sábado, 8 de janeiro de 2011

Crime, satanismo, história e histeria

Pesquisava eu um capítulo sobre psiquiatria e possessão demoníaca para um livro que estou preparando e eis que recebo, como sugestão, um link para esta reportagem da BBC, publicada no G1: Igreja mexicana quer combater crime com exorcismo.

Não se trata aqui de fazer pouco caso da crise de segurança pública que assola o México (neste sábado foram encontrados 15 corpos decapitados no país), mas seria de se esperar que o padre exorcista Pedro Mendoza Pantoja, citado pela BBC como autor da declaração vinculando a situação trágica vivida pelos mexicanos à prática de "rituais espíritas, ocultismo e bruxaria" conhecesse um pouco mais da história da própria religião que representa, e fosse um pouco mais responsável em suas declarações.

É praticamente ponto pacífico entre os historiadores, por exemplo, que a relação entre satanismo e cristianismo é exatamente a mesma que há entre Bizarro e Super-Homem: um só existe como produto e réplica distorcida do outro.

A Encyclopedia of Extraordinary Social Behavior(Enciclopédia de Comportamento Social Extraordinário), compilada pelo historiador Hilary Evans e pelo sociólogo Robert Bartholomew, por exemplo, é taxativa: "O termo satanismo sugere uma religião formal e estruturada na qual a adoração de Satã é a característica mais proeminente. Nenhuma religião assim jamais existiu, e nem poderia existir". Mais adiante, o verbete acrescenta que "a Igreja trouxe o satanismo sobre si". Elaborando: "Tendo criado o Satã bicho-papão para assustar a si mesma, a Igreja foi devidamente assustada por ele".

Sinais dessa criação aparecem, por exemplo, na relação da Igreja Católica com a magia -- entendida como o conjunto de práticas que vão desde antigos rituais pagãos para propiciar espíritos da natureza, etc., a simpatias para "amarrar" o amor, atrair riqueza e outras preocupações mundanas -- entre os séculos XIV, XV, XVI e XVII.

A mesma Enciclopédia oferece a seguinte linha do tempo:

Até 1350: A magia é tida como inócua e até tolerada;

De 1350 a 1450: Passa a ser classificada como heresia;

De 1450 a 1650: Perseguição, com finalidade de erradicação.

A partir de 1650: Paulatina tomada de consciência dos exageros cometidos na fase anterior; começa o fim da perseguição.

Evans e Bartholomew destacam que "a cultura de bruxaria contra a qual a Igreja se levantou era uma ficção de seus teólogos", que passaram a ver velhas superstições e fragmentos de sabedoria popular como sinais de uma organização secreta -- na verdade, imaginária -- de adoradores do diabo. Uma ficção trágica, com dezenas, ou mesmo centenas de milhares de pessoas vitimadas pela caça às bruxas.

Eventuais episódios de "cultos satânicos" ou "missas negras" sempre foram mais paródias da liturgia cristã, e portanto derivados dela, do que um sistema independente e organizado de adoração das "forças do mal". Como escreve o historiador Richard Cavendish:

"Parece que o satanismo (...) tem suas raízes na teologia ruim de uma minoria de padres católicos. (...) Uma vez que se tenha aceito que qualquer padre, não importa o quanto seja ignorante ou indigno, tinha o poder de transformar pão e vinho no Corpo e Sangue de Cristo, era um pequeno passo acreditar que o padre e a missa estavam dotados de poderes mágicos".

Com isso, prossegue Cavendish, "alguns padres estavam prontos para voltar seus supostos poderes mágicos para o mal". Um exemplo que ele cita é o da celebração de missas de réquiem pela intenção de uma pessoa ainda viva -- com o intuito de apressar sua morte.

Além de ignorar a raiz histórica e o verdadeiro significado do "satanismo", o padre mexicano ignora também o potencial que declarações como as que fez têm para desencadear o que cientistas sociais chamam de "pânico moral", uma busca histérica por bodes expiatórios que, não raro, deixa cadáveres pelo caminho.

O exemplo clássico é, claro, o da caça às bruxas na Europa, que já descrevi acima. Mas não é o único: nos anos 80, os EUA foram tomados por denúncias de que um culto satânico estaria abusando de crianças.

O nível de fantasia associado às acusações chegou a um ponto em que "testemunhas" descreveram uma suposta rede de túneis subterrâneos por onde as crianças eram "contrabandeadas"; exumação de corpos de madrugada; e bruxas voando sobre cemitérios.

Um processo judicial surgido em meio ao caso tornou-se o mais longo julgamento de um caso criminal da história dos Estados Unidos, e terminou com todos os sete réus absolvidos.