sábado, 15 de janeiro de 2011

Um milagre oficialmente reconhecido é mesmo um milagre?

Na primeira postagem deste blog, há uma semana, mencionei que tinha pesquisado a questão da possessão demoníaca por conta de um livro que estou escrevendo. O livro é sobre os estudos científicos realizados acerca de intervenções sobrenaturais no nosso mundo material -- com ênfase especial em eventos tidos como milagrosos.

(A parte sobre demônios e exorcismos fica num apêndice, que decidi redigir para preservar a prática jornalística de dar voz ao "outro lado", por assim dizer.)

A notícia de que o Vaticano reconheceu a cura de uma freira, supostamente portadora do Mal de Parkinson, como sendo um milagre operado por intercessão do falecido papa João Paulo II, chega num momento onde estou até as orelhas em estudos e análises a respeito exatamente desse tipo de fenômeno.

A mídia deu um bom destaque à história do milagre e, como sói acontecer nesses casos, sem basicamente nenhum tipo de análise crítica das falhas lógicas embutidas -- na verdade, falhas essenciais -- no processo católico de criação de beatos e santos.

É instrutivo, portanto, dar uma olhada em alguns detalhes do caso.

Começando pela questão da cura da freira Marie Simon-Pierre. Esta reportagem do Los Angeles Times lembra que, em 2010, autoridades no próprio Vaticano haviam expressado dúvidas quanto ao diagnóstico de Parkinson. É curioso ainda mencionar, numa nota à parte, que esclerose múltipla -- uma doença responsável por quatro milagres certificados do santuário de Lourdes, e que também afeta o sistema nervoso em sua comunicação com os músculos -- apresenta, de acordo com o psiquiatra Terence Hines, vários casos conhecidos de remissão natural.

Hines, em seu livro Pseudoscience and the Paranormal cita um estudo no qual o acompanhamento de pacientes de esclerose múltipla revelou que, 25 anos após o início da doença, 75% deles estavam vivos e dos sobreviventes, 55% não apresentavam nenhuma deficiência significativa.

Mesmo supondo que o diagnóstico da freira foi correto, e que ela não estivesse sofrendo de alguma outra doença mais facilmente curável (ou de uma aflição de origem psicológica), é possível afirmar (a menos que, num caso clássico de raciocínio circular, já se parta dessa premissa) que a cura tenha sido operada por milagre -- isto é, por uma suspensão das leis da natureza -- e que o milagre foi obtido por intermédio de João Paulo II?

Não e não.

Primeiro, porque declarar que um fenômeno (no caso, uma cura) não tem explicação conhecida -- mesmo supondo que nenhum outro médico sobre a face da Terra, com um conjunto de competências e de experiências diferente do dos membros da comissão que investigou o caso, fosse capaz de explicar o ocorrido -- é apenas uma manifestação de ignorância.

Dizer "não sei o que provocou a cura de irmã Marie, logo foi um milagre operado por intercessão de João Paulo II" faz tanto sentido quanto dizer "não sei o que causou aquela luz no céu, logo ela veio de uma nave da galáxia de Andrômeda".

Segundo, a questão da atribuição: a freira rezou para João Paulo II, e depois foi curada. Faz sentido estabelecer uma relação de causa e efeito?

 Em princípio, pode-se tratar apenas de um caso de post hoc ergo propter hoc, o erro lógico de supor que, só porque uma coisa aconteceu depois da outra, ela foi causada pela outra. É como imaginar que estou escrevendo esta postagem porque comi sanduíche de queijo no café da manhã. As causas precedem os efeitos, mas nem tudo que precede um efeito deve ser necessariamente lançado na lista de suas causas.

A hipótese de coincidência, em oposição à de causalidade direta, ganha força quando levamos em conta o fato de que candidatos a santo tão populares quanto João Paulo II costumam ser alvos de campanhas -- basicamente, os fãs do candidato passam a sugerir a todas as pessoas que conhecem e que precisam de um "milagre" que rezem para ele, solicitando a intercessão. Com milhares, ou milhões, de suplicantes, o surgimento de um ou dois casos que escapem ao poder explicativo das comissões investigatórias é uma certeza matemática.

Assim como nas eleições parlamentares brasileiras -- onde, dado um determinado nível de investimento em publicidade de campanha, a conquista do mandato é virtualmente inevitável -- deve haver um brake-even de orações que também torna a beatificação, e posterior santificação, de um candidato um fato garantido.

