, não. Atribuir a expressão "Ur dos Caldeus" a Moisés é uma gafe comparável a atribuir a Pero Vaz de Caminha  um texto no qual o porto de chegada de Cabral é chamado de "Porto Seguro, no Estado da Bahia".

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Mars500 entra 'em órbita' de Marte


A missão Mars500, uma espécie de Big Brother high-tech que simula uma viagem a Marte, acaba de entrar "em órbita" do planeta vermelho. Embora a nave Mars500 não tenha escotilhas (qual a graça de ver o laboratório em volta do simulador?), eles têm telas onde aparece uma simulação de Marte gerada pelo software Celestia (que você pode baixar de graça).

Os astronautas farão o "pouso" em Marte no próximo dia 12. A missão usa o mesmo esquema do programa Apollo, com um módulo que permanece em órbita e outro que que faz o desembarque dos astronautas.

Confesso que tenho sentimentos conflitantes a respeito da Mars500. Por um lado, a ideia toda parece bem legal, mas por outro -- para que diabos isso serve?

Digo, se o propósito é testar como seres humanos se comportam em situação de confinamento e estresse por longos períodos, um estudo muito mais realista seria ver como se saem as tripulações de inverno das várias estações científicas mantidas na Antártida. Com a vantagem de que essas tripulações não "simulam" nada: realmente estão com o, como direi, rabo na reta.

Além disso, um dos fatores mais complexos de uma viagem a Marte -- a gravidade reduzida -- não tem como entrar na jogada. A gravidade em Marte é cera de 40% da terrestre, sem falar na microgravidade que os astronautas deveriam experimentar durante ao menos parte do voo.

Mas o que realmente me irrita na Mars500 é o fato de o design da missão ser do tipo "de oposição", e não "de conjunção". Missões tripuladas de oposição para Marte são um desperdício de tempo e dinheiro.

Agora, claro que você adoraria saber do que estou falando. Existe uma explicação bem completa aqui, mas resumindo: numa missão "de oposição", a nave com os astronautas é lançada num momento em que Marte e o Sol estão de lados opostos da Terra, daí o nome; numa missão "de conjunção", o Sol se encontra entre Marte e nós. Na imagem abaixo, "E" é "Earth", Terra; "M" é "Mars", Marte. A conjunção está à esquerda, a oposição, à direita:

Por questões de mecânica celeste e economia de combustível, os dois tipos de oportunidade de lançamento têm perfis de missão radicalmente diferentes. Uma missão de oposição teria de durar cerca de 500 dias ("Mars500", sacou?), dos quais 400 seriam passados em trânsito no espaço e apenas 100 em órbita de Marte.

Deu para ver a estupidez da coisa? Você expõe os astronautas a mais de um ano de microgravidade, ao risco de colisão com detritos espaciais, à radiação dos raios cósmicos durante mais de um ano -- para que eles tenham de estudar um planeta inteiro em três meses. Se o objetivo foi mais ambicioso (por exemplo, preparar o terreno para uma colônia), então a viagem toda não passa de perda de tempo. É como se Colombo fosse embora quinze minutos depois de desembarcar no Caribe.

Já na missão de conjunção, os astronautas também passam um bocado de tempo em trânsito -- 360 dias, no total -- mas em compensação ganham-se 500 dias na superfície do planeta. O risco da viagem pelo vácuo é igual, mas o ganho em termos de exploração e colonização é cinco vezes maior.



As agências espaciais tendem a preferir missões de oposição porque o ganho político -- pôr um homem/mulher em Marte -- é o mesmo, enquanto que a duração e o risco global são muito menores (900 dias, a duração de uma missão de conjunção, oferecem muito mais oportunidades para um astronauta ter apendicite ou quebrar a perna pulando dunas do que os 500 da missão de oposição).

No caso da Mars500, outro ponto contra simular uma missão de conjunção é o fato de que passar 500 dias fazendo pesquisa científica de mentirinha num galpão cheio de areia, fingindo que se está em Marte, deve ser considerado violação dos direitos humanos pelo Parlamento Europeu.

