sábado, 22 de janeiro de 2011

Veja lua de Marte em 3D!

A Agência Espacial Europeia (ESA) divulgou imagens feitas por sua sonda Mars Express durante uma passagem próxima a Fobos, uma das duas luas de Marte. Uma das imagens é um anaglifo, uma sobreposição das cores azul e vermelho que permite uma visão em 3D da lua, desde que se tenha os óculos adequados, com celofane vermelho sobre o olho esquerdo e azul no direito.

Esses óculos vêm de brinde em gibis 3D (como a HQ Superman: Last Son, do Super-Homem), e a Nasa oferece um tutorial para quem quiser fazer um par em casa (que você encontra aqui). Aliás, a Nasa também ensina a fazer imagens 3D com uma câmera digital comum.


O efeito 3D funciona porque as cores sobrepostas da imagem, filtradas pelos celofanes de cores diferentes, garantem que um olho registre uma imagem ligeiramente diferente da que está sendo captada pelo outro -- exatamente o mesmo efeito que gera a visão tridimensional normal.

Uma teoria sobre a origem de Fobos (cujo nome signifca "Medo", em grego) propõe que ela seja, na verdade, um asteroide capturado pela gravidade marciana. Um fato confirmado é que Fobos está caindo, e deve colidir com Marte daqui a 50 milhões de anos.

A imagem abaixo marca dois pontos da superfície da lua que deverão ser visitados pela sonda Phobos-Grunt, que a agência espacial russa pretende lançar no fim deste ano, se não sofrer novos contratempos (o lançamento original estava previsto para 2009).




A sonda russa levará, de carona, a primeira sonda marciana da China, além do experimento “Life”, da organização Planetary Society, que estudará como seres vivos da Terra se viram no espaço durante uma viagem a Marte. A cápsula Life transportará amostras de bactérias e até da planta Arabidopsis thaliana, um clássico organismo-modelo.


Fobos também é lar de uma enorme cratera, Stickney, batizada em homenagem à matemática, ativista política e abolicionista americana Angeline Stickney Hall, mulher do descobridor de Fobos, Asaph Hall. Medindo 9 km de diâmetro, a cratera ocupa uma boa proporção da superfície da lua, que tem 22 km de diâmetro ao todo. Stickney aparece na imagem abaixo:


A “cratera dentro da cratera” chama-se Limtoc, nome de um personagem das Viagens de Gulliver. Nesse livro de Jonathan Swift, publicado em 1726, os astrônomos da ilha Laputa dizem ter descoberto duas luas em Marte. Fobos e a outra lua de Marte, Deimos ("Terror") foram realmente descobertas na década de 1870 por Asaph Hall.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

2011, o ano em que decidiremos o destino da varíola

A primeira epidemia de varíola de que há conhecimento ocorreu em 1350 AEC. Cicatrizes causadas pela doença aparecem na múmia do faraó Ramsés V. Os colapsos do Império Romano e dos Impérios Asteca e Inca podem ter sido apressados pela doença, que durante o século XVIII matava cerca de meio milhão de pessoas ao ano, somente na Europa.

Reis e imperadores, entre eles Pedro II da Rússia, Luís XV da França e Higashiyama do Japão sucumbiram ao vírus da Variola vera.

A doença em si pode ser descrita como o material de que pesadelos são feitos: começando com fortes dores de cabeça e crises de ansiedade, ela evolui para feridas que se espalham pela pele, e que podem causar sangramento a partir dos olhos, das gengivas, dos ouvidos e do nariz.

Conforme a doença progride, as feridas acabam cobertas de bolhas que se vão enchendo de pus, esticando-se até um ponto em que chega a se tornar impossível reconhecer o doente por baixo da camada de pústulas. Então as bolhas estouram. O cheiro que emana das feridas abertas foi descrito num relato do século XVIII como "podre e venenoso". A taxa de mortalidade era de 30%.

E eis que, desde uma epidemia final em 1977, na Etiópia, a doença desapareceu da face da Terra.

A vitória foi da vacina -- que se seguiu à prática mais primitiva de inoculação, na qual o pus dos doentes era esfregado numa ferida aberta no corpo de uma pessoa saudável. O processo surgiu de forma empírica, mas hoje sabemos que ele dava ao sistema imunológico do paciente uma oportunidade de familiarizar-se com o vírus, deixando-o precavido.

O fato de as pessoas nos séculos XVII e XVIII aceitarem se submeter a um procedimento tão repugnante é, nas palavras de Seth Mnookin, autor do livro The Panic Virus: A True Story of Medicine, Science, and Fear, um testemunho do horror que a doença causava.

(O livro de Mnookin é sobre a onda irracional de propaganda antivacinação que se espalhou pelo mundo a partir da Inglaterra, na década de 90, um assunto de que pretendo tratar numa postagem específica mais adiante.)

As últimas amostras conhecidas do vírus da varíola existem em dois laboratórios: um em Atlanta, nos EUA, e outro em Novisaibirsk, na Rússia. Em maio desde ano, a Assembleia Mundial de Saúde vai decidir se uma data deve ser marcada para a destruição desses vírus.

Em editorial, a revista Nature manifesta oposição à ideia. O argumento é de que esses estoques são necessários para combater um eventual ressurgimento da doença. Os estoques americano e russo são apenas os conhecidos, adverte o texto. Não se sabe quem mais pode ter amostras do vírus, nem o que essas "fontes não declaradas" podem se sentir tentadas a fazer com ele.