Resumindo, o sistema de reconhecimento de santos e beatos do Vaticano é formado por uma máquina de geração de eventos, a campanha,  que multiplica as súplicas (às vezes por séculos a fio, se necessário) até que a lei das probabilidades gere um pequeno saldo a respeito do qual um grupo de especialistas esteja disposto a manifestar ignorância. A essa manifestação segue-se a aplicação de dois erros básicos de raciocínio: o apelo à ignorância e o post hoc.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O ano mais quente já registrado. De novo.

E eis que 2010 empata com 2005 como o ano mais quente já registrado na história. A Nasa produziu um gráfico sobrepondo a série histórica da "anomalia" registrada temperaturas médias mundiais de quatro instituições, deixando evidente a concordância, tanto nos valores quanto (claro) na tendência de alta:


A anomalia é o desvio em relação à temperatura média do período. Como se vê, o gráfico dançou em torno da média de 1930 a 1980, e disparou para cima a partir de então. Abaixo, dois mapas, um da Nasa e um do Met Office britânico, coma intensidade da anomalia no ano passado, por região do globo:


As áreas cinzas no mapa do Met Office representam regiões sem cobertura de estações meteorológicas locais. O mapa da Nasa preenche essas lacunas extrapolando os dados da estação mais próxima.

Uma questão que sempre aparece quando se fala em aquecimento global é o problema da "culpa" da atividade humana. Os fatos, no entanto, são bem simples: de todas as "forçantes" -- isto é, fatores que plausivelmente poderiam afetar o clima -- conhecidas, a única que aumentou, nos últimos séculos, de forma consistente com a temperatura global foi a concentração de CO2 na atmosfera. Quem está pondo Co2 na atmosfera somos nós. That's it.

Isso acontece porque o CO2 é opaco para a radiação infravermelha gerada quando o Sol aquece o solo. Essa radiação fica aprisionada na atmosfera terrestre, como a luz de uma lâmpada acesa dentro de uma caixa preta. Como energia não pode ser criada nem destruída, o fato de o infravermelho não conseguir escapar da Terra faz com que o planeta esteja estocando energia solar, como uma estufa. Isso é química básica e física elementar.

Essa energia estocada acaba alimentando eventos climáticos extremos, como vendavais, furacões e tempestades.

A questão de se um determinado evento (como as chuvas no Estado do Rio de Janeiro) é causado pela mudança climática é complexa porque o que o efeito estufa faz é garantir que haja mais energia disponível para desencadear esses eventos, o que os torna mais prováveis, mas não dá para estabelecer uma relação causal direta.

É, digamos, como se o clima fosse definido por um lance de dados de Thor, o deus do trovão, com eventos catastróficos ocorrendo sempre que o dado rola um 6. O que o acúmulo de CO2 faz é viciar o dado, fazendo com que o 6 apareça mais do que o normal. Determinar se um evento foi causado pela mudança climática equivale a determinar se o dado teria dado 6 mesmo se não tivesse sido viciado -- um exercício virtualmente impossível.

Ah, sim: fala-se muito em atividade solar como uma forçante, mas essa atividade atingiu níveis extremamente baixos em 2008 e 2009, com cerca de 80% dos dias em ambos os anos sem manchas solares, o que não impediu que os dois estivessem entre os mais quentes já registrados.

Será que os ETs também precisam conhecer Jesus?

No começo da semana, bloguei sobre a mais recente edição da revista científica britânica Philosophical Transactions of the Royal Society A, que é toda dedicada à questão da busca da vida fora da Terra e dos possíveis impactos de um resultado positivo na cultura e na sociedade. Um artigo que cheguei a mencionar, mas que não discuti em detalhe foi o sobre ETs e religião, escrito por Ted Peters.

Peters apresenta os resultados de uma pesquisa de opinião que fez com fiéis de várias denominações cristãs, a respeito do impacto potencial que a descoberta de vida alienígena teria em suas crenças. Ele descobriu que a maioria das pessoas acha que a existência de vida fora da Terra não enfraqueceria a convicção religiosa.