Mesmo assim, espero que, se um dia astronautas forem mesmo para Marte, os 500 dias sejam apenas a duração da estada por lá -- e não da viagem inteira!

Descoberta estrela semelhante ao Sol com sistema de 6 planetas

O telescópio espacial Kepler encontrou uma estrela Tipo G -- isto é, do mesmo tipo que o Sol -- que é orbitada por seis planetas, dos quais dois (Kepler-11b e Kepler-11f) têm tamanho comparável ao da Terra, embora sejam maiores e fiquem muito próximos de sua estrela: 9% e 25% da distância que existe entre a Terra e o Sol. Mercúrio, em comparação, fica a uma distância que é 40% da que existe entre nós e o astro.

Kepler-11b tem quase cinco vezes a massa da Terra, mas é menos denso; os autores do artigo que descreve a descoberta, publicado na revista Nature, sugerem que esse mundo é dominado por material líquido, como Urano e Netuno, e uma atmosfera de hidrogênio e hélio, embora não descartem a possibilidade de um núcleo sólido de rocha e metal.




Estando tão próximo de sua estrela, 11b deve estar perdendo atmosfera muito depressa (bem como seu vizinho imediato, Kepler-11c, que é o de maior massa do sistema, com 13 massas terrestres, e que também deve se assemelhar a Urano e Netuno em estrutura e composição).

Já o planeta 11f, com  duas massas terrestres e densidade menor que a da água, deve conter grande quantidade de hidrogênio, assim como os planetas 11d e 11e, ambos também menos densos que a água. Todos os seis planetas do sistema são relativamente pequenos: nenhum deles tem mais do que cinco vezes o raio da Terra (em comparação, Júpiter tem 11 vezes o raio terrestre).



O fato de os seis planetas terem sido descobertos pelo Kepler mostra que todos transitam diante de sua estrela, bloqueando parcialmente a luz que vem dela em direção à Terra, pois esse é o método usado pelo satélite: ele avalia a variação na luminosidade de astros distantes. Toda a parte inicial do artigo na Nature é dedicada a defender a conclusão de que a queda na luz que chega à Terra vindo da estrela Kepler-11 é realmente melhor explicada pela presença de seis planetas ao seu redor.

(Denúncias de falso positivo têm marcado algumas alegações recentes de descoberta de planetas.)

As órbitas estão praticamente contidas num mesmo plano, como a dos planetas do nosso sistema solar.

Uma questão levantada no artigo da Nature é a da estabilidade do sistema, já que os planteas orbitam muito perto uns dos outros -- o mais distante da estrela, 11g, orbita a apenas 46% da distância que separa a Terra do Sol. A conclusão é de que a maioria dos planetas é estável na configuração atual, mas de que a situação de 11b e 11c "não está garantida".

Stephen Hawking, Deus e realidades paralelas

Terminei de ler há pouco tempo The Grand Design, de Leonard Mlodinow e Stephen Hawking, e estou mais ou menos no meio de The Hidden Reality, de Brian  Greene (o defensor e popularizador da Teoria das Cordas, que ficou famoso no Brasil por O Universo Elegante).

O livro da dupla Hawking-Mlodinow causou furor ao ser lançado no ano passado, por conta do alto perfil de mídia atingido pelas declarações de Hawking sobre a não-necessidade de um criador divino para o Universo.

Confesso que, na época, a repercussão me surpreendeu: a ideia de que a ciência física "não requer essa hipótese" (i.e., um criador consciente) para dar conta do Universo está por aí desde os tempos de Napoleão Bonaparte, e nunca chegou a ser seriamente desafiada pelas teorias físicas que se seguiram desde então.

O que ocorreu, durante o século XX, foi um acúmulo de insinuações de que talvez, quem sabe, a hipótese não fosse tão desnecessária assim.