Regressão estatística e ciências humanas: atração fatal

É possível usar uma equação matemática para prever que países correm mais risco de sofrer violência interna contra o Estado? Andam dizendo que sim: a corporação Milcord afirma ter desenvolvido um "modelo de regressão" que analisa diversos dados publicamente disponíveis e prevê o risco de intensificação da violência política em todo o mundo, entre 2010 e 2014. Regressão, hum? Continue lendo.

No dia 7 de janeiro de 2012, quando estiver completando um ano, este blog receberá exatamente 5.847 visitas. Com base em quê afirmo disso? Num modelo de regressão.

Para fazer esse tipo de análise, você pega um conjunto de dados (por exemplo, o número de visitas ao blog a cada dia) lança-o num gráfico, traça uma curva que passe por todos os pontos -- ou, ao menos, bem perto da maioria deles -- e pede ao computador que deduza uma equação capaz de produzir exatamente aquela curva (ou uma aproximação razoável).

Aí (esta é a parte bonita da história) você usa a equação para descobrir as coordenadas de pontos da curva localizados no futuro. Foi o que fiz: pedi ao computador que me desse a ordenada correspondente à abscissa 365 e, voilà!, cheguei a 5.847.

Se você está achando isso tudo muito estranho e bem pouco digno de crédito, parabéns: regressão estatística é uma técnica muito útil em diversos contextos, mas como toda ferramenta tem lá seus limites. E o meu pequeno exercício certamente leva-a além de qualquer ponto razoável. E o fato é que não estou sozinho em forçar a barra.

O jornalista Charles Seife, em seu livro Proofiness: The Dark Arts of Mathematical Deception, cita um artigo publicado em 2004 na revista Nature onde um grupo de pesquisadores aplicava regressão aos tempos dos velocistas olímpicos e concluía que, em 2156, o recorde mundial feminino dos 100 metros rasos teria um tempo menor que  o masculino. Seife diverte-se ao apontar que a mesma equação prevê que em 2600 as mulheres terão quebrado a barreira do som, e alguns anos mais tarde, estarão correndo mais rápido que a luz.

O que é patentemente absurdo.

O caso da Nature não é isolado. Economistas, especialistas em saúde pública e cientistas políticos, em especial, sentem uma atração fatal pela regressão, o que suspeito que representa uma modalidade daquilo que se convencionou chamar "inveja da Física".

A ideia é que as chamadas ciências "humanas" ou "moles" invejam o poder da Física, uma ciência onde equações são capazes de prever eventos com uma precisão fenomenal -- por mais que se fale na "incerteza quântica", a teoria gera previsões que já foram confirmadas a várias casas decimais.

Economistas são especialmente vulneráveis à sedução das equações. Seife cita o caso de Ray Fair, da Universidade Yale, que depois de aplicar regressão aos resultados das eleições presidenciais americanas de 1912 a 1976 chegou a uma equação que teria o poder de prever o resultado das eleições futuras. Ela acertou  o desfecho dos pleitos de 1980, 1984, 1988 e... fracassou solenemente em prever a vitória de Bill Clinton em 1992. E errou de novo em 1996. "A equação de Fair é um modelo sofisticado para encontar padrões nos dados, mas o padrão era praticamente sem sentido", resume Seife.

No caso da Milcord, eles chegaram a uma lista de 37 países, com Irã no topo e a Bélgica no pé, que correm o risco de assistir a atos de "violência política até cinco anos no futuro". Sem querer ser chato mas já sendo, 37 países são 20% do total de 192 membros das Nações Unidas, e cinco anos é um bocado de tempo.



A chance de um número razoável de acertos ocorrer por puro acaso -- ainda mais que a lista inclui várias nações onde qualquer leitor casual dos jornais pode esperar ver encrenca, como Irã, Israel, México e Sudão -- está longe de ser desprezível.

A Milcord mantém um blog de acompanhamento dos resultados do modelo, e considera que eventos recentes na Tunísia e na Itália (onde manifestações contra Silvio Berlusconi ficaram um tanto quanto agressivas em meados de dezembro) são indicadores preliminares de sucesso.

Mas serão mesmo? Como todo vidente profissional sabe, é muito fácil ganhar reputação de profeta bem-sucedido: basta fazer um grande número de previsões, a maioria genérica e preferencialmente plausível (um avião vai cair, um membro da Academia Brasileira de Letras vai morrer, a presidente Dilma enfrentará dificuldades no meio do ano)  e uma ou duas específicas e improváveis (o PMDB via romper com o governo, os juros vão cair) e, depois, contar os sucessos e esquecer de mencionar os fracassos.

As previsões improváveis valem a pena porque, se por acaso uma delas se confirmar, você está feito: como alguém poderia saber que isso ia acontecer? O cético Benjamin Radford é muito bem nisso.

O modelo da Milcord tem algumas semelhanças com esse padrão. O fato de um quebra-quebra na Itália (nada muito incomum, até onde os italianos vão) e uma revolução na Tunísia serem ambos consideardos sinais de sucesso mostra que o espectro de "sucesso" é generoso -- um gol enorme, onde a bola teria de se esforçar para não entrar.

É curioso, por isso mesmo, ver onde o modelo falhou: nele, EUA e Brasil aparecem como países de risco extremamente baixo. Bem, então o que explica a onda de violência do crime organizado contra o Estado do Rio em 2010 e o atentado recente contra a deputada Gabrielle Giffords no Arizona?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O cachorro unicelular imortal apronta mais uma

A revista Science desta semana traz um artigo sobre uma das mais bizarras formas de vida existentes na Terra: o  Tumor Venéreo Transmissível Canino, ou TVTC. Agora, talvez você esteja confuso: eu falei em ser vivo e dei o nome de uma doença. Como assim?