A tabela abaixo mostra o tipo de resposta dado pelos entrevistados à questão "A descoberta confirmada de uma civilização alienígena iria de tal forma contra minhas crenças que minhas crenças entrariam em crise":



Fica claro que a maioria dos cristãos discorda, ou discorda fortemente, dessa avaliação. A tabela seguinte mostra o grau de concordância com a afirmação "Embora meu ponto de vista se mantivesse intacto, o contato com extraterrestres iria de tal forma contra as crenças tradicionais que as religiões entrariam em crise":


Onde se percebe que as pessoas não-religiosas tendem a superestimar os efeitos da descoberta de civilizações extraterrestres sobre os sistemas religiosos do mundo. De qualquer forma, é extremamente provável que um conjunto de crenças capaz de sobreviver a milênios de desconfirmações práticas e de contradições internas realmente conseguiria matar no peito -- e sem grandes dificuldades -- a chegada de uma mensagem dos ETs.

(Um autor de ficcção científica infelizmente pouco conhecido, Tom Flynn, tem uma série de livros nos quais a Terra é  mantida sob quarentena pelas autoridades extraterrestres, a fim de evitar que contaminemos o restante da galáxia com nossas bobagens religiosas e suas consequências -- preconceito, guerra, corrupção, etc.)

Mas a parte mais interessante do artigo de Peters é onde ele descreve a opinião de teólogos cristãos sobre o que deve ser uma questão candente: a encarnação e morte de Cristo na Terra foi suficiente para salvar todas as almas do Universo, ou cada planeta teve de viver sua própria versão da Paixão e da ressurreição? O autor apresenta três exemplos:

Paul Tilich ( protestante) e Karl Rahner (católico) parecem ambos acreditar que seria necessária uma encarnação em cada mundo. "A encarnação é única para o grupo especial em que ocorre... não é única no sentido de que outras encarnações singulares para mundos únicos são excluídas", escreve Tilich.

Já Wolfhart Pannenberg (também protestante), discorda. Para ele, a importãncia do Jesus da Terra é a mesma e igual até os confins do Universo.

Em termos de ficção científica, o tema já foi tratado por autores como Philip José Farmer, principalmente na série de aventuras espaciais do Padre Carmody, que aparecem no livro Night Of Light, e no fantástico romance Jesus on Mars. Já James Blish tratou do impacto teológico da descoberta de uma raça alienígena que ainda vive no Paraíso -- que não experimentou a queda -- em A Case of Conscience.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Nos desastres naturais, a corrupção mata

A edição desta semana da revista Nature traz um comentário escrito por dois pesquisadores, Nicholas Ambraseys e Roger Bilham, que encontraram uma correlação entre o número de mortos em terremotos e a taxa de corrupção nos países atingidos, tal como medida pelo Índice de Percepção da Corrupção, ou CPI, da Transparência Internacional.

Os autores estimam que 83% das mortes causadas por desabamentos de prédios durante terremotos dos últimos 30 anos ocorreram em países mais corruptos do que seria de se esperar pela renda per capita nacional. Uma das conclusões do trabalho é que "quando a corrupção é extrema, seus efeitos se manifestam da indústria da construção civil".

O trabalho de Ambraseys e Bilham tratou de terremotos, não de enchentes. Mas o fato de que a questão do respeito (ou não) das leis e regras de construção é um fator importante nos dois tipos de desastre, da terra ou da água, sugere caminhos para uma adaptação rápida e ligeira da técnica. Que poderia produzir um esboço mais ou menos assim:

O Rio de Janeiro teve quase 300 mortes causadas pela chuva. O Rio de Janeiro fica on Brasil, onde o CPI é 3,7 (quanto menor o número, mais corrupto o país).

Já Brisbane, na Austrália, que enfrentou nesta semana a pior enchente desde de 1974 (no caso do Rio, desastre semelhante já havia acontecido no ano passado), teve 12 mortes confirmadas (até ontem, havia também nove pessoas desaparecidas). O CPI da Austrália é de 8,7. Cinco pontos de CPI a mais, e quase 200 mortos a menos.

Claro, é perfeitamente possível que estejamos comparando laranjas com abacaxis por aqui. Convém usar dados proporcionais, para reduzir ao máximo as distorções.

A população de Brisbane é de 2 milhões de pessoas. Já as cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na região serrana do Rio, somam 661 mil moradores. As mortes na cidade australiana, mesmo se considerarmos como mortos os nove desaparecidos, representam 0,001% da população. Nas três cidades do Estado do Rio, a porporção é de 0,04%, ou 40 vezes maior.