(Parêntese: muitos cientistas e filósofos da ciência costumam dizer que o mandado da ciência é definido pela busca de causas naturais para os fenômenos naturais e que, portanto, quer Deus exista ou não, ele está, por definição, fora do escopo do método científico. Não concordo muito com isso: suponha, por exemplo, que a ciência tivesse sido definida como a busca de causas terrestres para fenômenos terrestres. Cedo ou tarde os cientistas -- confrontados com coisas como a luz do Sol ou meteoritos -- seriam forçados a rever essa definição, e ampliá-la, reconhecendo causas celestes para fenômenos terrestres. O fato de que nenhuma revisão do esquema "causas naturais para fenômenos naturais" ter sido necessária até hoje me parece significativo. Fecha parêntese.)



 Tentativas indiretas de contrabandear uma intencionalidade divina para o seio da física começaram com a teoria do Big Bang (proposta, incidentalmente, por um padre jesuíta, Georges Lemaître) e tiveram continuidade  com questionamentos sobre o estado do Universo em sua origem (Roger Penrose já escreveu que o estado altamente ordenado do Big Bang parece ter sido cuidadosamente selecionado) e, finalmente, pelo chamado Princípio Antrópico Forte (PAF), segundo o qual é apenas graças a um finíssimo ajuste nas leis da natureza que a vida humana é possível.

(Pessoalmente, sempre que ouço um físico invocar o PAF, tenho ganas de gritar: Não é o Universo que é ajustado para nós, nós é que somos ajustados para ele, estúpido!)

Menos do que uma afronta às religiões, o livro de Hawking é uma resposta ao misticismo difuso de alguns de seus colegas físicos -- não consigo deixar de imaginar, de fato, que seja uma resposta direta a Penrose, com quem Hawking já colaborou no passado para desenvolver uma teoria de buracos negros.

A solução de Hawking é tratar o Universo inteiro como um sistema quântico, no qual todas as histórias possíveis são realizadas -- o exemplo dado é o do experimento da fenda dupla, no qual uma única partícula parece percorrer várias trajetórias diferentes ao mesmo tempo. Se o Universo vive todas as histórias possíveis -- ou, se existem infinitos Universos, cada um com sua história peculiar --, então o que antes parecia altamente improvável (a ocorrência de um Big Bang, a forma exata das leis da natureza, etc.) torna-se comezinho.

O que nos traz ao livro de Greene que é sobre, exatamente, Universos paralelos. Este eu ainda não terminei, mas o argumento geral, até agora, é o de que a existência de realidades alternativas e outros Universos é uma consequência lógica natural dos melhores modelos cosmológicos disponíveis, como a Teoria Inflacionária (que descreve o que ocorreu logo após o Big Bang) e a expansão acelerada dos cosmo.

Livro por livro, o de Greene está me parecendo melhor. O de Hawking é muito superficial (se bem que sou suspeito para falar, já que sou o tipo de cara que gosta de equações em livros de divulgação científica), com tentativas de humor um tanto quanto atrozes ("A Lua não é feita de queijo Roquefort. Má notícia para os ratos"). Greene vai mais a fundo e é mais estimulante. Mas minha sugestão é de que se leiam os dois.




terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Satélite descobre mais de 33.000 asteroides; 130 perto de nós

A Nasa anunciou que a missão NeoWise – uma prorrogação da vida útil do satélite Wise, que fez uma varredura do céu na faixa de radiação infravermelha – descobriu 20 cometas, mais de 33.000 asteroides entre Marte e Júpiter e 134 asteroides próximos da Terra.

A missão Wise original operou entre dezembro de 2009 e outubro de 2010, quando o gás usado para refrigerar as câmeras do satélite terminou de vazar para o espaço. Como a radiação infravermelha é emitida por corpos aquecidos, era necessário manter o satélite o mais frio possível, para evitar que sua própria temperatura interferisse com as imagens obtidas.

Mesmo sem o refrigerante, no entanto, o satélite foi capaz de completer um catálogo de pequenos corpos do sistema solar.

Eu me lembro, na era Mesozoica, quando saiu um RPG chamado Buck Rogers – inspirado no primeiro heroi de ficção científica dos quadrinhos – como corri para comprá-lo (numa Bienal Internacional do Livro, porque internet não tinha ainda, não) e depois fiquei decepcionado ao ver que todas as aventuras se passavam dentro do sistema solar. Ora bolas, pensei em minha ignorância juvenil, por que não outras galáxias?