Bom, o fato é que o tumor canino é um ser vivo -- basicamente, uma célula que passa de um cão para outro (como o "venéreo" do nome diz, geralmente durante o ato sexual) e sobrevive como parasita do novo hospedeiro, sequestrando recursos de seu corpo para reproduzir-se.

O que faz do TVTC uma criatura única, diferente de praticamente todos os parasitas conhecidos (o único caso similar ocorre em diabos da Tasmânia) é o fato de que, geneticamente, ele é um animal canino. Você pode imaginá-lo como um cão unicelular que vive pulando de hospedeiro em hospedeiro há 10.000 anos. Sabe-se que os tumores atuais têm todos um ancestral comum de alguns séculos atrás.

(Fico imaginando a questão bioética que surgiria se uma doença assim aparecesse na raça humana: afinal, a célula parasita, sendo geneticamente humana e distinta do hospedeiro, deveria ser considerada uma pessoa?  Eu acho que não, mas...)

O artigo na Science diz que uma das estratégias usadas pelo tumor para sobreviver envolve a captura de mitocôndrias do hospedeiro. Mitocôndrias são estruturas que produzem energia para a célula, e têm um DNA próprio -- cientistas acreditam que no passado elas eram uma forma de vida à parte, que acabou assimilada às células que viriam a evoluir nos seres pluricelulares (peixes, mosquitos, cães, gatos, você) há mais ou menos 2 bilhões de anos.

Os autores do novo artigo, do University College London, chegaram a essa conclusão notando alguns casos de forte semelhança entre o DNA mitocondrial do tumor e o do cão hospedeiro, enquanto que o material genético do núcleo da célula do câncer mantinha-se livre de parentesco com o do anfitrião.

Para além da curiosidade, é possível que a mesma tática seja usada por outros tipos de câncer, inclusive as variedades humanas.

(A imagem no alto da postagem mostra uma colônia de totozinhos milenares)

Vela solar na Nasa ressuscita e liga para casa

Esta história começa com um caramuru dando chabu: em 6 de dezembro, a Nasa ordenou a um satélite em órbita terrestre que abrisse uma comporta e ejetasse uma vela solar, a Nanosail-D. Tudo parecia ter dado certo, mas a vela não deu sinal de vida (ela contém um transmissor de rádio que em tese deveria ser captado por radioamardores na frequência de 437,270 MHz -- mais detalhes aqui.)

Agora, no entanto, a Nasa avisa que a vela está viva e passa bem. Aparentemente, ela se ejetou sozinha em algum momento desta semana. A ejeção foi confirmada ontem, quarta-feira.

A Nanosail-D é realmente "nano", com uma área de 10 metros quadrados. A vela solar lançada ao espaço pelo Japão no ano passado, a Ikaros, em comparação tem mais de 200 m².

Velas solares obtêm propulsão a partir do impacto das partículas de luz do Sol, os fótons. Com suas superfícies espelhadas, conseguem energia para se mover duas vezes a cada impacto -- uma quando o fóton as atinge, e outra quando ele é ejetado (refletido) de volta ao espaço.


Velas solares são uma alternativa interessante para propulsão no interior do sistema solar, já que dispensam o transporte de combustível para a realização de manobras. Cada grama que se consegue evitar lançar ao espaço traz uma economia significativa.

Numa nota mais cabotina, não posso deixar de mencionar que  vela de luz é o mecanismo de movimento da nave espacial Nômade, cenário de meu romance de ficção científica do mesmo nome (um útil link para adquiri-lo está, por coincidência, disponível no alto desta página, aliás).

Como a Nômade está em viagem a outra estrela, no entanto, ela depende de um canhão de luz baseado no sistema solar para bombardear suas velas com raios laser. Não se tarta de um plano tão maluco qunato pode parecer: encontrei-o no volume Interestellar Travel and Multi-Generation Starships, que por incrível que pareça é um tratado acadêmico.

Lá vamos nós: a fusão a frio ataca novamente

Dois cientistas italianos, Andrea Rossi e Sergio Focardi,realizaram uma coletiva de imprensa para anunciar o sucesso de um dispositivo de fusão nuclear que opera à temperatura ambiente e que transforma átomos de hidrogênio e de níquel em cobre, liberando no processo 30 vezes mais energia do que é consumida. No entanto, o artigo técnico que descreve o feito foi rejeitado por todas as revistas científicas a que foi submetido, o resultado viola as leis da Fìsica (o próprio artigo, disponível online, admite isso) e nenhuma descrição detalhada no sistema foi apresentada até agora. Uma primeira tentativa de obter uma patente internacional para o aparato não foi muito bem-sucedida.

Se o parágrafo acima não deixou você com a pulga atrás da orelha, continue lendo.

Um vídeo sobre a apresentação do sistema, publicado no site Physorg.com, mostra basicamente uma caixa preta (na verdade, azul) coberta de aparelhos, cientistas falando e uma tela de computador onde aparecem números e uma curva -- algo que o espectador deve, por pura fé, aceitar que descreve os eventos entro da  caixa (a imagem da caixa é a ilustração inicial desta postagem.)

Um vídeo de mais de 40 minutos, disponível no YouTube, contém o trecho exibido pelo Physorg, emoldurado por uma série de discursos e explicações (em italiano, para quem quiser tenta seguir -- não é muito difícil para quem fala português, já que as declarações são bastante pausadas) sobre o significado das medições e as salvaguardas adotadas.

A coisa toda me fez lembrar de duas situações. A primeira, e mais óbvia, o fiasco de Stanley Pons and Martin Fleishmann, que em 23 de março de 1989 haviam anunciado à mídia em geral a descoberta da fusão a frio -- antes que seus dados tivessem sido revisados por outros cientistas ou publicados numa revista especializada.