E quanto à renda? A Austrália é um país desenvolvido, com renda nacional bruta per capita de US$ 19.213,50. Já no Brasil, a renda per capita é de US$ 2.842,36 (números tirados daqui). Por esse indicador, a Austrália é sete vezes mais rica que o Brasil. A nossa enchente deixa 40 vezes mais mortos. E a corrupção aqui é mais que o dobro da de lá.

Uma comparação direta entre apenas dois países não prova nada, é fato. Mas seria interessante ver mais análises levando em conta o CPI quando ocorrem desastres ditos "naturais", ao menos para tentar isolar o que há de realmente "natural" nisso tudo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

'Sucata' soviética vira plataforma de turismo espacial



O ex-astronauta da Nasa Leroy Chiao -- um veterano de três voos de ônibus espacial e que comandou a Estação Espacial Internacional (ISS) entre outubro de 2004 e abril de 2005 -- encontrou uma forma de reduzir drasticamente os custos de pesquisa, desenvolvimento e testes de veículos para turismo espacial: comprar material já testado e usado pelo programa espacial soviético.

A empresa de turismo espacial de Chiao, a Excalibur Almaz, adquiriu cápsulas e módulos da tecnologia Almaz ("Diamante") desenvolvida pela União Soviética para missões militares de observação da Terra. Uma espécie de satélites espiões tripulados, três estações do programa Almaz chegaram a ser usadas, sob a cobertura do programa civil Salyut. Integraram "secretamente" o Almaz as Salyuts 2, 3 e 5 -- a foto acima é da Salyut 3.

Do material comprado por Chiao, fazem parte dois módulos de estação espacial que jamais tiveram  a oportunidade de sair da Terra e quatro cápsulas para astronautas, uma das quais já passou pelos rigores do espaço e da reentrada na atmosfera. "Queremos usar coisas que já foram testadas e provadas", disse o astronauta à NewScientist.


De acordo com nota à imprensa divulgada na última semana pela Excalibur, os módulos serão alvo de pesquisa e, depois, poderão ser completados e lançados em órbita. Num tom mais sóbrio, a empresa reconhece que "não é economicamente viável sustentar estações espaciais em órbita antes que a companhia atinja uma taxa de seis ou mais  voos ao ano".

Além de turistas, a empresa espera ter entre seus clientes cientistas, universidades e governos.


Publicidade no jornalismo impresso: o rabo que abana o cachorro

Um dia depois da série de tragédias causada pelas fortes chuvas em São Paulo, os dois principais jornais do Estado chegam para os assinantes com uma capa de... 1861. Uma propaganda de página inteira, reproduzindo uma edição bicentenária sesquicentenária do Jornal do Commercio.

O belo trabalho das equipes de primeira página dos dois veículos ficou escondido pela peça publicitária. O próprio propósito jornalístico da capa de um jornal -- convidar à leitura, organizar hierarquicamente os fatos do dia anterior, emocionar -- é neutralizado pela artimanha.

Tá, óquei. Mesmo este blog está cheio de anúncios, na vã esperança de que parte do investimento de tempo e conhecimento feito possa ser recuperado. Publicidade é importante, é o comercial que paga o leite das criancinhas, etc, etc. Certo?

Apenas  numa perspectiva míope. Em última instância, o que paga o leite das criancinhas é a qualidade do conteúdo, a credibilidade e a tradição do veículo -- que são os fatores que atraem leitores, que por sua vez são os fatores que fazem anunciar neste ou naquele jornal valer a pena.

Ninguém compra jornal pra ver anúncio, exceto no caso muito específico dos classificados. Em última instância, é o chamado conteúdo editorial (notícias, artigos, análises) que escora publicidade, e não o contrário.

Isso tudo é bê-a-bá de primeiro ano de faculdade de Jornalismo, aliás. Isso tudo é o que se ouve da boca dos chefes de redação, aliás. Porém, eis aí a capa de 1861. Hellooooo?

A inversão, na prática, da hierarquia entre notícia e publicidade pode gerar grandes ganhos de curto prazo, mas esses ganhos são, no fim, pagos em moeda moral: cada vez que isso acontece, o jornal passa a ser levado um pouco menos a sério. É, para ficar numa analogia histórico-machista, o mesmo problema da "mulher fácil" dos anos 50: depois que todo mundo percebe que dá pra passar a mão, ninguém mais quer casar com ela.