Bem, os dados do NeoWise são uma boa resposta ao jovem pentelho que deu origem a este velho ranzinza: o sistema solar é absurdamente rico. Dá para brincar com ele até dizer chega, e sem pensar, por um só segundo, em Alpha Centauri.

Abaixo, um retrato dos 20 cometas recém-descobertos:


Para lembrar que faltam apenas 3 dias para o 10:23


(Encontre mais cartuns cientificamente corretos em xkcd.com. Dando um palpite muito pessoal sobre a piada acima, fico imaginando se, na lógica homeopática, sêmen extremamente diluído não deveria funcionar como um anticoncepcional, na verdade... Um substituto da pílula! E a pílula, extremamente diluída, como um susbstituto do sêmen. Ah, sim: se você chegou agora e não sabe o que é o 10:23, leia aqui.)

Exemplos e personagens: convencendo idiotas

O título desta postagem -- mais um da minha longa DR com o jornalismo, cujos lances iniciais você pode conferir aqui e aqui --  ia ser "vieses cognitivos na imprensa", mas aí me lembrei de uma passagem da Arte Retórica de Aristóteles, onde o filósofo diz (estou parafraseando) que os idiotas se deixam convencer por exemplos, enquanto que as pessoas inteligentes só são persuadidas por argumentos.

A razão disso é simples: podem-se encontrar exemplos a favor de ou contra praticamente qualquer coisa. Sem controles adequados e um tratamento estatístico honesto e competente, um monte de exemplos acumulados de qualquer coisa não serve para provar nada. Ou, como se diz, "o plural de anedota não é dados".

("Anedota", nesse contexto, não é usada com o sentido de piada, mas algo mais próximo do original grego, anékdota, "coisas que não foram publicadas": relatos esparsos, desorganizados, que não formam um conjunto coerente.)

 A mente humana, no entanto, adora tirar conclusões a partir de exemplos. Eles são especialmente úteis porque não importa o quanto a sua convicção seja furada, você sempre conseguirá, a partir de uma criteriosa seleção de casos, "prová-la" por meio de exemplos.

Criminosos, corruptos e degenerados existem em todos os grupos humanos, o que garante que racistas de todo o espectro, nacionalistas e preconceituosos em geral sempre contam com um amplo estoque de casos exemplares a citar.

Este é um dos vieses cognitivos do meu título original: o viés de confirmação, que define a tendência humana de prestar mais atenção nos casos que confirmam crenças pré-existentes, fazendo pouco dos que poderiam desconfirmá-las.  O outro viés é o viés de disponibilidade: achar que o que está mais à mão é o mais comum, ou o mais normal. Se o viés de confirmação serve aos preconceitos, o de disponibilidade alimenta o provincianismo.

O viés de disponibilidade é uma praga persistente em pesquisas de opinião pública: por mais esforço que se ponha na tarefa de construir uma amostra aleatória, sempre resta a questão de que só responde à pesquisa quem está disposto a fazê-lo, e muitas vezes essa disponibilidade acaba viciando o resultado.

Chegando agora à imprensa: muito do jornalismo -- principalmente sobre saúde -- que se faz hoje oferece amplos flancos abertos a esses dois vieses. E isso por conta de um dos dogmas da forma, a necessidade de apresentar ao leitor um personagem.

O personagem é uma pessoa -- de preferência uma bela mulher jovem e trabalhadora de classe média, com quem o público leitor possa simpatizar (homens) ou se identificar (mulheres) -- que sofra da doença ou tenha passado pelo tratamento em questão. O depoimento do personagem pode dar apoio ou contradizer o espírito da reportagem principal.

O problema básico é que, exceto como fator-fofoca e modelo fotográfico, o depoimento do personagem é essencialmente irrelevante, e potencialmente daninho.

 Digamos, por exemplo (ops!), que a reportagem seja sobre a análise de 20 estudos médicos realizada pela Cochrane Collaboration e que demonstra que pílulas de antioxidantes como a vitamina E, a vitamina C e a vitamina A são totalmente inúteis para evitar câncer de estômago e intestino (yep! pode jogar a caixa de suplemento fora).

