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O baixo-ventre da divulgação científica

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A língua inglesa tem uma palavra, underbelly, que comumente é vertida como "baixo-ventre", mas que comporta também o sentido metafórico, meio intraduzível, de face sórdida, oculta, podre e vulnerável de alguma coisa. A expressão sempre me faz pensar no lado de baixo de uma tora caída na floresta, em contato constante com o solo úmido, decompondo-se em gases malsãos e alimentando criaturas assustadoras de todo tipo.

Uma característica perturbadora do underbelly é que, assim como sua tradução literal, o baixo-ventre, ele é parte indissociável do corpo principal: um não existe, não vive, sem o outro. Todas as profissões têm, imagino, seu underbelly, aquela parcela de profissionais que não podem simplesmente ser descartados como corruptos ou renegados como charlatões,  mas dos quais os colegas de boa-fé e boa reputação gostariam de se afastar o máximo possível.

Na minha área específica, a divulgação-barra-jornalismo de ciência, o underbelly é formado pela ampla categoria que co…

"Professor Fraude", num conselho editorial perto de você

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Um grupo de pesquisadores poloneses apresenta, em artigo de opinião publicado na Nature, o resultado de uma “operação secreta” realizada para testar a idoneidade de centenas de publicações que se apresentam como periódicos científicos com revisão pelos pares, e põe em evidência a proliferação de periódicos predatórios, mais preocupados em recolher taxas de publicação dos autores do que em apresentar ciência de qualidade.

Depois de descrever como estavam assustados com os convites, quase diários, que recebiam para integrar os conselhos editoriais de periódicos obscuros, os psicólogos Piotr Sorokowski, Agnieszka Sorokowska e Katarzyna Pisanski, juntamente com o filósofo Emanuel Kulczycki, relatam como criaram uma cientista fictícia – Anna O. Szust, ou “Anna Fraude”, em polonês –, com um currículo fraco e cheio de inconsistências. Em nome dessa “Professora Fraude”, enviaram e-mails a 360 periódicos, oferecendo os serviços dela como editora.

“O perfil era tristemente inadequado”, explica…

Pressão, inexperiência, caráter? Causas de viés de ciência

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Cientistas em início de carreira, trabalhando em grupos pequenos ou com colaboradores distantes e publicando em periódicos com revisão pelos pares são os que mais correm risco de divulgar resultados exagerados ou inválidos, aponta artigo sobre vieses e distorções na literatura científica publicado no periódico PNAS. O artigo também aponta que a integridade pessoal (ou falta dela) do pesquisador individual tem um peso maior na produção de falsos resultados do que a pressão social no meio acadêmico por mais publicações.
Com o título “Meta-assessment of bias in Science” (“Meta-avaliação do viés na Ciência”), o trabalho tem entre seus autores John P. Ioannidis, do Centro de Inovação em Meta-Pesquisa de Stanford (Meta-Research Innovation Center at Stanford, ou METRICS, na sigla em inglês), que há vários anos se dedica a expor as distorções da literatura científica.

Neste novo trabalho, Ioannidis e coautores debruçaram-se sobre uma série de meta-análises de diversas áreas. Como meta-análise…

Micróbios astronautas no sistema TRAPPIST-1

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Se a vida surgiu em pelo menos um dos sete planetas localizados em órbita da estrela TRAPPIST-1, há uma alta probabilidade de que ela tenha se espalhado pelos demais, aponta estudo publicado no repositório de artigos científicos de exatas ArXiv. Os trabalhos lançados no ArXiv ainda não passaram por revisão pelos pares, mas são oferecidos para discussão pela comunidade acadêmica e podem acabar sendo aceitos por periódicos estabelecidos.

Os autores do artigo, da Universidade Harvard e do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, propõem um modelo para calcular a probabilidade de ocorrência de eventos em que rochas ejetadas ao espaço por um planeta, após o impacto de um cometa ou asteroide, transportem micróbios viáveis para outro, num processo chamado “litopanspermia”. Leia nota completa no Telescópio.

O primeiro português

Um crânio hominino datado de 400 mil anos atrás foi descoberto num sítio arqueológico português, a Gruta da Aroeira, informa artigo publicado no periódico PNAS. A época coincide com a do aparecimento de vestígios do Homem de Neandertal no registro fóssil, e o crânio foi encontrado junto de restos de animais e ferramentas de pedra similares às da cultura acheulense, um tipo de tecnologia normalmente associada, na África, ao Homo erectus, uma espécie mais antiga que o neandertal.

Essa tecnologia é especialmente conhecida pela presença de “bifaces”, pedras lascadas de modo a assumir uma forma de gota, arredondada numa extremidade e pontuda na outra, lembrando uma cabeça de machado. O crânio da Aroeira representa o fóssil humano europeu localizado mais a oeste já encontrado para seu período – o Pleistoceno Médio –, e um dos mais antigos do continente a ser associado à tecnologia acheulense. Leia mais a respeito no Telescópio.

Rankings universitários: para que servem

“Sou da lógica de que a gente só conhece o que a gente pode medir. Se a gente não mede, é percepção. Sua universidade é inclusiva? Mostre. Sua universidade é produtiva? Mostre”. Assim a jornalista e pesquisadora Sabine Righetti explica sua visão da necessidade de indicadores de desempenho da educação superior, sejam ou não consubstanciados em rankings. Righetti defendeu a tese de doutorado “Qual é a melhor? Origem, limitações e impactos dos rankings universitários”, defendida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, como parte do Programa de Pós-Graduação em Política Científica e Tecnológica. A tese teve orientação do professor Renato Pedrosa, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Ensino Superior (LEES).

A tese em si representa um levantamento pioneiro do que a literatura especializada traz sobre os impactos dos rankings universitários na gestão das universidades, nas políticas públicas e na decisão dos alunos, além da análise desses impactos sobre uma instituição específica,…

Imunoterapia para símios, contra HIV

Um tratamento de imunoterapia, baseado em injeções de dois anticorpos clonados de pacientes humanos com grande resistência natural ao HIV, mostrou-se promissor num teste em macacos, aponta artigo publicado online na tarde de segunda-feira pela revista Nature.

Os anticorpos, 3BNC117 e 10-1074, foram isolados na Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos. Em janeiro deste ano, a Universidade reportou bons resultados do primeiro teste em humanos de injeções de 10-1074, num pequeno estudo envolvendo 19 voluntários portadores de HIV e 14 pacientes saudáveis.

Nesse trabalho, a maioria dos doentes tratada com altas doses do anticorpo teve rápido declínio na concentração de vírus. Parte dos vírus se mostrou resistente, no entanto, e em pesquisas de laboratório essas cepas foram eliminadas, com sucesso, pela aplicação do outro anticorpo, 3BNC117. A pesquisa foi realizada em parceria com a Universidade de Colônia, na Alemanha, e publicada em Nature Medicine. Para saber mais dos novos resultados…