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Baleia ou barriga?

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Em sua imortal crítica à novela Brejal dos Guajás, de José Sarney, Millôr Fernandes, irritado com o uso inadequado do condicional ("iam", "deviam") reclama: "afinal, deviam chegar ou chegavam? o autor tá aí pra dar informações, pô!". Imagino que, se o autor de uma obra de ficção "tá aí pra dar informações, pô!", o jornalista, mais ainda. Infelizmente, a grande imprensa brasileira parece estra se esquecendo disso. Caso em tela: o infame "jogo da Baleia Azul".

A coisa começou a me incomodar ontem à noite, quando o painel do Em Pauta, da Globo News, que pretensamente reúne alguns dos comunicadores mais influentes e qualificados do Brasil, começou uma discussão histérica sobre o assunto, como se a existência dessa suposta "ciranda da morte" online, manipulada por sinistros vilões anônimos "que têm de ser presos",  já fosse um fato estabelecido.

É meio deprimente ver gente como Eliane Catanhêde, que passa mais da metade…

Pós-verdade em propaganda de jornal, pode?

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Suponho que o calhau acima, publicado na Folha de São Paulo de hoje -- calhau, segundo o amigo Houaiss, é "notícia, artigo etc. utilizado para preencher espaço criado pela falta de material editorial ou por falha no cálculo da diagramação" -- faça referência à pesquisa sobre hábitos de leitura dos vestibulandos publicada pela própria Folha no ano passado. Só posso supor, porque o anúncio fala abstratamente em "pesquisa DataFolha", sem nenhuma outra referência para a fonte em questão. Não custa lembrar que até anúncios de cosméticos vagabundos que citam "pesquisas" em seu favor costumam trazer mais dados checáveis do que isso aí.

 Bem, imaginando que a pesquisa referenciada seja a mesma divulgada em novembro de 2016, vale repetir aqui o que escrevi a respeito, na época:

Aos números. Eles mostram que maioria esmagadora dos candidatos à Fuvest consome notícias online (85% dos aprovados, ante 78% dos reprovados, dentro da margem de erro declarada de 4 pontos)…

Astrologia financeira, ó céus!

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Um amigo me envia, pelo Facebook, o link para uma matéria da Folha de S. Paulo sobre "astrologia financeira". Não trato diretamente desse assunto no meu "Livro da Astrologia", mas foi só esticar o braço aqui na estante de casa e pegar o volumoso "Tests of Astrology", um compêndio publicado em Amsterdã no ano passado, que reúne e analisa centenas de experimentos envolvendo astrologia realizados nas últimas décadas. Uma olhada no índice e vi que ele contém duas páginas e meia dedicadas à aplicação da astrologia nas finanças.

A principal ilustração é essa que você vê aí em cima, comparando os preços do ouro em Londres durante os primeiros meses de 1984 e a previsão de um "consultor astrológico" para o mesmo período. Esse consultor, Daniel Pallant, não era um astrólogo qualquer, mas o diretor  de uma firma (Commodity Consultants, Ltd.) que vendia suas dicas astrológicas a clientes investidores.

O verbete em "Tests of Astrology" comenta ain…

O financiamento público da pseudociência

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A ciência brasileira está nas cordas, cambaleando, por causa de cortes drásticos no orçamento do setor -- e isso quem diz não sou eu, deu na Nature. Sintomaticamente, menos de uma semana antes, a Science havia publicado estudo mostrando que o investimento público em pesquisa científica é fundamental para o sucesso da indústria farmacêutica, base de um mercado que, em 2015, gerou receitas globais de mais de US$ 1 trilhão, ou meio Brasil.

Ninguém ignora, ainda, que toda a "economia do conhecimento" em que estamos imersos se apoia em tecnologias desenvolvidas com verbas públicas, seja por meio de dotações a universidades ou de contratos entre governos e empresas que mantêm departamentos robustos de pesquisa e desenvolvimento, além de laços com universidades.

Há quem se escandalize com isso, a privatização dos lucros gerados com conhecimento financiado pelo público, etc., mas o fato é que, pelas regras atuais do jogo global, é o gasto público em ciência que puxa o fio da meada …

Ficção científica em promoção!

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A livraria brasileira da Amazon.com incluiu dois contos meus de ficção científica em sua "Mega Oferta", que começou hoje e vai até a meia-noite do próximo dia 9 de abril. São elesDiamante Truncado e O Lamento de Suas Mulheres. O primeiro, que chegou a finalista do Prêmio Argos do ano passado, envolve um programa de pesquisa latino-americano no lado oculto da Lua, num momento do futuro em que os EUA se desintegraram por conta de conflitos internos político-religiosos e o chamado "Terceiro Mundo" cresceu para ocupar o vácuo (se a segunda parte da premissa parece fantasiosa demais, olhem para o governo Trump e digam-se se a primeira não foi profética!).

O Lamento de Suas Mulheres é uma espécie de reflexão que põe em paralelo duas visões do planeta Marte, a dos romances científicos do início do século passado -- que viam lá um cenário que misturava fantasia medieval com faroeste -- e a oferecida pela ciência moderna. O título, claro, é uma paráfrase da frase atribu…

"Science": sem investimento público, sem inovação privada

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A verba para pesquisa biomédica fornecida pelo governo dos Estados Unidos, por meio de seus Institutos Nacionais de Saúde (NIH), é fundamental para o desenvolvimento do setor privado na área, argumenta estudo publicado na revista Science. De acordo com levantamento que cobre os últimos 27 anos, 10% das dotações (“grants”) dos NIH são responsáveis diretas por novas patentes, e 30% das demais geram artigos que acabam citados em pedidos de patente subsequentes.
“Embora os formuladores de políticas públicas frequentemente ponham foco nas patentes obtidas diretamente por pesquisadores acadêmicos, o grosso do efeito da pesquisa dos NIH sobre patentes parece ser indireto”, escrevem os autores, do MIT, Harvard, Columbia e do Bureau Nacional de Pesquisa Econômica. “Também não encontramos nenhuma relação sistemática entre o foco de uma dotação em pesquisa ‘fundamental’ ou ‘aplicada’ e sua chance de acabar citada numa patente”, destacam.
“Uma interpretação é que esta pesquisa ‘fundamental’ é qu…

Bloody Murder! Estou na Mystery Weekly!

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O filósofo estoico Epicteto tem uma máxima sobre a qual todo mundo deveria meditar pela manhã -- "o que, então, você gostaria de estar fazendo quando a morte o alcançar?" -- e creio que a minha resposta seria "planejando um assassinato perfeito". Não de verdade, claro, mas para compor um conto de mistério. E essa aplicação toda está rendendo frutos: meu conto Bull's Eye é um dos destaques da edição mais recente da revista canadense de literatura policial Mystery Weekly, já disponível para venda nas plataformas digitais.

Esta é a minha terceira história de mistério a sair numa publicação internacional, e a segunda escrita originalmente em inglês: antes já tinha sido publicado em Needle: a Magazine of Noir e (em tradução) na tradicionalíssima Ellery Queen Mystery Magazine (EQMM, para os íntimos). No início do ano, assinei contrato para uma segunda publicação na EQMM, e assim que souber quando deve sair, aviso aqui.

Quem me conhece como escritor provavelmente pen…