Esse tipo de abordagem -- poderíamos resumi-la como falar com o Fantástico antes de com a Nature -- era considerada, antes do caso Fleishmann-Pons, mera falta de etiqueta. Hoje em dia, diante de um mundo mais experiente (alguns diriam, mais cínico) é tida um sinal claro de hype fabricado, quando não de fraude pura e simples.

(Convém lembrar que o resultado de Fleishmann e Pons já estava desacreditado antes mesmo do fim do ano.)

A segunda situação é o caso Uri Geller. Quem não viveu os anos 70 provavelmente não se lembra do super-paranormal israelense, que virou até marchinha de carnaval aqui no Brasil ("Uri, Uri, Uri Geller, vê se desentorta esta mulher...") com seu poder de dobrar metais usando apenas a força de vontade.

Muitos parapsicólogos levaram Geller extremamente a sério, e dois deles, Russel Targ e Harlod Puthoff, chegaram a publicar um artigo na revista Nature a respeito. Mágicos profissionais ficaram estupefatos: aí estava um sujeito fazendo truques comuns e sendo levado a sério por cientistas simplesmente porque dizia que não eram truques, e sim feitos paranormais! (Quem quiser saber mais sobre Uri não pode deixar de ler o fantástico The Truth About Uri Geller, de James Randi.)

O ponto aqui é a mágica: um truque de mágica consiste, muitas vezes, em dizer -- ou dar a entender -- que se está fazendo uma coisa enquanto, na verdade, se faz outra. A caixa azul lacrada e os monitores de computador -- que podem ou não estar descrevendo o que acontece nela -- são ideais para esse tipo de ofuscação.

Claro, é possível que Rossi e Focardi tenham realmente descoberto um novo tipo de fenômeno quântico capaz de produzir energia barata e limpa para a humanidade, e que só se recusem a revelar detalhes do aparelho por medo de pirataria comercial. Se assim for, ambos certamente serão  lembrados pelos próximos séculos e milênios ao lado de outros grandes benfeitores da humanidade, como Alexander Fleming, o descobridor da penicilina.

Mas, até lá, vamos matar o tempo com o desaparecimento da Estátua da Liberdade, por David Copperfield:


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Moléculas da vida são selecionadas no espaço?

Uma das coisas mais estimulantes da ciência é a forma como novas informações podem alterar a maneira pela qual antigos dados são interpretados. Veja, por exemplo, a relação entre a quiralidade dos aminoácidos e a ideia de que os ingredientes da vida podem ter chegado à Terra vindos do espaço.

Ainda comigo? Bom ver que os leitores do blog não temem polissílabos. Por partes: aminoácidos são moléculas que, ligadas em cadeia, formam proteínas. Proteínas, por sua vez, são as principais moléculas que formam e que trabalham no seu corpo, e que formam e trabalham nos corpos de todos os demais seres vivos.

(Por falar nisso, quando um comercial de cosmético ou suplemento alimentar diz que o produto anunciado contém "aminoácidos essenciais", ele não está oferecendo nada que você não possa obter de um modesto bifinho.)

Sobre a quiralidade: a palavra tem a mesma raiz de quiromancia, a empulhação  arte de ler o futuro na palma da mão, o grego chéri, que significa, adivinhe só, "mão". "Quiralidade" é a propriedade, igual à das mãos, de existir em duas formas, uma direita e uma esquerda.

(Em termos mais gerais, objetos que são idênticos à reflexão que apresentam num espalho -- por exemplo, a letra "T" -- não têm quiralidade. Objetos que aparecem invertidos no espelho -- como a letra "L" -- têm.)

Muitos aminoácidos têm quiralidade, e essa característica representa um pequeno paradoxo: embora, quando produzidos em laboratório, eles surjam na versão direita ou esquerda com igual probabilidade, nas proteínas dos seres vivos só existem predominam aminoácidos esquerdos (correção humildemente adotada após conferir o blog RNAm, aqui). Pior: qualquer tentativa de misturar aminoácidos diretos numa proteína atrapalha profundamente a função biológica da molécula.

Durante muito tempo, esse fato foi usado como argumento a favor da ideia de que a vida, tal como existe na Terra, era exclusiva da Terra: se aminoácidos direitos e esquerdos são igualmente prováveis, a opção terrestre pelos esquerdos deveria ter sido fruto de um acidente nos primórdios da evolução, um acidente particular do ambiente terráqueo.

Alienígenas poderiam ser feitos de aminoácidos direitos (o que garantiria que não seriam capazes de se nutrir consumindo proteína humana, um fato tranquilizador), ou de alguma biologia exótica racêmica -- isto é, que conseguiu misturar com sucesso as duas modalidades.

Há alguns anos, no entanto, estudos de meteoritos começaram a revelar uma preponderância de aminoácidos esquerdos vindos do espaço. Eu já entrevistei a autora de uma dessas descobertas, em 2008.

Com isso, o argumento de que a quiralidade torna improvável o surgimento dos blocos básicos da vida no espaço vira de ponta cabeça, já que os fatos disponíveis passaram a mostrar que, primeiro, os aminoácidos canhotos são preponderantes em dois tipos de situação: dentro dos seres vivos terrestres e nas rochas espaciais; e segundo, que na Terra, fora dos seres vivos, as formas direita e esquerda são igualmente prováveis.