A personagem pode ser uma linda divorciada de 30 anos que luta para criar um casal de filhos de 7 e 3 anos e que toma suplementos  de antioxidantes porque tem casos de câncer gastrointestinal na família e quer se prevenir, e que atribui o fato de não estar doente ainda às vitaminas.

Então, de um lado você tem médicos sem rosto, usando termos esquisitos como meta-análise, para dizer (ainda que apenas por implicação) que o que essa mulher está fazendo é jogar dinheiro fora; e do outro, esta guerreira do mundo moderno, lutando contra o destino cruel, de jeans e camiseta na foto colorida.

Se o objetivo da reportagem é (como deveria ser) informar o leitor para que ele tome decisões mais responsáveis sobre sua saúde, essa personagem ajuda exatamente no quê? No que exatamente o depoimento de uma pessoa pesa, contra um estudo que avaliou os resultados de 211.818 participantes?

Aliás, o espaço que o depoimento ocupa na página não teria sido melhor usado dando-se uma explicação mais detalhada e didática da análise feita pelos cientistas? Claro, a personagem poderia ser um caso oposto -- alguém que desenvolveu câncer mesmo tomando suplementos -- mas os pacientes da doença são uma pequena porcentagem da população. O viés de disponibilidade milita contra.

Acho que ficou claro que existe uma questão ética complexa na seleção do personagem para uma reportagem de saúde: o depoimento pessoal, com seu caráter emocional e o poder retórico do exemplo, pode, aos olhos do leitor, fazer um argumento científico ruim parecer robusto, ou lançar dúvidas infundadas sobre um resultado sólido.

Repórteres conscienciosos sabem disso, e são especialmente cuidadosos na seleção de personagens para suas histórias. Mas repórteres conscienciosos também são seres humanos, e podem se sentir tentados a cortejar o senso comum (ou suas próprias convicções pessoais) escolhendo personagens com o perfil "certo".

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Há 50 anos: o primeiro chimpanzé espacial

O mundo está se preparando para a celebração, em abril deste ano, dos 50 anos da viagem de Yuri Gagarin ao espaço, mas hoje festejamos o primeiro primata a deixar a Terra (ainda que não tenha chegado a entrar em órbita): Ham, o chimpanzé espacial.

Em 31 de janeiro de 1961, um macaco de quatro anos chamado Ham foi lançado num voo suborbital na missão Mercury-Redstone 2, que voou por 16 minutos, seis dos quais em microgravidade.

Ham demonstrou que era possível trabalhar durante um voo espacial -- ele puxou alavancas instaladas na cápsula, como havia sido treinado para fazer, e sem perda de eficiência em comparação com os exercícios realizados em terra.

Ham foi submetido a uma aceleração equivalente a 14 gravidades terrestres (os astronautas dos ônibus espaciais passam por uma aceleração máxima de 3 gravidades; um autódromo nos EUA foi retirado de um campeonato de automobilismo porque os pilotos chegavam a experimentar 5 gravidades nas curvas).

O chimpanzé espacial voltou à Terra vivo e saudável, a despeito do desafio. Depois da aventura espacial, ele viveu num zoológico e numa colônia de chimpanzés, vindo a morrer de causas naturais em 1983, anos 26 anos -- relativamente jovem para um chimpanzé.

Abaixo, uma imagem de seu túmulo:

LHC vai rodar em 2012!

O Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN) anunciou -- press-release aqui -- que o Grande Colisor de Hádrons, o LHC, vai funcionar durante 2012. Problemas orçamentários do CERN, ligados à crise econômica que assola a Europa, haviam levado à decisão de interromper o funcionamento do colisor no ano que vem, para juntar grana para uma retomada mais à frente.

Agora, o CERN informa que após "uma curta parada técnica no fim de 2011", o colisor voltará a operar no ano que vem, em busca de "nova física", antes de parar para ser recondicionado para a temporada 2014, quando atingirá, finalmente, a energia de 7 TeV ("Tera-elétron-Volt") por raio.