O que aconteceu nesta manhã pós-enchente, com os principais jornais deste Estado, foi um exemplo daquilo que em inglês se chama wag the dog, o rabo abanando o cachorro, a publicidade subjugando o jornalismo. Se alguém com poder de decisão nas empresas jornalísticas não se encher logo de brios, ainda veremos um anúncio colorido de pasta de dente no lugar do Ex-Libris que marca o editorial principal do Estadão.

 Quem viver, verá.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Divulgado o mais completo mapa do Universo




A Pesquisa Digital do Céu Sloan III, ou SDSS III, divulgou nesta terça-feira a mais completa e detalhada imagem do céu jamais feita. Ela tem um total de um trilhão de pixels, e de acordo com nota da SDSS III seriam necessárias 500.000 TVs de alta definição para vê-la em sua resolução plena.

A imagem acima indica (ou, indicaria, se eu tivesse espaço e definição suficientes) algumas galáxias e o ponto do mapa da SDSS III em que se encontram. Mais imagens, com melhor definição, e os artigos científicos sobre o mapa, podem ser encontradas aqui.

Inundação na Terra, raios de antimatéria no espaço



Nuvens carregadas não despejam apenas chuvas torrenciais na cabeça dos terráqueos: também enviam partículas de antimatéria para o espaço, de acordo com resultados recentes do Telescópio Espacial de Raios Gama Fermi, da Nasa.

Os cientististas já sabiam que algumas tempestades produzem flashes de raios gama, associados aos relâmpagos, mas a antimatéria nunca havia sido detectada.

Agora, acredita-se que ela surja nessas breves explosões de radiação. Os flashes de raios gama são produzidos quando elétrons altamente energéticos, acelerados pelos campos elétricos da tempestade, são repelidos pelas moléculas do ar.  

Alguns raios gama acabam dando origem a um par de partículas, uma de matéria e outra, de antimatéria. São essas partículas que atingem a órbita terrestre.

De acordo com a Nasa, estima-se que cerca de 500 flashes de raios gama associados a raios ocorram diariamente em todo o mundo.

O Fermi não detecta a antimatéria diretamente, mas sim os raios gama produzidos quando matéria e antimatéria entram em contato e se desintegram.

O telescópio nem precisa estar diretamente sobre a tempestade elétrica para detectar a antimatéria que ela cria: as partículas geradas não lançadas nas linhas de força do campo magnético terrestre, e podem acabar chegando ao observatório depois de viajar grandes distâncias.

Num caso citado pela Nasa, a tempestade ocorria sobre a Zâmbia e foi detectada quando o Fermi se encontrava acima do Egito, a milhares de quilômetros dali.

Nova previsão do apocalipse: maio de 2011

Um pequeno movimento cristão dos Estados Unidos está prevendo o fim do mundo para 21 de maio deste ano. De acordo com a revista Time, o grupo, liderado por Harold Camping, que controla uma rádio evangélica, obteve a data com o uso de um sistema matemático baseado (onde mais?) na Bíblia.

A Time faz a ressalva de que Camping já havia previsto o fim para 1994, o que, até onde se sabe, não aconteceu. Não obstante, a nova previsão atrai seguidores.

Ouvido pelo San Francisco Chronicle, Ted Solomon, de 60 anos, diz estar “aguardando ansiosamente” pela data. Uma questão interessante é o que vai acontecer com o séquito de Camping quando o dia 22 de maio amanhecer sem que os fiéis tenham sido arrebatados para o Paraíso. Se a história serve como exemplo, é possível que o grupo venha até a crescer.

O fenômeno conhecido como “dissonância cognitiva” foi definido pelo psicólogo Leon Festinger há cerca de 60 anos, e consiste num aumento do fervor da fé após uma desconfirmação cabal das crenças do grupo atingido.

 A teoria de Festinger define dissonância como o sofrimento mental produzido quando uma pessoa mantém duas ideias incompatíveis – por exemplo, o profeta está certo e o mundo não acabou. Aspessoas tentam reduzir o sofrimento reinterpretando uma ou ambas as ideias. 