Combinados, esses fatos sugerem que a seleção pela variedade esquerda aconteceu no espaço, e que os aminoácidos que entraram na evolução da vida terrestre já chegaram aqui pré-selecionados. Isso ainda é apenas uma sugestão, veja bem; mas muito interessante.

Nesta semana, a revista Meteoritics and Planetary Science reforça a nova interpretação, trazendo um artigo de pesquisadores que afirmam ter detectado preponderância  da versão canhota de um aminoácido, isovalina, numa grande variedade de meteoritos ricos em carbono. O principal autor do estudo, Daniel Glavin, da Nasa, diz que a ação da água sobre os meteoritos parece ser um dos fatores que causa o excesso de canhotos, mas que esse excesso já devia estar presente na rocha antes da água acentuá-lo.

Glavin sugere que a radiação que banhava o nosso sistema solar em seus primórdios pode ter algo a ver com o favoritismo dos aminoácidos esquerdos. Isso não exclui, no entanto, a possibilidade de haver alienígenas incapazes de apreciar carne humana: o pesquisador especula que outros sistemas solares podem ter se formado em ambientes de radiação diversos, que acabariam favorecendo as moléculas destras.

O planeta habitável que talvez não esteja lá



No ano passado, em plena corrida eleitoral, escrevi uma matéria que, durante algumas horas, foi a mais lida de todo o estadão.com.br, superando até mesmo o circo Serra/Dilma: tratava-se da descrição da descoberta de Gliese 581g, um planeta com cerca de 4 vezes a massa da Terra e que é potencialmente habitável. Mas, como dizem os latinistas, sic transit gloria mundi: algum tempo depois, a existência do planeta foi posta em dúvida por outra equipe de astrônomos (o que também noticiei dilgentemente).

Vários meses mais tarde, análise estatística feita por um terceiro astrônomo, não envolvido com nenhuma das duas equipes anteriores, sugere que a chance de Gliese 581g realmente existir é de parcos 0,002%.

Situação que deve deixar muita gente coçando a cabeça. Digo, como é possível não ter certeza de se um planeta existe? Essas coisas são enormes, e Gliese 581g é maior que a Terra, ora bolas. Uma coisa é não saber onde estão as chaves de casa, outra é perder uma massa equivalente a dez nonilhões de chaves.

Claro, o Universo é razoavelmente maior que a maioria dos lugares onde as pessoas costumam esquecer as chaves. E a questão do desaparecimento de Gliese 581g lança luz sobre o método pelo qual planetas distantes são descobertos.

Atualmente, com os satélites Kepler e Corot, é possível virtualmente ver os planetas -- ou ao menos suas sombras -- ao descobri-los: esses dois observatórios espaciais detectam o enfraquecimento da luz de uma estrela quando um planeta passa diante dela. Para que essa técnica seja eficaz, no entanto, é preciso que a órbita do planeta em torno da estrela esteja no mesmo plano da linha de visão que une a estrela à Terra. Se, em vez disso, a órbita, vista da Terra, for algo parecido com o emblema na testa do Dr. Manhattan, nada feito. Não temos (ainda) a capacidade de enxergar diretamente planetas que não passam na frente de suas estrelas.

Quando o alinhamento não é favorável, a detecção tem de ser feita por meios indiretos. Basicamente, os astrônomos usam as perturbações no movimento da estrela causadas pela presença de uma massa não-observada na vizinhança para deduzir a existência do planeta. O problema é que, com esse tipo de evidência indireta, acontece de algumas vezes a mesma perturbação poder ser explicada por diferentes cenários hipotéticos.

(Suponha que você more numa casa com três crianças igualmente encrenqueiras. Quando escuta o vaso quebrar na sala, você corre até lá e vê os três petizes fazendo cara de anjinho, todos a uma boa distância dos destroços. Você certamente tem bons motivos para deduzir que um deles é o culpado, ou talvez os três sejam, mas a menos que novos dados apareçam, todos, individualmente ou em qualquer combinação possível, são igualmente suspeitos.)

O problema com Gliese 581g é desse tipo: os dados disponíveis -- a perturbação detectada na estrela -- podem ser satisfeitos por um conjunto de soluções, envolvendo diferentes números de planetas, diferentes formatos de órbita, diferentes massas planetárias, etc.

O que o novo crítico da "descoberta" de Gliese 581g, Philip Gregory, diz é que a probabilidade de o sistema ter apenas cinco planetas, e nenhum deles dentro da zona habitável, é maior do que a solução de seis planetas, que prevê a existência do mundo habitável.

Já os autores do estudo original que postulou a presença de Gliese 581g continuam a defender sua interprtetação dos dados. Quem está certo? Só o tempo (e mais observações e cálculos) pode dizer.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Clonagem de mamute: origens

Você percebe que está ficando velho nesse negócio de divulgação científica quando vê uma notícia fresquinha e se lembra de já ter conversado com os protagonistas da história na década passada.

O caso da clonagem de mamute, por exemplo: em 2008, entrevistei um dos cientistas japoneses que agora está envolvido no projeto,Teruhiko Wakayama, que havia acabado de publicar um artigo científico a respeito da clonagem de camundongos congelados na revista científica PNAS.

Nos e-mails que trocamos então, Wakayama dizia esperar que que a tecnologia estaria madura para permitir tentar a criação de um mamute vivo - com o uso de um núcleo de célula de mamute congelado e um óvulo de elefante, a mesma técnica descrita nas notícias mais recentes - "dentro de 20 anos".

Agora, ele integra uma equipe que espera conseguir o feito dentro de seis anos, ou após apenas 11 anos da combinação original sobre camundongos.


