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Falso disco voador (re)encontrado em museu

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Os restos de um "UFO" que teria caído num pântano inglês em 1957, poucas semanas após o lançamento do Sputnik, foram redescobertos, recentemente, no depósito do Museu de Ciência de Londres, informou, no início do mês, o jornal Yorkshire Post. O autor do artigo que relata a descoberta, jornalista David Clarke, é autor do livro How UFOs Conquered the World, que aborda a saga dos objetos voadores não-identificados como fenômeno cultural. Como mostram fotos de jornal de 60 anos atrás, o suposto óvni -- que, antes de desaparecer no depósito do museu, chegou a ser declarado "a fraude mais cara e bem elaborada da Grã-Bretanha" -- era uma miniatura:



Depois de descoberto, o suposto disco voador foi aberto, revelando em seu interior um livreto de folhas de cobre cobertas por "hieroglifos". Decifrados pelo dono de uma cafeteria (yep), esses sinais mostraram-se um aviso dos extraterrestres para os humanos, exortando os terráqueos a evitar um conflito nuclear: "e…

A Lição de Tales para escritores

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Tales de Mileto (624-546 AEC) é tradicionalmente considerado o primeiro "cientista" do Ocidente: ele teria sido o primeiro sábio a tentar explicar os fenômenos da natureza nos termos da natureza, sem apelar para a linguagem da religião e do mito. Também teria sido o primeiro a prever com sucesso um eclipse solar. Era um homem adiante de seu tempo e, sob muitos aspectos, até do nosso.

Além de proto-cientista, no entanto, Tales também foi um observador arguto da natureza humana, e um sujeito com um ótimo senso de ironia. De acordo com o biógrafo Diógenes Laércio, certa vez perguntaram a Tales o que teria surgido primeiro, o dia ou a noite, ao que ele respondeu: "A noite, que veio um dia antes".

Suas respostas epigramáticas mais famosas são as que deu à questão sobre qual a coisa mais difícil do mundo ("conhecer-se a si mesmo")  e a mais fácil ("dar conselhos aos outros"). Incapaz de olhar com clareza para o próprio umbigo, o ser humano ainda assi…

Truques paradoxalistas

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Pesquisando para uma postagem que fiz semana passada, encontrei uma expressão, "paradoxalistas", usada por Alfred Russell Wallace para se referir a pessoas que se recusam, teimosamente, a aceitar evidência científica que contradiz suas crenças pessoais. Wallace, especificamente, teve uma série de problemas com terraplanistas, que ele acabou processando por calúnia diversas vezes.

Em sua autobiografia, Wallace se refere a sua polêmica com os terraplanistas como "o incidente mais lamentável de minha vida": depois de demonstrar, empiricamente, a curvatura ad Terra, respondendo a um desafio desse grupo, o cientista passou a ser alvo de incômodos de diversos tipos, incluindo processos judiciais e cartas difamatórias. Ele escreve no livro que o geólogo Charles Lyell acreditava que uma demonstração clara da curvatura deveria "deter esses tolos". O que, obviamente, não aconteceu.

Terra plana é apenas uma faceta do paradoxalismo. A síndrome reaparece em diversos …

On writing

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Estava fazendo umas contas e percebi que 2018 será o ano em que mais contos inéditos meus sairão, em inglês, do que em português: além da história já publicada em Mystery Weekly, vem aí mais um na antologia A World of Horror, a sair nos próximos meses, e ainda um mistério de quarto fechado programado para a edição de maio/junho de Ellery Queen Mystery Magazine -- e esse conto acabou me trazendo um convite para colaborar com o blog da revista. Aqui o Brasil, fora as histórias antigas programadas para antologias multi-autorais, deve sair um conto novo -- se tanto.

Nada disso, claro, aconteceu do dia para a noite. Comecei a arriscar textos em inglês ainda no século passado, escrevendo para fanzines. Minha primeira venda foi para a antologia Rehearsals for Oblivion, publicada em 2006. Depois, War Stories, de 2014, e Swords vs Cthulhu, 2016. Nesse meio tempo, minha colaboração com Octavio Aragão misturando José de Alencar, Edgar Rice Burroughs e Philip José Farmer também ganhou uma certa …

Terraplanismo, século 19

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A reemergência do movimento "terraplanista" -- que defende a ideia de que o planeta Terra é chato como uma panqueca -- neste início de século é, às vezes, citado como prova da decadência geral da mentalidade humana no novo milênio. Não deixa de ser um alívio, portanto, descobrir que as mesmas ideias -- defendidas com a mesma convicção e os mesmos argumentos furados -- já  circulavam no século 19.

Uma edição de 1870 da revista Nature traz uma nota sobre uma aposta de 500 libras (algo como 56 mil libras em dinheiro de hoje, ou mais de 250 mil reais) entre um terraplanista, John Hampden, e o co-descobridor da evolução por seleção natural, Alfred Russell Wallace, para determinar a forma da Terra.

Foram usados três estacas de 4 metros, espaçadas a intervalos de 5 quilômetros. Por meio de um par de telescópios, um em cada extremidade da fila de estacas, buscou-se uma linha de visada ligando a primeira estaca à terceira. A aposta dizia respeito à altura aparente a estaca do meio. …

Vaca louca e febre amarela: apontamentos

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O livro The Oxford Handbook of the Science of Science Communication tem um capítulo dedicado ao vexame que foi a comunicação entre cientistas, governo britânico e público durante a chamada "crise da vaca louca", desencadeada nos anos 90 quando se descobriu que uma doença neurológica, que podia afetar gado alimentado com um certo tipo de ração, era transmissível, via consumo de carne bovina, para seres humanos.

Embora o foco do capítulo esteja nas lições desse episódio para a comunicação de riscos alimentares, há alguns pontos que talvez sejam úteis para quem se encontra envolvido na atual onda de incertezas e contradições governamentais em torno da febre amarela.

Uma das principais conclusões do capítulo diz respeito ao elevado "risco de dizer que não há risco": se as autoridades insistem que não há perigo, ou que a situação está sob controle -- que "não há risco" -- e depois se veem desmentidas pelos fatos, sua credibilidade sofre, e a chance de pânico …

Ciência, tecnologia e pobreza

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Cientistas e divulgadores costumam atribuir negação ou a hostilidade à ciência a questões político-ideológicas ou religiosas. Mas, em artigo publicado na edição mais recente da revista Skeptical Inquirer, o pesquisador de comunicação científica Matthew Nisbet cita trabalhos empíricos que sugerem outros fatores que influenciam essas posturas, incluindo um que parece ser ainda mais importante do que religião ou política, na determinação do olhar -- favorável ou hostil -- do público americano diante da ciência e da tecnologia: classe social. Os mais pobres desconfiam mais, e têm mais receio, de avanços científicos e tecnológicos.

"Essas pessoas podem ter uma preocupação justificada sobre como poderão competir numa economia baseada em inovação, pagar o preço dos novos avanços médicos e tecnológicos e como esses avanços poderão reforçar padrões de discriminação e outras desigualdades", escreve Nesbit.

Entre as principais fontes de preocupação encontram-se a automação -- incluind…