Um ponto essencial para que essa conformação ocorra é o apoio social: é preciso que a reinterpretação seja legitimada pelo maior número possível de pessoas. Isso faz com que grupos sob dissonância adotem uma estratégia agressiva de proselitismo. Novos convertidos são necessários para justificar a ginástica mental em torno da doutrina que, objetivamente, provou-se falsa.

Abaixo, alguns exemplos de previsão de fim do mundo que não se confirmaram, extraídos do website de James Randi:

 Primeiro século dC: Em verdade vos declaro: muitos destes que aqui estão não verão a morte, sem que tenham visto o Filho do Homem voltar na majestade de seu Reino. (Mateus, 16:28)

Setembro de 1186: O astrólogo João de Toledo divulgou panfletos em 1179 anunciando o fim do mundo durante uma conjunção planetária que ocorreria sete anos no futuro.

3 de outubro de 1533, às 8h da manhã: Michael Stifelius calcula a data e a hora exatas do apocalipse a partir do estudo matemático do (claro) Livro do Apocalipse. Quando o mundo não acabou, Stifelius foi açoitado.

1648: O rabino Sabbati Zevi, interpretando a cabala, conclui que é o messias e que o fim do mundo ocorrerá em 1648. Num caso citado por Festinger como exemplo de dissonância cognitiva bem-sucedida, em 1665 Zevi não só ainda tinha seguidores, como o entusiasmo com o retorno a Jerusalém havia de apossado dos judeus de várias importantes cidades da Europa. Aprisionado pelo sultão do Império Turco enquanto tentava guiar seus seguidores para a Terra Santa, Zevi converteu-se ao islã.

1874, 1914, 1975: Datas propostas por diversas lideranças  das Testemunhas de Jeová.

1881, 1936, 1953: Datas calculadas a partir da Grande Pirâmide de Gizé.

1982: Data calculada com base num alinhamento de planetas.

Julho de 1999: Profecia de Nostradamus.



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Descoberto planeta apenas 40% maior que a Terra

O observatório espacial Kepler, da Nasa, encontrou seu primeiro planeta rochoso. Chamado Kepler 10-b, o planeta é apenas 40% maior do que a Terra. Trata-se do menor mundo já descoberto fora do sistema solar. Detalhes da descoberta serão publicados no Astrophysical Journal.


Embora seja rochoso e pequeno, o planeta está longe de poder ser considerado “semelhante à Terra”. De acordo com a Enciclopédia dos Planetas Extra-Solares, sua massa estimada é 4,5 vezes maior que a terrestre, e a distância que o separa de sua estrela é apenas 1% da que existe entre a Terra e o Sol. “Escaldante” é um eufemismo para o clima em Kepler 10-b.

(Se quiser conferir, a Nasa fez uma animação mostrando como deve ser a superfície de lá.)

A densidade do planeta é alta: 8,8 ou, de acordo com Nasa, “comparável à de um peso de ferro”. A densidade da Terra, em comparação, é 5,5. A densidade 1,0 é a da água.

A estrela que orbita, Kepler-10, é parecida com o Sol – sua massa é 80% da massa solar – e fica a cerca de 570 anos-luz daqui. Na nota da Nasa, os cientistas responsáveis pela descoberta disseram ter sido capazes de detectar oscilações sísmicas, ou “astromotos”, na estrela.

Com o Kepler 10-b, já foram detectados cerca de 520 planetas fora do sistema solar. O Kepler está numa corrida com outros telescópios, em especial o francês Corot (que conta com participação brasileira) para determinar quem será o primeiro grupo de cientistas a encontrar um "irmão gêmeo" da Terra no espaço.

A pressão pela precedência vem despertando algumas paixões muito humanas. Ano passado, a relutância da equipe responsável pelo Kepler em divulgar, na íntegra, os dados obtidos pelo observatório para que outros grupos de cientistas pudessem usá-los para orientar suas observações foi criticada em círculos científicos como, no mínimo, uma falta de boas maneiras.

Estamos sozinhos no Universo?

Há mesmo motivos para acreditar que os ETs têm de ser diferentes de nós? Qual será o efeito da descoberta de vida extraterrestre sobre as religiões do mundo? Como medir o impacto da descoberta de vida alienígena sobre a sociedade humana?

Essas são algumas das questões tratadas na edição mais recente da revista científica Philosophical Transactions of the Royal Society A, publicada pela Royal Society do Reino Unido. A edição (cujo conteúdo está inteiramente disponível online), é toda dedicada à busca de vida e inteligência fora da Terra. Com mais de uma dúzia de artigos, cobre um belo terreno e paga um simpático tributo à ficção científica.