Mas nem tudo são flores. Também em 2008, entrevistei Stephan Schuster, um dos responsáveis pelo sequenciamento do genoma do mamute, que me disse, com todas as letras, que aproveitar o DNA de um animal morto e congelado recentemente é ordens de grandeza mais fácil do que usar material genético de um bicho congelado há milhares de anos.

Basicamente, porque o DNA se quebra com o tempo. Schuster disse que não havia um único núcleo celular intacto para aproveitar no mamute que sua equipe estudou. Nem mesmo a divisão das cadeias de DNA em cromossomos estava preservada. Agora, os cientistas que trabalham com Wakayama dizem ter conseguido "de 2% a 3%" de núcleos celulares de mamute em bom estado.

Entre os desafios técnicos à frente da equipe internacional está o fato de que ninguém ainda realizou a clonagem de um elefante, e nem uma transferência de embrião para o ventre uma elefanta -- passo que será necessário para gestar o eventual embrião de mamute.


Cientistas se aproximam de lago isolado há 15 milhões de anos

O website da revista Nature traz uma excelente reportagem sobre a corrida de cientistas russos para perfurar os últimos 40 metros dos cerca 4 km de gelo que separam a superfície do continente antártico das águas do Lago Vostok, um dos últimos ambientes do planeta Terra ainda intocados por mãos humanas.

Com uma área de 15.000 km² -- o tamanho aproximado do País de Gales -- e uma profundidade máxima de cerca de 800 metros, o lago fica a 1.300 km do polo sul. O lago está isolado do resto do mundo há 15 milhões de anos, mas (diz a Wikipedia) é possível que o lento deslocamento da capa de gelo da Antártida faça com que a água do lago seja trocada a cada 13 mil anos.

Um dos principais objetivos da perfuração é, claro, procurar por sinais de vida, presente ou passada. Uma massa de água isolada por gelo há milênios é a situação existente, por exemplo, em Europa, uma lua de Júpiter tida como candidata a abrigar vida.

(Antes que você imagine um monstro como o do filme O Enigma do Outro Mundo -- cartaz acima -- pulando para fora do lago, o máximo que os cientistas esperam encontrar são micróbios.)

Os russos estão numa corrida contra o tempo: sua perfuratriz avança até 3 metros ao dia, mas os pesquisadores precisam deixar a área até 6 de fevereiro.

Sherlock Homes, a Bíblia e eu

Ontem recebi uma carta -- veja bem uma carta, que veio pelo correio -- cumprimentando-me e confirmando a primeira publicação de um artigo meu (um "paper") numa revista acadêmica (um "journal"). Bom, mais ou menos. Ou quase.

A carta, muito gentil, do secretário dos Baker Street Irregulars -- o principal grupo internacional de estudo e discussão sobre Sherlock Holmes -- confirma a presença de meu "paper" The Brazilian Villainesses  of the Canon ("As Vilãs Brasileiras do Cânone") na edição de inverno do prestigioso periódico The Baker Street Journal, "BSJ" para os íntimos.

Essa edição deve sair até março (quando termina o inverno no hemisfério norte), então terei de esperar até lá para ver o filhote em papel.

Meu artigo faz parte daquilo que os aficionados por Holmes chamam de "O Grande Jogo" -- uma espécie de Role Playing Game acadêmico onde os autores fingem que os 56 contos e quatro romances estrelados por Holmes não são fruto da imaginação de Sir Arthur Conan Doyle, mas sim fragmentos das memórias de um homem real, o médico John H. Watson, a respeito de outro ser humano de carne e osso, o Sr. Sherlock Holmes.

O que torna o "jogo" divertido é o fato de os textos de Doyle estarem repletos de contradições, erros e imprecisões. O ferimento à bala sofrido por Watson durante a guerra no Afeganistão, por exemplo, aparece às vezes no braço, às vezes  na perna; Holmes diz ter escapado da morte em 1891 usando uma arte marcial que só foi inventada em 1898;  as regras do turfe usadas no conto Estrela de Prata simplesmente não são as regras verdadeiras das corridas de cavalo; e assim por diante.

(Meu artigo trata de demonstrar, entre outras coisas, como Isadora Klein, a vilã brasileira de As Três Empenas, pode ser membro de uma família "de conquistadores espanhóis que são líderes de Pernambuco há séculos".)

O exercício intelectual envolvido em "jogar o jogo" é muito parecido com teologia e exegese bíblica, na medida em que envolve reinterpretar fatos e encontrar desculpas para sustentar uma ficção implausível. A semelhança vem da raiz da atividade: o primeiro "jogador" foi um padre, monsenhor Ronald Knox, com o clássico ensaio A Study in the Literature of Sherlock Holmes.

Embora, diferentemente da teologia, o Grande Jogo não dê (ainda) acesso a elevados postos acadêmicos, à monarquia absoluta de um pequeno país europeu e/ou a pensões vitalícias, ele tem duas vantagens claras: a primeira é que Holmes e Watson são figuras infinitamente mais interessantes que Abraão e Moisés; a outra é que os defensores da ortodoxia segundo a qual Watson foi casado duas vezes, e os hereges que proclamam três casamentos na vida do bom doutor nunca promoveram massacres uns contra os outros, e nunca se ouviu falar de um dualista watsoniano tentando queimar um trinitário vivo (ou morto, por falar nisso) na estaca.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Saúde, jornalismo e a febre da correlação

A frase, creio, é do colunista britânico Ben Goldacre: a missão do jornalista que escreve sobre saúde é dividir todas as substâncias do Universo, sejam de origem animal, vegetal ou mineral, em duas e apenas duas categorias: as que causam câncer e as que evitam câncer.

