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Tchau, Cassini

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A missão Cassini, uma iniciativa conjunta da Nasa e da Agência Espacial Europeia, chega ao fim hoje. O lançamento da Cassini, em 1997, foi um dos primeiros eventos internacionais de ciência de acompanhei profissionalmente como jornalista, num período extremamente movimentado para o setor -- mais ou menos na mesma época, houve o torneio de xadrez entre Garry Kasparov e o computador da IBM, e também o pouso do primeiro robô móvel em Marte, o Sojourner, da Nasa. Foram bons tempos para escrever sobre ciência. Tudo era muito lúdico, maravilhoso, cheio de esperança. A distopia ainda não tinha nos atropelado.

Fazer um balanço de todo o conhecimento -- e do deleite estético -- que Cassini produziu desde que chegou ao sistema formado por Saturno, suas luas e seus anéis é assunto para livros inteiros, então vou ficar com um só, o dos gêiseres de Encélado:



A imagem acima foi feita ano passado, enquanto a Cassini se aproximava para um último sobrevoo do polo sul de Encélado, uma das luas de Satu…

Tem certeza de que se lembra de onde estava em 11/9?

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O aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 geraram uma verdadeira onda de lembranças nas redes sociais, com pessoas perguntando e relatando onde estavam e o que faziam quando os aviões atingiram as torres. Curiosamente, as memórias do 11/9 foram objeto de diversos estudos sobre a ilusão da permanência das chamadas “flashbulb memories”,  as lembranças de eventos marcantes que parecem ficar  “marcados a ferro e fogo” na memória -- mas não ficam.

Em um artigo publicado no periódico Applied Cognitive Psychology em 2004, o pesquisador da Universidade Duke Daniel Greenberg aponta que o presidente dos Estados Unidos na época dos ataques, George W. Bush, num intervalo de pouco mais de 30 dias – entre 4 de dezembro de 2001 e 5 de janeiro de 2002 – deu três versões diferentes sobre como ficou sabendo dos atentados.

Pior, duas dessas versões continham uma alegação impossível: a de que ele havia assistido à transmissão ao vivo da colisão do primeiro avião com as Torres Gêm…

Campanha de assinaturas do blog

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Quem acessou este blog ao longo do feriado talvez tenha encontrado, no rodapé de algumas postagens, um aviso pedindo assinaturas. Aquilo foi o "lançamento suave" da campanha, que retomo agora, numa versão um pouco mais "hard".

Então.

O blog está pedindo assinaturas. Por quê? Basicamente, porque eu gostaria de ter mais liberdade para escolher meus temas (minhas "pautas", como se diz em jornalismo) e, tendo-os escolhido, mais espaço de manobra para apurar os assuntos do jeito que acho que devo, e escrever depois do jeito que acho que devo.

O fato de o blog não gerar renda muitas vezes me força a ser superficial, a deixar alguns temas que considero importantes de lado enquanto corro atrás da ração do gatinho, etc. Assinaturas são um jeito de contornar isso. Claro, se houver assinantes.O projeto "levantar fundos para o blog" também inclui uma lojinha de livros usados dentro do guarda-chuva da Amazon.com.br, aliás.

Não sei se há gente suficiente, aí…

Ciência das confissões e testemunhas

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Confissões e testemunhos oculares são, ao contrário do que a maioria das pessoas parece imaginar, os tipos mais fracos de evidência, e os que mais levam a condenações injustas. O trabalho da ONG americana Innocence Project mostra que 70% das condenações revertidas graças a exames de DNA tiveram, como principal causa, equívocos cometidos por testemunhas. O assunto foi tema de um estudo financiado pelo governo dos Estados Unidos e que acabou resumido num artigo publicado, neste ano, no periódico PNAS. Diz o paper que "as ciências da visão e da memória indicam que erros judiciários baseados em testemunhos oculares são prováveis, a priori, dadas as condições de incerteza, viés e excesso de confiança".

Excesso de confiança é uma expressão-chave: pesquisa publicada em 2003 sobre memórias de eventos de forte apelo emocional (no caso, o ataque às Torres Gêmeas de Nova York), revela que o grau de confiança que uma pessoa diz ter em suas lembranças não se correlaciona com a veracidade…

Judiciário americano e mudança climática

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A Justiça dos Estados Unidos vem sendo cada vez mais acionada em ações envolvendo mudança climática, e o Judiciário vem assumindo um papel importante na formulação da política climática, afirma artigo publicado na edição mais recente da revista Science. O trabalho, que pode ser acessado neste link, é de autoria de pesquisadores da Universidade George Washington.

"Questões científicas associadas à mudança climática não são muito diferentes de grandes controvérsias anteriores que levaram à litigação, como as que envolveram o tabaco e a exposição a produtos químicos", escrevem os autores. "Esses casos podem oferecer insights sobre os possíveis desenvolvimentos na litigância climática, mas a mudança climática também poderá gerar respostas jurídicas únicas".

Por meio de nota, uma das autoras do estudo, Sabrina McCormick, disse que "decisões judiciais que apoiam ou detêm a ação do governo na questão da mudança climática terão impactos nas emissões de gases do efeit…

Em publicação científica, presas e predadores se confundem

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O Brasil é o 13º país que mais inclui trabalhos científicos sobre biomedicina em periódicos internacionais considerados “predatórios”, que cobram para aceitar artigos e publicam-nos sem exigir qualidade mínima ou submetê-los a um processo adequado de revisão pelos pares. De um levantamento de mais de 1,9 mil artigos lançados em 2016, em mais de 200 desses periódicos, vinte e sete, ou 1,4%, tinham, como principal autor ou autor correspondente, um brasileiro.

Os países que dominam esse “ranking negativo” da ciência são Índia (27%), EUA (15%), Nigéria (5%), Irã (4%) e Japão (4%). O levantamento, encabeçado pelo pesquisador canadense  David Mohrer,  do Ottawa Hospital e da Universidade de Ottawa, fundamenta  um duro artigo de opinião publicado na edição desta semana na revista Nature.

Para os autores, o principal achado da pesquisa foi que, ao contrário do que a comunidade científica supunha, a clientela dos editores predatórios não se concentra nos países de renda média ou baixa. “Mais…

Lição de jornalismo de Carl Kolchak

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Tem gente que diz que escolhas profissionais passam, muitas vezes, por protótipos da ficção: advogados que optaram pelo direito depois de assistir a  Perry Mason, ou médicos inspirados por, sei lá, M*A*S*H* ou Grey's Anatomy.  Há até quem diga que todo jornalista sonha em ser Clark Kent. No meu caso particular, no entanto, se há alguma inspiração em heróis ficcionais, é Carl Kolchak.

O personagem foi criado pelo escritor americano Jeff Rice (1944-2015) para seu romance The Kolchak Papers. Antes mesmo que o livro viesse a ser lançado, a história teve seus direitos vendidos para televisão é foi adaptada por Richard Matheson -- mais conhecido pelo romance Eu Sou a Lenda e por ter roteirizado boa parte da série original Além da Imaginação e dos filmes de Roger Corman "baseados" em Edgar Allan Poe --  como o telefilme The Night Stalker.

A história gira em torno de um repórter, o Kolchak do título, que descobre que um serial-killer que ataca em Las Vegas é, na verdade, um vam…