No editorial, por exemplo reconhece-se que “a imaginação, no entanto, não deve ser subestimada como um meio valioso de levar o conhecimento rumo a novas fronteiras (...) também é importante que o público em geral tenha tido a oportunidade de refletir sobre o assunto”. Arthur C. Clarke e Gene Roddenberry, entre outros, agradecem, penhorados.

Em um artigo que provavelmente será o mais polêmico da edição, o paleontólogo Simon Conway Morris argumenta forçosamente que a pressão da seleção natural, somada à constância das leis da física e da química pelo Universo, tornam a evolução de inteligência inevitável onde quer que haja vida. Ele argumenta que aqui na Terra vemos sinais de forte pressão na direção da inteligência, não só entre mamíferos, mas também em pássaros.

“Nosso alienígena pode parecer incomum, mas se ela precer (sim, sexo também é inevitável, como imprinting dos pais, determinação sexual, viviparidade e leite), será uma diferença da espessura da pele”, afirma ele, apelando para o argumento da pressão darwiniana e da convergência evolucionária.

Morris reconhece que sua conclusão o arremessa diretamente no colo do Paradoxo de Fermi: se vida semelhante à nossa é abundante no Universo, por que não fomos visitados ainda? Afinal, civilizações tecnológicas podem ter começado a evoluir bilhões de anos antes de nós, e se tiverem os mesmos tipos de pulsões e motivações que nós, já deveriam ter tomado conta da galáxia.

O paleontólogo conclui que estamos sozinhos. E encerra seu artigo assim: “Então, o que você prefere? Vizinhos com a cultura dos astecas, ou o uivo do silêncio?”




'Milagre do Sol' em Estocolomo


A foto acima foi escolhida a Imagem Astronômica do Dia pela Nasa, e com boa razão. Trata-se de um halo solar visto sobre Estocolmo, capital da Suécia. Halos surgem quando cristais de gelo na atmosfera refratam a luz do Sol, atuando como uma lente aplicada sobre o astro.

Além do halo, a imagem -- feita pelo fotógrafo Peter Rosén, que é o detentor do copyright -- traz ainda dois parélios, ou "falsos sóis". Parélios são conhecidos há milênios. O filósofo grego Aristóteles já os descrevia, anotando, em sua Meteorologia, que “falsos sóis são vistos sempre ao lado do Sol, nunca acima ou abaixo”.

E, realmente, parélios sempre aparecem à direita e à esquerda do Sol, na mesma altura do astro e afastados dele por uma distância angular de 22°. Há uma descrição mais detalhada (em inglês) de como ocorre a formação do parélio aqui.

Uma curiosidade histórica: parélio e halo solar estão entre as explicações sugeridas para dar conta do chamado "milagre do Sol" avistado em Fátima, Portugal, em 13 de outubro de 1917.

As pessoas presentes ao "milagre" descreveram uma série de alterações no Sol -- ele parecia "girar", "lançar raios" e até "cair sobre a Terra" -- mas nenhuma alteração astronômica foi observada em nenhuma outra parte do mundo, o que sugere que as testemunhas viram um fenômeno limitado à atmosfera terrestre (e às suas imaginações excitadas, claro).

domingo, 9 de janeiro de 2011

Simulação prevê derretimento da Antártida no ano 3000

Uma geração, passa, outra vem; mas a terra permanece. O belo verso do Eclesiastes reflete uma verdade – o homem (ainda) não é capaz de destruir o planeta – mas deixa em aberto uma questão que deveria incomodar a todos, inclusive os mais radicais defensores da inerrância bíblica: essa terra que permanece, vale a pena viver nela?

Simulações divulgadas neste domingo na revista Nature Geoscience indicam que mesmo se a humanidade parasse de injetar dióxido de carbono na atmosfera antes do fim deste século, os efeitos da mudança climática desencadeada pelo homem continuariam a se fazer sentir por pelo menos um milênio.



O colapso da capa de gelo da Antártida Ocidental, com um correspondente aumento do nível do mar em 4 metros, parece inevitável. A ata prevista é por volta do ano 3000.