Esse negócio de "elétron-Volt"  e "Tera-elétron-Volt" costuma não ficar muito bem explicado na maioria das reportagens sobre o LHC, então vamos lá:

O elétron-Volt é uma unidade de medida de energia, como o Joule, de que você certamente já ouviu falar (se não dormiu nessa aula).

A questão é que o Joule é uma unidade criada para quantificar a energia gerada e usada no dia-a-dia, em carros, hidrelétricas, etc. O consumo médio mensal de uma residência no Brasil, por exemplo, é da ordem de 540 milhões de Joules, ou Mega Joules.

Já o elétron-Volt é uma unidade mais afeita ao mundo das partículas subatômicas. E, assim como "Mega" é um prefixo grego que denota "milhão", "Tera" denota "trilhão". Ao lado, você vê uma simpática tabela de prefixos do tipo, cortesia do WolframAlpha.

No caso, 1 TeV corresponde à energia cinética de um mosquito voando. Assim, 7 TeV, a energia que o LHC espera atingir em 2014, corresponde a sete mosquitos circulando pela sala. Não parece grande coisa até que se pare para pensar que essa é a energia de cada próton.

Não só os prótons são muito menores que mosquitos, como cada raio -- ou feixe de prótons -- do LHC é composto de bilhões de prótons individuais. A energia esperada de um raio de intensidade máxima será de 386 MJ, ou pouco mais do que 70% da necessária para manter uma casa brasileira funcionando por um mês. Tudo concentrado em alguns milésimos de milímetro (detalhes, aqui).

O objetivo disso tudo é, como se diz, descobrir uma "nova física". Todo mundo fala do bóson de Higgs -- a partícula hipotética que confere massa às demais -- mas a minha descoberta favorita (caso ocorra) será a de dimensões extras.

Energias extremamente elevadas produzem partículas com comprimentos de onda muito pequenos -- os fótons de raios-X, que têm energia suficiente para danificar moléculas, possuem um comprimento de onda bem inferior ao da luz comum, por exemplo -- e eventualmente uma dessas partículas poderá "desaparecer" numa minidimensão, pequena demais para ser penetrada pelas partículas conhecidas.

Ilha de Sark, o último bastião da civilização

Minha mulher e eu volta e meia debatemos os prós (vida cultural intensa, metrô, bares e restaurantes) e contras (preço, custo, preço) de uma mudança para São Paulo, mas agora outra parte do mundo acaba de superar a capital paulista como meu sonho geográfico de consumo: a Ilha de Sark, no Canal da Mancha, entre França e Inglaterra (mais perto da França, é verdade).



Visualizar Sark Island em um mapa maior


Por quê? Bem, ela foi declarada Ilha de Céu Escuro pela Dark Sky Association, o que basicamente significa que lá é possível olhar para o céu à noite e ver estrelas -- em vez, por exemplo, do reflexo dos holofotes que iluminam mais uma das infinitas imitações baratas de obra de Oscar Niemeyer que infestam os espaços públicos brasileiros.

"O céu noturno é muito escuro, com a Via-Láctea indo de horizonte a horizonte, meteoros passando e incontáveis estrelas", diz o entusiástico press-release do website de turismo da ilha.


Além de não ter nenhuma iluminação pública à noite, a ilha -- de aprazíveis 5,5 km² e 600 habitantes -- não possui estradas. Na verdade, o único tipo de automóvel permitido lá são tratores, usados para puxar carga do porto.

É isso mesmo: é proibido usar carro particular por lá. O que seria mais civilizado que isso? O site da ilha recomenda que visitantes façam reservas antecipadas de charretes e bicicletas. Abaixo, uma imagem aérea de Sark, tirada da Wikipedia (se a ideia de uma unidade política que cabe inteira numa foto lhe surpreende, você não está sozinho):


A nota do jornal britânico The Guardian, linkada no segundo parágrafo desta postagem, tem uma bela foto do céu de Sark à noite. Infelizmente, trata-se de uma imagem da Associated Press, e por isso não posso reproduzi-la aqui. Mas o material do Guardian  merece ser lido.