A piada é boa e, tendo militado um pouco na área, não tenho como negar que contém aquele grão de verdade que define as formas mais sofisticadas de humor, transmutando o mero chiste em valioso insight. Neste caso específico, há, de fato, múltiplos insights.

O primeiro é de que esse jogo de "provoca/evita" não é difícil de fazer, principalmente quando se perde de vista a velha máxima de que "correlação não é causação" -- isto é, de que coisas que variam de forma semelhante ao longo do tempo não estão necessariamente relacionadas por causa e efeito. Veja, por exemplo, o gráfico abaixo:

Charting Software

Ele mostra que o número de mortes por câncer no Brasil aumentou junto com crescimento da economia ao longo de um período de 12 anos. Devemos concluir que o enriquecimento do país causa câncer? Abaixo, um gráfico sobre o avanço do saneamento básico e, de novo, o número de mortes por tumores malignos:


Charting Software

O aumento da rede de esgoto torna os tumores mais violentos? Não creio, e você não deveria crer, também. Ambas as "correlações" são claramente espúrias. Mas, se em vez de "crescimento econômico" e "saneamento básico" os eixos verticais dos gráficos dissessem "consumo de chocolate diet" e "número de antenas de telefonia celular" -- duas outras grandezas que certamente aumentaram no Brasil nas últimas décadas -- teríamos o embrião de dois belos pânicos de saúde pública nas mãos, ambos tão espúrios quanto as correlações com a economia e o saneamento.

Nem toda falsa correlação é assim tão transparente, e não é raro que mesmo cientistas e autoridades de saúde pública se deixem levar por ela. Às vezes, os dados estão realmente relacionados, mas a causa é tomada por efeito, e vice-versa. Por exemplo, um estudo realizado nos EUA indica que as pessoas com muitas dívidas têm saúde ruim. Isso significa que o estresse de estar endividado faz mal? que pessoas doentes fazem mais dívidas para pagar pelo tratamento? Que pessoas de saúde ruim ganham menos e por isso não têm renda para cobrir todos os gastos que fazem? Seu palpite é tão bom quanto o meu.

Também ocorre de os eventos estarem realmente correlacionados, mas por uma causa oculta. Por exemplo, a ideia de que o álcool, a maconha e o tabaco são "portas de entrada" para drogas pesadas baseia-se numa correlação entre o consumo dessas substâncias "leves" e o subsequente consumo de produtos ainda mais danosos. Mas a correlação também pode ser interpretada de outra forma -- digamos, como sinal da existência de um tipo de personalidade que tende a gostar de se drogar, e que muito naturalmente começa com as substâncias que estão mais à mão antes de cair no fundo do poço.

À selva das correlações dúbias -- muitas delas apresentadas por fontes de autoridade -- , somam-se as pressões sobre o jornalista. O leitor comum talvez não note, mas as páginas dos jornais (e, ainda mais, as da internet) são verdadeiros concursos de gritaria, pregões da bolsa onde cada título tenta clamar mais alto que os demais pelo tempo e pela atenção de quem passa os olhos por ali. 

No caso dos jornais impressos, onde o papel é cada vez mais escasso -- e dos portais noticiosos, onde o espaço nas homepages principais, que servem de porta de entrada para o conteúdo online, é limitado --, esse é um processo que começa antes mesmo do produto chegar ao leitor. 

É preciso primeiro convencer o editor de que a história que você tem a contar é mais importante e interessante do que as outras que estão competindo pelo mesmo pedaço de papel (ou tela) e que podem ser, digamos, o último vexame do Mel Gibson, a cena de sexo explícito no Big Brother, a pancadaria na final da série B do campeonato paulista.

Essas pressões não pesam exclusivamente sobre o repórter de saúde, mas atingem todo mundo. Mas, no caso específico de quem escreve sobre saúde, elas atuam no sentido de premiar a hipérbole: uma doença letal, um tratamento salvador certamente merecem mais espaço que um ensaio clínico promissor, ou uma condição que requer cautela.

A isso se soma o dogma individualista que se apossou das redações contemporâneas, segundo o qual não basta que o fato noticiado seja importante para a galáxia, o universo, o planeta, os pandas da China ou as criancinhas da Somália. 

Ele tem de ser visceralmente importante para você, o leitor individual, e afetar a sua vida na forma mais pessoal possível (a ideia, possivelmente apoiada por uma série de pesquisas de marketing, é a de que o leitor de jornais e revistas da atualidade sofre de miopia intelectual aguda e só se interessa por coisas capazes de melhorar sua longevidade, sua vida sexual e suas finanças, não necessariamente pela ordem). 

Enfim, o que você pode fazer para escapar do ebola? Da dengue? Como a descoberta das raízes evolutivas da intolerância à lactose deve impactar a sua escolha de iogurte para o seu próprio e pessoal café da manhã?

No meio desse turbilhão, é preciso uma virtude quase heroica para resistir à tentação de disseminar o pânico às terças, quintas e sábados e apresentar o elixir da vida eterna às segundas, quartas e sextas. É alentador, de fato, ver que essa virtude ainda existe.



domingo, 16 de janeiro de 2011

O zodíaco de 14 constelações e a Era de Aquário

(Nota aos leitores: esta postagem foi ampliada em 2015 e virou um capítulo inteiro do meu Livro da Astrologia, um tratamento mais detalhado da arte, sua história e dos testes científicos a que foi submetida.) 


Eis que, graças a um astrônomo de Minneapolis, EUA, a cultura popular redescobriu que o zodíaco usado na confecção de horóscopos não corresponde ao estado real das coisas no céu. O impacto e a surpresa provocados pela "chocante" informação (em domínio público há séculos), que causou ondas de comentários no Twitter, é o tipo de coisa que me faz pensar se o planeta não estaria em mãos mais sábias se as baratas tomassem o poder logo de uma vez.