Outro dado levantado na pesquisa e que provavelmente será agregado às intermináveis discussões sobre quem é o culpado e quem é a vítima na questão do efeito estufa informa que o hemisfério sul será muito mais afetado. O (suposto) fim das emissões neste século levaria, por exemplo, a uma reversão da deterioração no Ártico, em comparação ao colapso da Antártida, onde o aquecimento previtso é de 5° C.

As simulações foram feitas por pesquisadores da Universidade de Calgary, no Canadá.

Em outro estudo divulgado na Nature Geoscience deste domingo simula os efeitos do CO2 não no próximo milênio, mas até o fim deste século. No caso, a previsão é de que o gelo acumulado em picos e em camadas glaciais diminuirá de 15% A 27%, em volume, até 2100. Em algumas regiões, a perda poderá ser de 75%. 

Quando nos lembramos de que o Rio Amazonas é alimentado pelas geleiras dos Andes, e de que a agriculturade boa parte da Ásia depende de águas que fluem do Tibet, a situação fica um pouco mais clara. Este trabalho também é de pesquisadores canadenses, mas da Universidade de Colúmbia Britânica.

Claro, esses resultados são apenas simulações, que certamente são incapazes de levar em conta todos os fatores envolvidos e podem muito bem estar erradas. E a terra permanece, enquanto as gerações vêm e vão. 

Imagem: Geleira do Território de Yukon, América do Norte. Christian Schoof/Nature


40 anos depois, Apollo revela água de cometa na Lua



Cometas chocaram-se com a Lua menos de 100 mihões de anos após a colisão que deu origem ao satélite, implantando água com uma assinatura atômica característica no manto lunar, diz um estudo publicado neste domingo pela revista Nature Goescience.

 A descoberta é ainda mais surpreendente porque  foi feita em rochas coletadas pelo programa Apollo e que, até agora, pareciam provar que a lua é completamente seca.

“O sistema solar era especialmente violento naquela época”, disse ao blog o astrônomo James Greenwood, principal autor do artigo científico. “Por exemplo, as superfície lunar mostra sinais de que havia muitos grandes impactos ocorrendo nos primórdios do sistema. E isso foi logo depois de um corpo do tamanho de Marte atingir a Terra, afinal”.

Greenwood explica ainda que os chamados “mares” da Lua, grandes planícies cobertas de lava seca, têm muito menos crateras que outras áreas porque são de formação mais recente. “Houve uma queda exponencial nos impactos com o passar do tempo”.

A água de cometa foi descoberta em rochas trazidas para a Terra pelas missões Apollo 11, 12, 14 e 17, realizadas em 1969 (11 e 12), 1971 (14) e 1972 (17). A Apollo 17 foi o último pouso tripulado na Lua, e a única missão a levar um cientista a bordo, o geólogo Harrison ‘Jack’ Schmitt, que também desempenhou as funções de piloto do módulo lunar.

A descoberta de sinais de água de cometa nas rochas trazidas teve de esperar mais de 40anos e a análise realizada pela equipe de Geenwood, no entanto.

“Encontrar água nas rochas lunares era um dos principais objetivos as amostras Apollo, mas as técnicas usadas nos anos 70 não eram adequadas para detectar níveis tão baixos”, explica o cientista. “Além disso, eles podem ter simplesmente olhado para as amostras erradas. Depois de analisar um monte de rochas e solos e determinar que eram secos, não fazia sentido continuar analisá-los”.

Greenwood acrescenta que, quando as técnicas necessárias para encontrar quantidades mínimas de água surgiram, nos anos 80 e 90, ninguém pensou em aplicá-las às rochas lunares – porque todos já “sabiam” que elas eram secas, afinal!

“A ideia de que a Lua é seca é uma ‘lei fundamental’ da ciência planetária”, brinca ele. “Tive me esforçar um bocado só para obter as amostras, e elas me foram dadas em meio a resmungos”.

O pesquisador disse que teve de convencer os coautores do estudo que não estavam no laboratório dos resultados, e checar todas as análises três vezes para garantir que estavam corretos.

A equipe de Greenwood sabe que a água veio de cometas porque a proporção de deutério – uma forma mais pesada de hidrogênio – na composição das moléculas encontradas é o dobro da encontrada da Terra. “Os únicos objetos no nosso sistema solar com uma proporção similar são os cometas”, afirma ele.

Foto: Pegadas e rastros deixados pelos astronautas da Apollo 17 na Lua. Nasa