Em 2009, durante a assembleia da União Astronômica Internacional realizada no Brasil, foi aprovada uma resolução "pelo direito à luz das estrelas".

A poluição luminosa -- a luz desperdiçada à noite, seja por iluminação pública mal-planejada, seja pela megalomania dos holofotes usados para destacar monumentos, prédios públicos, festas de gente brega, etc. -- não só destrói a apreciação do céu noturno, como ainda causa dano ecológico, confundindo o relógio biológico de insetos e outros animais.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Falácias jurídicas e probabilidade condicional

Dizem que O.J. Simpson tinha um advogado tão bom que conseguiu usar o fato de que o ator e ex-jogador de futebol espancava a mulher para convencer o júri de que era improvável que ele a tivesse matado.

Como? Bem, o defensor citou uma estatística dizendo que, dos maridos que espancam as esposas, apenas 1 em 1.000 se tornam assassinos. Logo, a chance de seu cliente ser culpado era de 0,1%!

Em outro ponto do julgamento, a defesa atacou a evidência do exame de sangue que ligava Simpson à cena do crime, dizendo que seria possível "encher um estádio" com pessoas que também dessem positivo no mesmo teste.

Ambos os argumentos são exemplos da chamada "falácia do advogado de defesa" ou "falácia do promotor" (dependendo do lado do argumento a que serve), e que basicamente representa o truque de expor estatísticas e probabilidades sem oferecer o contexto necessário para sua interpretação.

 Essa descontextualização costuma acontecer quando se confundem probabilidades condicionais, invertendo-as ou tratando-as como se fossem incondicionais.

Probabilidade condicional é a probabilidade de acontecer X, dado que aconteceu Y. Por exemplo, a chance de Beto e Alice estarem morando juntos, dado que são casados, parece bem alta. Mas qual a probabilidade de Beto e Alice serem casados, dado que moram juntos? Eles podem simplesmente estar dividindo o aluguel, ou serem irmãos, ou estarem "namoridos".

Assim, a probabilidade de X, dado Y -- na notação oficial, p(X|Y) -- pode ser bem diferente da probabilidade de Y, dado X, ou p(Y|X).

No caso O.J., os jurados foram expostos à chance de o marido vir a matar a mulher, sendo que ele a espanca (1 em 1.000, de qualquer forma muito mais alta que o risco de uma mulher ser morta por um marido que não a espanca, ou por um estranho qualquer na rua), quando o dado relevante, diante do fato consumado -- a esposa já tinha sido assassinada! --, era qual a chance de a mulher ter sido morta pelo marido, dado que ele a espancava.

No exame de sangue, o argumento do "estádio cheio" ignora o fato de que o suspeito, no caso, não era uma pessoa qualquer, escolhida ao acaso na rua, mas alguém contra quem já pesavam diversas outras evidências de autoria do homicídio.

Mesmo supondo que, na população da cidade onde o crime foi cometido, 10.000 pessoas tivessem o mesmo tipo de característica detectada pelo exame, quantas das outras 9.999 tinham motivo, oportunidade e meios para cometê-lo? E contra quantas delas pesavam evidências complementares tão fortes quanto as que existiam contra O.J.? Esse contexto foi omitido pelo advogado.

No lado da promotoria, o caso mais conhecido de erro de probabilidades é o de Sally Clark (que ilustra esta postagem, aliás). A britânica perdeu dois filhos -- ambos bebês recém-nascidos, nas primeiras semanas de vida -- num intervalo de poucos anos. Ela foi condenada por duplo homicídio, com base no argumento de que a probabilidade de haver duas vítimas consecutivas de Síndrome da Morte Súbita Infantil numa mesma família era baixa demais.

A própria Royal Statistical Society manifestou-se contra o veredicto. Antes de condenar Sally, não bastava estabelecer que a probabilidade de duas mortes acidentais consecutivas era extremamente baixa;  ainda deveria ter sido demonstrado que a probabilidade de duplo homicídio seria maior. O que não era o caso: um matemático chegou a calcular que a chance de uma mãe matar deliberadamente dois bebês recém-nascidos era várias vezes menor que a de dois acidentes.