Mas, não compensa ser ranzinza aos domingos. Se você se interessou pela história da entrada do "signo" de Ofiúco (o Carregador de Serpentes) e quiser ter uma ideia mais clara do que se trata essa confusão toda, continue lendo.

Antes de ser o nome de um disco com símbolos engraçados na borda, a palavra "zodíaco" fazia referência à faixa de estrelas que serve de pano de fundo para a trajetória aparente do Sol pelo céu durante o ano.

(Para ter uma ideia melhor do que isso significa, ponha uma cadeira no centro da sala e caminhe ao redor dela, matendo os olhos no móvel. À medida que você se move, os objetos que aparecem atrás da cadeira mudam -- uma hora pode ser a estante, na outra o vaso de flores, depois a televisão, etc. Se a cadeira fosse o Sol e você, a Terra, os objetos seriam as constelações do zodíaco.)

No mundo de fantasia em que os astrólogos vivem e que tentam empurrar para seus clientes, esse pano de fundo é formado por 12 constelações, cada uma delas ocupando exatamente 1/12 do anel zodiacal, e o Sol passa exatamente um mês em cada uma.

Os fatos, no entanto, são outros: o zodíaco contém 13 constelações inteiras e um fragmento de uma décima-quarta: além dos 12 signos tradicionais, há ainda Ofiúco, integralmente dentro da faixa zodiacal, e Baleia, que meramente tangencia a trajetória anual do Sol (suponho que seja melhor assim: "Baleia" provavelmente seria um signo com predisposição à anorexia nervosa).

Além disso, a divisão do céu entre as constelações está longe de ser equânime: Escorpião tem apenas 7 graus do anel zodiacal, enquanto que Virgem ocupa 44 graus. Se o zodíaco astrológico correspondesse ao astronômico, as pessoas teriam uma semana para nascer escorpianas e quase um mês e meio para serem virginianas!

Complicando um pouco mais, há um outro fenômeno que afeta o zodíaco: a precessão dos equinócios. O eixo da Terra -- a linha que une o polo norte ao sul e em torno da qual nosso planeta completa uma revolução a cada 24 horas -- é móvel, como a ponta de um pião, e completa um giro a cada 26.000 anos.

Essa precessão faz com que o ponto do zodíaco em que o Sol parece estar durante o início da primavera do hemisfério norte, o chamado equinócio vernal, mude ao longo do tempo. Há cerca de 3.000 anos, o equinócio acontecia em Áries, e até hoje Áries é o signo que começa em 20 de março, o primeiro dia da primavera setentrional.

O problema é que, de lá para cá, o eixo da Terra se moveu e, hoje, em 20 de março o Sol não está mais em Áries, mas em Peixes.

Seria injusto dizer que os astrólogos ignoram tudo o que foi exposto acima. A maioria deles talvez não faça mesmo a menor ideia (como seus clientes certamente não fazem), mas os mais sofisticados sabem da precessão dos equinócios há, pelo menos, 2.200 anos.

Ofiúco, por sua vez, já constava da lista de constelações de Cláudio Ptolomeu, elaborada no século II, e sua presença no zodíaco foi consagrada pela União Astronômica Internacional nas primeiras décadas do século passado.

E o que os astrólogos fizeram a respeito? Bem, uma minoria decidiu adotar a chamada "astrologia sideral", que corrige os signos de acordo com a precessão. Mas você provavelmente nunca viu um astrólogo sideral, e nem jamais encontrou um horóscopo feito por um deles. Exatamente um astrólogo -- chamado Stephen Schmidt -- adotou a "Astrologia 14",que  leva em conta a presença incômoda de Ofiúco (entre Escorpião e Sagitário) e da pontinha da Baleia (entre Peixes e Áries).



 A esmagadora maioria, por sua vez, fez aquilo que as religiões e as superstições organizadas fazem quando confontadas com fatos desagradáveis: simplesmente decidiu dar de ombos e fingir que nada havia ocorrido, fazendo de conta que as duas constelações extras não existem e que cada signo realmente ocupa 30° dos 360° do zodíaco. Essa ala é a da "astrologia tropical".

Talvez eu esteja sendo duro demais ao dizer que os astrólogos tropicais não tomaram conhecimento dos verdadeiros fatos acerca da precessão e do zodíaco. O que eles fizeram, de fato, foi um ajuste de discurso, onde não são mais as constelações visitadas pelo Sol e pelos planetas, e sim os setores do céu, que têm importância.

Uma vez que o céu tenha sido dividido em 12 setores iguais, e cada setor tenha sido batizado com o nome de um signo, o problema desaparece.

É uma jogada esperta, mas com ela desaparece, por exemplo, a Era de Aquário: essa seria uma época de paz e amor que teria início quando o equinócio vernal passasse a ocorrer em Aquário, e não mais em Peixes -- um efeito direto da precessão. Se a precessão deixa de ter valor astrológico, as Grandes Eras Astrológicas se evaporam.

É importante notar, por fim, que não são essas trapalhadas que tornam a astrologia inválida. O dado mais contundente contra a prática é a série de estudos estatísticos realizada nas últimas décadas e que demonstra, além de qualquer dúvida razoável, que os astrólogos são incapazes de prever eventos ou de descobrir características de personalidade com uma taxa de sucesso melhor que a esperada por pura sorte, como se vê nas tabelas abaixo:





Mas, como de costume, os fatos raramente ficam no caminho da superstição.